a OBSERVATÓRIO DA PAX

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020


 

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domingo, 20 de dezembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 4ª Semana


O ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até chegar ao caso extremo da dark web. Os meios de comunicação digitais podem encerrar o risco de dependência, de isolamento e de progressiva perda de contacto com a realidade concreta, levantando obstáculos ao desenvolvimento de relações interpessoais autênticas. Novas formas de violência são difundidas mediante os social media, por exemplo, o ciberassédio [...].
PAPA FRANCISCO, Cristo vive. Exortação Apostólica pós-sinodal, 2019, n. 88


REFLEXÃO

A propósito do novo livro lançado por Cristina Ferreira, “Pra Cima de Puta”, os portugueses viram-se confrontados com a nova realidade do século XXI, o cyberbullying. E se o título do livro é forte, duro e agressivo, o cyberbullying não fica atrás. Trata-se de assédio virtual, invasivo da privacidade, agressivo, injurioso e difamador. Consiste na “divulgação pública de conteúdos textuais, visuais e áudio que depreciem ou desacreditem alguém (ou um grupo), assim como a intimidação, ameaça e perseguição através de mensagens privadas que ocorra de forma sistemática, recorrente e intencional”. Cabem aqui desde comentários injuriosos, ofensivos, ameaças, humilhações, divulgação de imagens de teor sexual, usurpação de fotografias para colocar em sites de encontros, roubo de identidade, criação de perfis falsos em redes sociais, … 
A internet figura entre as mais importantes ferramentas de pesquisa, utilizada por todos [...]. E se disponibiliza todo um sem fim de informação e lazer social, útil e pertinente, também nos trouxe o cyberbullying, um território carregado com o claro propósito de prejudicar alguém, onde não há margem para o “não tinha intenção”. A intenção é clara e inequívoca: atacar, perseguir, denegrir e fazer mal, quer se trate ou não de uma figura pública, quer se conheça ou não pessoalmente. A troco de nada [...] passam a ser o alvo perfeito de ataques, ao sabor de um ódio tornado público. Com recurso muitas vezes a perfis falsos, homens e mulheres, jovens e adultos, escondidos por um écran, num sentimento de impunidade, vão destilando ódio nas redes sociais, de forma cobarde, criminosa e censurável. 
É preciso dizer que não são apenas as figuras públicas os alvos dos ataques. Somos (ou podemos ser) todos. Quando menos se espera podemos estar a ser perseguidos, vítimas da obsessão de alguém, que passa a enviar todo o tipo de mensagens e comentários, ofensivos e ameaçadores. E se há quem ignore essas vozes que desconhecem a bondade, a tolerância e o respeito, há muitos outros, e de forma especial os mais jovens, que sofrem o pão que o diabo amassou. Foi o caso de Amanda Todd, vítima desde os 12 anos de cyberbullying e que aos 15 se suicidou… 
Quando abro um vídeo que revela a intimidade sexual de alguém que não consentiu na divulgação, quando partilho uma foto que atenta contra os direitos de outra pessoa, estou a ser cúmplice e a alimentar o cyberbullying, estou a contribuir para colocar em marcha a corrente de maldade que corrói e abala as estruturas da humanidade no século XXI. E isto precisa ser dito, precisa ser educado, precisa ser ensinado, sob pena de tudo isto passar a ser encarado com normalidade. [...]
CARLA RODRIGUES, Quando um teclado me define.
In Igreja Viva. Suplemento do Diário do Minho. 3 de dezembro 2020, p. 2.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

54º Dia Mundial da Paz 2021 - A cultura do cuidado como percurso de paz

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 54º DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE JANEIRO DE 2021 
A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ 

1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados. 

O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis.[1] 

É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição. 

Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer. [+]

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domingo, 13 de dezembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 3ª Semana


 (...) o termo ‘discurso de ódio’ engloba todas as formas de expressão que propaguem, incitem, promovam ou justifiquem o ódio racial, a xenofobia, o antissemitismo ou outras formas de ódio baseadas na intolerância, incluindo: a intolerância expressa por nacionalismo agressivo e etnocentrismo, discriminação e hostilidade contra minorias, pessoas migrantes e pessoas descendentes de migrantes.
CONSELHO DA EUROPA, Comité de Ministros, Recomendação nº. (97) 20


REFLEXÃO

O ódio está a ganhar terreno em todo o mundo. 
Uma onda ameaçadora de intolerância e violência baseada no ódio tem como alvo fiéis de muitas religiões em todo o mundo. Infelizmente, estes cruéis incidentes estão a tornar-se frequentes.
Nos últimos meses, vimos judeus assassinados em sinagogas, as suas lápides profanadas com suásticas, muçulmanos mortos a tiros em mesquitas, os seus locais de cultos vandalizados, cristãos mortos durante as orações e as suas igrejas incendiadas.
Além destes ataques horríveis, uma retórica cada vez mais repugnante está a ser dirigida contra grupos religiosos, mas também contra minorias, migrantes, refugiados, mulheres e os chamados "outros". 
À medida que o fogo do ódio se propaga como um incêndio arrasador, as redes sociais estão a ser exploradas para promover a intolerância. Os movimentos neonazis e a supremacia branca ganham adeptos e a retórica incendiária está a ser utilizada para proveito político.
O ódio está a deixar de ser residual, tanto nas democracias liberais como nos regimes autoritários, lançando uma sombra sobre a humanidade. [...]
Reconhecemos o discurso do ódio como um ataque à tolerância, inclusão, diversidade e à própria essência das nossas normas e princípios de direitos humanos.
De um modo mais geral, o ódio prejudica a coesão social, corrói os valores partilhados e pode lançar as bases para a violência, fazendo retroceder a causa da paz, estabilidade, desenvolvimento sustentável e dignidade humana.
Nas últimas décadas, o discurso de ódio tem sido precursor de crimes atrozes, incluindo o genocídio, do Ruanda à Bósnia, até ao Camboja.
Temo que o mundo esteja a chegar a outro momento agudo na luta contra o ódio. [...]
Aos que insistem em usar o medo para dividir as comunidades, devemos dizer que a diversidade é uma riqueza, nunca uma ameaça.
Um espírito profundo e sustentado de respeito e recetividade mútuos pode transcender publicações e tweets disparados numa fração de segundo. Nós nunca devemos esquecer, afinal de contas, que cada um de nós é um “outro” para alguém, em algum lugar. Não pode haver ilusão de segurança quando o ódio é generalizado.
Como parte da humanidade, é nosso dever cuidar uns dos outros.
Naturalmente, todas as ações destinadas a abordar e a confrontar o discurso do ódio devem ser consistentes com os direitos humanos fundamentais.
Abordar o discurso do ódio não significa limitar ou proibir a liberdade de expressão. Significa impedir que o discurso de ódio se transforme em algo mais perigoso, particularmente incitação à discriminação, hostilidade e violência, o que é proibido pelo direito internacional.
Precisamos de tratar o discurso do ódio como lidamos com todos os atos maliciosos: condenando-os, recusando amplificá-los, combatendo-os com a verdade e incentivando os perpetradores a mudar o seu comportamento.
É hora de intensificar a luta contra o antissemitismo, o ódio antimuçulmano, a perseguição aos cristãos e todas as outras formas de racismo, xenofobia e intolerância.
Os governos, a sociedade civil, o setor privado e os órgãos de comunicação social têm papéis importantes a desempenhar. Os líderes políticos e religiosos têm uma responsabilidade especial de promover a coexistência pacífica.
O ódio é um perigo para todos e, portanto, esta luta deve ser uma tarefa de todos. 
Juntos, podemos apagar o fogo do ódio e defender os valores que nos unem numa só família humana.

ANTÓNIO GUTERRES, O discurso de ódio, um incêndio arrasador.
In https://unric.org/pt/o-discurso-de-odio-um-incendio-arrasador

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domingo, 6 de dezembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 2ª Semana


Isto é uma maçã.
Algumas pessoas podem tentar dizer-lhe que isto é uma banana.
Podem gritar “banana, banana, banana”, uma e outra vez.
Podem escrever BANANA, em maiúsculas.
E pode até começar a acreditar que isto é uma banana.
Mas não é.
Isto é uma maçã.
Clip publicitário da CNN, mostrando uma maçã. In https://youtu.be/nuTEeCNBfYE


REFLEXÃO

A eficácia das fake news fica-se a dever, em primeiro lugar, à sua natureza mimética, ou seja, à capacidade de se apresentar como plausíveis. Falsas mas verosímeis, tais notícias são capciosas, no sentido que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários, apoiando-se sobre estereótipos e preconceitos generalizados no seio dum certo tecido social, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração. A sua difusão pode contar com um uso manipulador das redes sociais e das lógicas que subjazem ao seu funcionamento: assim os conteúdos, embora desprovidos de fundamento, ganham tal visibilidade que os próprios desmentidos categorizados dificilmente conseguem circunscrever os seus danos.
A dificuldade em desvendar e erradicar as fake news é devida também ao facto de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogéneos e impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes. Esta lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação (que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo), corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas. O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Deste modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade. [...]
Nenhum de nós se pode eximir da responsabilidade de contrastar estas falsidades. Não é tarefa fácil, porque a desinformação se baseia muitas vezes sobre discursos variegados, deliberadamente evasivos e subtilmente enganadores, valendo-se por vezes de mecanismos refinados. Por isso, são louváveis as iniciativas educativas que permitem apreender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento. Igualmente louváveis são as iniciativas institucionais e jurídicas empenhadas na definição de normativas que visam circunscrever o fenómeno, e ainda iniciativas, como as empreendidas pelas tech e media company, idóneas para definir novos critérios capazes de verificar as identidades pessoais que se escondem por detrás de milhões de perfis digitais.
Mas a prevenção e identificação dos mecanismos da desinformação requerem também um discernimento profundo e cuidadoso. Com efeito, é preciso desmascarar uma lógica, que se poderia definir como a «lógica da serpente», capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar. Trata-se da estratégia utilizada pela serpente – «o mais astuto de todos os animais», como diz o livro do Génesis (cf. 3, 1-15) – a qual se tornou, nos primórdios da humanidade, artífice da primeira fake news, que levou às trágicas consequências do pecado, concretizadas depois no primeiro fratricídio (cf. Gn 4) e em inúmeras outras formas de mal contra Deus, o próximo, a sociedade e a criação. [...]
Este episódio bíblico revela [...] um facto essencial para o nosso tema: nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos.
De facto, está em jogo a nossa avidez. As fake news tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que carateriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações económicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder, ter e gozar, que, em última instância, nos torna vítimas de um embuste muito mais trágico do que cada uma das suas manifestações: o embuste do mal, que se move de falsidade em falsidade para nos roubar a liberdade do coração. Por isso mesmo, educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem «mordendo a isca» em cada tentação.
PAPA FRANCISCO, "A verdade vos tornará livres" (Jo 8, 32). Fake news e jornalismo de paz.
Mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2018.
In http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html.

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domingo, 29 de novembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 1ª Semana


No mundo digital estão em jogo ingentes interesses económicos, capazes de fomentar formas de controlo tão subtis como invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático. O funcionamento de muitas plataformas acaba por favorecer, amiúde, o encontro entre pessoas que pensam do mesmo modo, dificultando a confrontação entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios. A proliferação das fake news é expressão de uma cultura que perdeu o sentido da verdade e submete os factos a interesses particulares. A reputação das pessoas corre perigo mediante julgamentos sumários online. Tal fenómeno também afeta a Igreja e os seus pastores.
PAPA FRANCISCO, Cristo vive. Exortação Apostólica pós-sinodal, 2019, n. 89


REFLEXÃO

O oitavo mandamento, «não levantarás falso testemunho», já deixou de se recomendar até às crianças. Está espalhado o hábito de introduzir distinções que preveem mentiras boas, mentiras úteis, até indispensáveis. […] 
A virtude que impede o falso testemunho é a sinceridade. É uma virtude que está diretamente ligada à verdade: em relação à própria pessoa, aos outros e a Deus. Quem é sincero consigo próprio tem a capacidade de honrar a sua dignidade, referenciando-se às leis morais e civis em que acredita. É uma questão de seriedade. […] 
As ofensas à verdade são muitas. A mais grave é a mentira: dizer a falsidade para enganar. É um pecado que parece desaparecido. Simplesmente, transformou-se, tornando-se até tendência. 
O exemplo mais evidente é o uso da internet. Por causa de interesses deploráveis, inserem-se fake news na rede. Para amaciar o impacto usa-se a língua inglesa, quando muitas vezes se escrevem e propõem mentiras pensadas, redigidas e comunicadas para denegrir, declarando o falso. Nem sequer as leis penais dos Estados predispuseram instrumentos adequados que condenem o fenómeno. Em nome da privacy – na realidade, por interesses económicos – criam-se danos em pessoas, grupos, nações. Desencadeiam-se processos que determinam um modo de sentir comum, impelindo para a não obrigatoriedade da verdade, e, consequentemente, limpando a mentira. […] 
A nossa cultura, com referências morais firmes que remontam aos tempos antigos, tem dificuldade em chamar à mentira o seu verdadeiro nome. É um pecado gravíssimo porque, baseando-se na boa-fé das pessoas, cria um costume que deixa em suspenso a referência moral. 
São também numerosos os pecados contra a boa fama do próximo: o juízo temerário verifica-se quando se admite como verdadeira uma presumida culpa de um outro. A difamação pode exprimir-se em maledicência (dizer mal do outro), em murmuração (feita sem que o outro o saiba), e, por fim, em calúnia (atribuir defeitos aos outros) (cf. Catecismo da Igreja Católica nn. 2475-2480). Parecem pecados característicos das “comadres” que murmuram sobre tudo e sobre todos. Na realidade, são muitas vezes cometidos por inveja, para garantir o sucesso pessoal, por simples maldade, frequentemente misturados com amargura e reivindicações. […] 
Há uma maneira mais subtil de não dizer a verdade: é a lisonja que pode tornar-se adulação, para chegar à complacência. Permanecer na verdade hoje é difícil: o ambiente é artificial, as pressões são enormes, as ocasiões para a superficialidade são diárias. Só um grande esforço para viver uma espiritualidade alta, atenta aos valores, ao respeito pelos outros, permite não transgredir o oitavo mandamento. 
Essa atitude pode ser sintetizada na humildade. A capacidade de compreender antes de tudo os próprios limites, que, por sua vez, se traduz na correção das relações. Esta posição ajuda a ser-se leal, sem condescender em perdões superficiais. […] 
A perspetiva evangélica requer limpidez. A liberdade de se ser fiel à verdade, mas também a sua busca e a coragem de professá-la. No tempo do pensamento globalizado, é um útil apelo à justiça, à compreensão, à construção de uma identidade corajosa e transparente.

VINICIO ALBANESI, Ottavo, non dire falsa testimonianza.
In http://www.settimananews.it/teologia/ottavo-non-dire-falsa-testimonianza.

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segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Declaração da Pax Christi Internacional no 75º Aniversário das Nações Unidas: Um apelo ao seu fortalecimento na era (pós) COVID-19


A par da Comemoração do seu 75.º aniversário, a Pax Christi Internacional emite esta declara-ção conjuntamente com outras vozes católicas que advogam pela paz, pela justiça e pelos direitos humanos nas Nações Unidas (ONU). Tal como a ONU, o movimento Pax Christi e outras organizações católicas brotaram após a devastação da II Guerra Mundial e do desejo de proteger as gerações vindouras dos flagelos da guerra.


Declaração no 75.º Aniversário das Nações Unidas: 
Um apelo ao seu fortalecimento na era (pós) COVID-19

Neste Dia das Nações Unidas, 24 de outubro de 2020, a Pax Christi Internacional, juntamente com os seus membros e sócios, comemora o 75.º aniversário do sistema da ONU e reconhece, do fundo do coração, os contributos globais da organização para a paz, para a justiça e para os direitos humanos pelo mundo todo.

Entre as suas conquistas contam-se o desenvolvimento dos direitos humanos, o fomento do desenvolvimento sustentável e da ação climática, a regulação das finanças mundiais, a adoção de padrões de desarmamento e a implementação de iniciativas para a cessação das hostilidades (como o recente apelo do Secretário-geral da ONU para um cessar-fogo mundial devido à CO-VID-19). Os nossos membros e sócios, pelo mundo todo, fizeram ampla ação na ONU defendendo estas medidas e participando ativamente na sua implementação.

Ao mesmo tempo que celebramos as suas conquistas e apoiamos o seu trabalho, estamos pro-fundamente preocupados com os desafios com que se confronta a ONU. Estas preocupações são especialmente prementes nestes tempos em que urgem respostas multilaterais às questões sociais, económicas e ambientais, decorrentes da devastadora crise sanitária pela COVID-19.

Estamos particularmente preocupados com a sistemática incapacidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas para agir em situações críticas [1], a falta de vontade de alguns Estados-membros para intensificar a ação como reposta à crise climática, as respostas desadequadas às necessidades urgentes dos migrantes e refugiados, a não concretização do desarmamento nuclear e a falta de empenho para com os cidadãos do mundo. [2] Esperamos que o aniversário deste ano e a crise sem precedentes da COVID-19 possam gerar o clima ideal para o fortalecimento, tão aguardado, do sistema das Nações Unidas ao qual é necessário e urgente o apoio de todos os Estados-membros.

No dia 21 de setembro de 2020, numa reunião da Assembleia Geral para comemorar o 75.º aniversário da ONU, os líderes mundiais adotaram uma declaração em honra do quadro multilateral e comprometeram-se a cumprir melhor a promessa de proteger as gerações futuras do flagelo da guerra. [3] Para honrar esta promessa, instamos os Estados-membros da ONU a rejeitar o populismo nacionalista e, em seu lugar, a trabalhar em conjunto por um mundo mais sustentável.

No seu recente discurso à Assembleia Geral, o Papa Francisco frisou: “A pandemia mostrou que não podemos viver sem o outro, ou pior ainda, um contra o outro. As Nações Unidas foram criadas para unir as nações, aproximá-las, como uma ponte entre os povos; usemos esta instituição para transformar o desafio que enfrentamos numa oportunidade para construirmos juntos, uma vez mais, o futuro que queremos.” [4]

Este ano também se completam cinco anos sobre a adoção da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, fundamentada nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os Estados-membros da ONU comprometeram-se a tomar medidas para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que todas as pessoas usufruem da paz e da prosperidade. Para alcançar estes objetivos em 2030, os líderes mundiais devem repensar a ordem mundial, que está a alcançar os seus limites sociais, económicos e ecológicos, como este ano paralisante mostrou claramente.

Estamos preocupados pela desaceleração dos progressos rumo à concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sobretudo porque a pandemia está a atingir, de forma mais dura, as pessoas mais vulneráveis [5]. A luta mundial contra a pandemia pode constituir uma oportunidade para que as nações voltem a focar-se nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, visando conseguir um mundo mais justo, melhor e mais seguro para todos.

Por ocasião do 75.º aniversário das Nações Unidas, e neste ano de crise sem precedentes para a humanidade, pedimos aos Estados-membros da ONU que renovem o seu compromisso de melhorar o sistema das Nações Unidas na era (pós) COVID-19 e que adotem as seguintes medidas:

  • Apoiar a prioridade que o Secretário-geral concede à prevenção de conflitos e à manutenção da paz, como parte da reestruturação do pilar da paz e segurança das Nações Unidas, contribuindo assim para o esforço no âmbito do tratamento das causas dos conflitos, do estabelecimento da paz, da mediação, na manutenção da paz e nos esforços pós-conflitos.
  • Explorar, escolher e implementar abordagens não-violentas na resolução de conflitos que coloquem em perigo a paz e a segurança internacionais, entre outros, tendo por base o Artigo 33 da Carta das Nações Unidas. Considerar as estratégias não-violentas como a primeira opção na resposta aos desafios sociais violentos ou potencialmente violentos, em vez do recurso à ação militar, que corre o risco de agravar ainda mais uma situação.
  • Aumentar o Orçamento para o funcionamento das Nações Unidas, particularmente na concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030, e para fazer face à crise sanitária da COVID-19 entre as populações mais vulneráveis. Alterar o financiamento e destiná-lo aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável afastando-o dos gastos militares globais que assistiram, durante o ano passado, ao maior aumento anual numa década, alcançando os 1.917 mil milhões de dólares [6].
  • Assinar e ratificar posteriormente o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, aprovado em 2017 na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, ou, logo que tenha ocorrido, instar a que outros países também assinem e ratifiquem o tratado. Implementar, em pleno, o referido tratado logo que entre em vigor, o que deve ocorrer 90 dias após a quinquagésima ratificação (até à data: 47 ratificações), incluindo as suas disposições sobre a assistência às vítimas e a reparação ambiental. [7]

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[1] A título de exemplo, podemos citar a incapacidade do Conselho de Segurança para enfrentar a crise dos muçulmanos Rohingya, a guerra civil na Síria ou a disputa eleitoral na Bielorrússia. Além disso, o Conselho levou vários meses para respaldar o apelo a um cessar-fogo global pela COVID-19, que o Secretário-geral da ONU lançou em março.

[2] 74% dos que responderam a uma consulta global das Nações Unidas a propósito deste 75º aniversário consideram a ONU “essencial” para fazer face aos desafios globais quando se olha para o futuro. Contudo, mais de metade vê a ONU como algo remoto na sua vida e diz não saber muito sobre ela. Leia-se, a pág. 99 do relatório The Future We Want: The United Nations We Need (setembro de 2020), disponível em: https://www.un.org/sites/un2.un.org/files/un75report_september_final_english.pdf

[3] Cobertura da reunião e comunicados de imprensa, World Leaders Adopt Declaration Promising Safer, More Resilient World for Future Generations, as General Assembly Marks United Nations Seventy-Fifth Anniversary (1 de setembro de 2020), GA/12267, disponível em: https://www.un.org/press/en/2020/ga12267.doc.htm.

[4] Missão Permanente de Observação da Santa Sé junto das Nações Unidas, Address of His Holiness, Pope Francis, To The United Nations General Assembly (25 de setembro de 2020), Sessão da Assembleia Geral da ONU no 75º Aniversário, disponível em: https://holyseemission.org/contents/statements/5f6df8f78dd6b.php

[5] SDG Knowledge Hub, UN Secretary-General Releases 2020 SDG Progress Report (19 de maio de 2020), disponível em: https://sdg.iisd.org/news/un-secretary-general-releases-2020-sdg-progress-report.

[6] SIPRI, Global military expenditure sees largest annual increase in a decade—says SIPRI—reaching $1917 billion in 2019 (27 de abril de 2020), disponível em: https://www.sipri.org/media/press-release/2020/global-military-expenditure-sees-largest-annual-increase-decade-says-sipri-reaching-1917-billion.

[7] Veja-se este site da ICAN para as últimas atualizações respeitantes às assinaturas e ratificações do Tratado de Proibição de Armas Nucleares das Nações Unidas: https://www.icanw.org/signature_and_ratification_status.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Fratelli tutti: Declaração da Pax Christi Internacional sobre a encíclica do Papa Francisco


Fratelli tutti: Uma base para promover a não-violência num mundo violento

Uma declaração da Pax Christi Internacional sobre a encíclica do Papa Francisco
6 de outubro de 2020


A Pax Christi Internacional está grata pela nova encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti: Sobre a fraternidade e a amizade social. Este documento oportuno enfrenta as realidades de um mundo polarizado, violento e injusto no meio da crise mundial da pandemia COVID-19 e visualiza uma nova forma de avançar para um futuro mais justo, pacífico, igual, esperançoso e não-violento.

Embora Fratelli tutti não use explicitamente o termo não-violência, a encíclica oferece uma base clara para desenvolver e integrar a teologia e a prática da não-violência no ensinamento da Igreja, um esforço ao qual se dedica a Iniciativa Católica de Não-violência da Pax Christi. Em particular, a análise clara do Papa Francisco da violência global, incluindo a violência estrutural, prepara o cenário para uma compreensão mais profunda da não-violência.

No início do documento, o Papa Francisco descreve o “normal injusto”, com as suas estruturas económicas, políticas, sociais e tecnológicas interligadas, que dividem os privilegiados de milhares de outros, incluindo os empobrecidos, os migrantes, as mulheres, os doentes, os idosos. Para transformar o mundo de maneira não-violenta, devemos primeiro vislumbrar a sua violência, e o Papa Francisco não nos poupa nisto.

O papa, porém, não se limita a descrever a realidade do nosso mundo injusto; ele responde-lhe com temas-chave fundamentados numa visão espiritual primordial, que é também a base da ética universal da não-violência: que todos os seres em todos os lugares estão interrelacionados. Inspirado por São Francisco de Assis, que fez da sororidade e da fraternidade de todos os seres uma pedra de toque da sua espiritualidade e ação concreta no mundo, o Papa Francisco dissolve todas as barreiras que nos impedem de ver e viver esta realidade.

Na encíclica, uma série de temas resulta logicamente disto. Se somos todos parentes, se somos todos uma família, então devemos desafiar tudo o que destrói esta unidade: mostrando cuidado radical uns pelos outros; construindo uma cultura de encontro autêntico; tornando o diálogo central na nossa maneira de ser; e colocando em ação a solidariedade com os mais excluídos, despossuídos, desumanizados e sistematicamente sob ataque. O Papa Francisco está aqui a chamar-nos inflexivelmente à vida não-violenta, especialmente iluminada pela sua extensa análise da história do Bom Samaritano.

O Papa Francisco nesta encíclica também age, mesmo quando chama o mundo a fazê-lo. Reitera a inadmissibilidade da pena de morte, mas talvez ainda de grande envergadura é a reflexão do Papa Francisco sobre a guerra, que acreditamos ir mais longe do que qualquer encíclica papal na história.

Ao enfatizar como a tradição da guerra justa fracassa face à guerra moderna, ele escreve: “Já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar duma possível ‘guerra justa’.” Na nota de rodapé nº 242, ele é ainda mais direto: “Santo Agostinho, que elaborou uma ideia da ‘guerra justa’ que hoje já não defendemos, disse que ‘matar a guerra com a palavra e alcançar e conseguir a paz com a paz e não com a guerra, é maior glória do que a dar aos homens com a espada’ (Epistula 229, 2: PL 33, 1020).”

A Pax Christi Internacional e a sua Iniciativa Católica de Não-Violência estão enormemente gratas pela visão do Papa Francisco de tal mundo, que ele compartilha desde o início do seu papado. Em resposta a esta visão, temos explorado a não-violência como uma espiritualidade, um modo de vida, um programa de transformação social e uma ética universal. Fratelli tutti oferece uma base para promover a teologia e a prática fiel da não-violência.

O Papa Francisco convida-nos a uma reflexão sobre a realidade da guerra e sobre outra realidade quando “escolhemos a paz”. Façamos esta viagem com o Papa enquanto fazemos avançar esta reflexão juntos em busca de uma casa comum mais justa, pacífica e não-violenta.


Pode descarregar a versão em PDF aqui.


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sábado, 3 de outubro de 2020

Tempo da Criação: 7. Envolvimento comunitário e participação ativa no cuidado da criação

Envolvimento comunitário e participação ativa no cuidado da criação

Aos problemas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias: «As exigências desta obra serão tão grandes, que as possibilidades das iniciativas individuais e a cooperação dos particulares, formados de maneira individualista, não serão capazes de lhes dar resposta. Será necessária uma união de forças e uma unidade de contribuições». A conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária. (Laudato Si', n. 219)

Só com o contributo de todos e cada um poderemos alcançar uma verdadeira conversão ecológica e uma verdadeira paz com justiça para o mundo e toda a Criação.

Todos somos chamados a participar, a nível local, regional, nacional e internacional, promovendo campanhas populares e de sensibilização, favorecendo o enraizamento no território local e nos ecossistemas vizinhos, etc.


«Todos podemos colaborar no cuidado da criação como instrumentos de Deus,
cada um com a sua cultura e experiência, as suas iniciativas e capacidades.»
Papa Francisco

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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Tempo da Criação: 6. Espiritualidade ecológica

Espiritualidade ecológica

E parte duma adequada compreensão da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreensão da paz, que é muito mais do que a ausência de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. [...] Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. (Laudato Si', nn. 225.226)

Para viver esta espiritualidade ecológica importa restabelecer uma visão em chave religiosa da criação de Deus, encorajar um maior contacto com a natureza com espírito de admiração, louvor, alegria e gratidão, promover celebrações litúrgicas focadas na criação, desenvolver abordagens ecológicas na catequese, na oração, nos retiros, na formação, etc.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Tempo da Criação: 5. Educação ecológica

Educação ecológica

É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um estilo de vida. [...] Vários são os âmbitos educativos: a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese, e outros. (Laudato Si', nn. 211.213)

Para alcançar uma verdadeira educação ecológica é urgente rever e redefinir programas de ensino, reestruturar escolas à luz da ecologia integral, com o objetivo de criar consciência ecológica, estimular a ação concreta e promover a vocação ecológica de jovens, professores, líderes na área da educação, etc.

Para sugestões de atividades e reflexões no âmbito deste tema, ver as seguintes publicações editadas pela Pax Christi Portugal, disponíveis on-line:

* Viver com Simplicidade, Sustentabilidade e em Solidariedade com os Pobres. Nos 40 anos da Populorum Progressio. 2ª edição: http://www.paxchristiportugal.net/pubs/pub_viver_simplicidade_2ed.htm

* Cuidar da Criação é Construir a Paz. Subsídios para a Celebração do 43º Dia Mundial da Paz: http://www.paxchristiportugal.net/pubs/pub_DMP2010.htm

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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Tempo da Criação: 4. Adoção de um estilo de vida simples

Adoção de um estilo de vida simples

Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quantos detêm o poder político, económico e social. [...] Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se possível uma mudança relevante na sociedade. (Laudato Si', nn. 206.208)

Cuidar da nossa casa comum implica adotar um estilo de vida alternativo, mais simples que nos permita alcançar a paz connosco e com a Criação. Sobriedade no consumo de recursos e de energia: evitar os plásticos descartáveis, adotar dietas à base de vegetais e reduzir o consumo de carne e os gastos de água potável, fazer maior uso dos transportes públicos e evitar veículos poluentes, etc.

Para mais sugestões descarregue o folheto, da Pax Christi Portugal, 10 sugestões para um estilo de vida simples.


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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Tempo da Criação: 3. Economia ecológica

Economia ecológica

Um desenvolvimento tecnológico e económico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso. Além disso, muitas vezes a qualidade real de vida das pessoas diminui – pela deterioração do ambiente, a baixa qualidade dos produtos alimentares ou o esgotamento de alguns recursos – no contexto dum crescimento da economia. (Laudato Si', n. 194)

Importa repensar os critérios pelos quais julgamos o desenvolvimento económico. O lucro, o aumento do consumo, a instalação de grandes empresas, etc., não são sinais de um desenvolvimento económico a longo prazo, que respeite os recursos e ritmos da natureza, ou o crescimento pessoal e social de todos os seres humanos num ambiente de paz e justiça.

Como guardiões da casa comum temos de estar atentos e defender a produção sustentável, o comércio justo e solidário, o consumo ético, os investimentos éticos, o desinvestimento em combustíveis fósseis e qualquer outra atividade económica que possa causar danos ao planeta e aos seus habitantes, o investimento em energias renováveis, etc.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Tempo da Criação: 2. Resposta ao grito dos pobres

Resposta ao grito dos pobres

É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos. (Laudato Si', n. 229)

Dado que todos e tudo foi criado por Deus, toda a criação está interligada. Reconhecê-lo leva-nos a uma espiritualidade de solidariedade global, especialmente dando prioridade às necessidades dos que não se podem proteger e defender sozinhos: os pobres, os débeis e os vulneráveis. Exercer a solidariedade ajuda-nos a superar a tentação do individualismo, os interesses pessoais e a escutar o grito dos pobres.

Este caminho faz-se pela defesa da vida humana e de todas as formas de vida na Terra, com atenção especial aos grupos mais vulneráveis, incluindo comunidades indígenas, migrantes, refugiados, crianças em risco de escravidão, sem abrigo, desempregados, etc.

Como é que as nossas decisões diárias afetam os pobres? Por exemplo, na utilização dos recursos naturais, o emprego do nosso tempo e do nosso dinheiro, os locais onde fazemos compras, etc.



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domingo, 27 de setembro de 2020

Tempo da Criação: 1. Resposta ao grito da Terra

Resposta ao grito da Terra

Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspeto secundário da experiência cristã, mas parte essencial de uma existência virtuosa. (Laudato Si', n. 217)

Deus criou o mundo como um presente e como a nossa casa comum. Na beleza natural vemos os sinais do amor do nosso Pai por nós, da sua majestade e das suas bênçãos. Celebrar a beleza leva-nos mais longe, para além dos nossos interesses pessoais, em direção a um apreço e gratidão por toda a Criação. 

Para defender este presente que nos foi dado é essencial escutar o grito da Terra e demonstrar a nossa gratidão promovendo e defendendo um maior uso de energia limpa e renovável, redução dos combustíveis fósseis para alcançar a neutralidade das emissões de carbono, proteção e promoção da biodiversidade, acesso à água potável para todos, etc.


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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Peritos em paz atentos aos sinais dos tempos

A mudança de época que a humanidade vive é habitada por aquela que indiquei várias vezes como «uma terceira guerra mundial em pedaços ». Bem sabemos como o receio de um conflito mundial, capaz de destruir a humanidade inteira, marcou o nosso passado recente. São João XXIII dedicou a sua última Encíclica ao tema da paz, dirigindo-a a todos os homens de boa vontade [Carta enc. Pacem in terris]. E como deixar de recordar o apelo sincero lançado por São Paulo VI à Assembleia das Nações Unidas: «Jamais uns contra os outros, nunca mais!» (4 de outubro de 1965)?

Infelizmente, devemos constatar que hoje o mundo ainda está mergulhado num clima de guerra e violência recíproca: esta dolorosa realidade não só exige que mantenhamos vivo o apelo à paz, mas quase nos obriga a colocar-nos interrogações decisivas.

Por que num mundo onde a globalização derrubou tantas fronteiras, onde todos — diz-se — estamos interligados, ainda se continua a praticar violência nas relações entre os indivíduos e as comunidades?

Por que quem é diferente de nós muitas vezes nos assusta, de tal forma que tomamos uma atitude de defesa e suspeita que demasiadas vezes se torna agressão hostil?

Por que os governos dos Estados julgam que mostrar a própria força, até com atos de guerra, pode conferir- lhes maior credibilidade aos olhos dos seus cidadãos e aumentar o consenso de que gozam?

A estas e a outras perguntas não se pode responder de maneira genérica e apressada. É necessário um compromisso de estudo, é preciso investir também a nível da pesquisa científica e da formação das novas gerações. Foi por estes motivos que considerei necessário instituir na Pontifícia Universidade Lateranense um Ciclo de estudos sobre Ciências da paz, a partir da convicção de que a Igreja é chamada a empenhar-se «na solução de problemas que afetam a paz, a concórdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos humanos e civis» [Exort. ap. Evangelii gaudium, 65].

Neste compromisso «desempenha um papel central o mundo universitário, lugar símbolo daquele humanismo integral que tem continuamente necessidade de ser renovado e enriquecido, para que saiba produzir uma corajosa renovação cultural que o momento atual exige. Este desafio interpela inclusive a Igreja que, com a sua rede mundial de Universidades eclesiásticas, pode “oferecer o decisivo contributo de fermento, sal e luz do Evangelho de Jesus Cristo e da Tradição viva da Igreja, sempre aberta a novos cenários e propostas”, como recordei recentemente, reformando o ordenamento dos estudos académicos nas Instituições eclesiásticas [Cf. Const. ap. Veritatis gaudium, 2]. Sem dúvida, isto não significa alterar o sentido institucional e as tradições consolidadas das nossas realidades académicas mas, pelo contrário, orientar a sua função na perspetiva de uma Igreja mais acentuadamente “em saída” e missionária. Com efeito, é possível enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com uma capacidade de resposta adequada nos conteúdos e compatível na linguagem, antes de tudo dirigindo-se às novas gerações» [Carta ao Cardeal De Donatis, por ocasião da instituição do Curso de estudos sobre “Ciências da Paz”, 12 de novembro de 2018].

[...]

Gostaria de realçar que um bom pacificador deve ser capaz de amadurecer um olhar sobre o mundo e a história, que não caia num «“excesso de diagnóstico”, que nem sempre é acompanhado por propostas resolutivas e realmente aplicáveis» [Exort. ap. Evangelii gaudium, 50]. Com efeito, trata-se de ir além de uma abordagem puramente sociológica, que tenha a pretensão de abranger toda a realidade de uma forma neutra e assética. Quem deseja tornar-se especialista em Ciências da Paz tem necessidade de aprender a estar atento aos sinais dos tempos: o gosto pela investigação científica e pelo estudo deve ser acompanhado por um coração capaz de compartilhar «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje» [Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 1], a fim de saber fazer um verdadeiro discernimento evangélico.

Precisamos realmente de homens e mulheres bem preparados, dotados de todos os instrumentos necessários para ler e interpretar as dinâmicas sociais, económicas e políticas do nosso tempo. Comprometer-se nestes percursos de formação poderá ser uma válida ajuda para muitos jovens descobrirem que «a vocação laical é, antes de mais nada, a caridade na família, a caridade social e a caridade política: é um compromisso concreto nascido da fé para a construção de uma sociedade nova, é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia, e assim estender o Reino de Deus no mundo» [Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 168].

Papa Francisco
Prefácio ao livro «Per un sapere della pace» (“Por um saber da paz”), publicado pela Libreria editrice vaticana (Cidade do Vaticano, 2020, 124 páginas)

Fonte: L'Osservatore Romano, Edição Semanal em Português, terça-feira 22 de setembro de 2020, p. 7

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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Um apelo ao Papa Francisco: O caminho da não-violência para um futuro Laudato Si'

A Igreja está a celebrar o quinto aniversário da Laudato Si'. Sobre o cuidado da casa comum, a carta encíclica do Papa Francisco que nos chama a uma nova compreensão de todas as ligações tecidas na criação. Neste tempo de crise é nítido que a não-violência é um pilar crucial na fundação de um mundo pós-pandémico mais justo e sustentável ao qual nos conduz a Laudato Si'.

Convidamos todas e todos (comunidades religiosas católicas, organizações, instituições educativas e indivíduos) a assinar esta mensagem dirigida ao Papa Francisco expressando a nossa gratidão pela sua liderança durante este tempo de crise e o nosso apoio aos ensinamentos da Laudato Si'.

O prazo para assinar termina a meados de setembro

Partilhe o link para esta mensagem o mais amplamente possível.



Um apelo ao Papa Francisco:
O caminho da não-violência para um futuro Laudato Si'

O coronavírus revelou as raízes profundas do racismo e da violência cultural, da injustiça económica, das guerras "travadas aos bocados", das mudanças climáticas e da destruição ambiental que a comunidade humana e o nosso planeta estão a enfrentar. A resposta à pandemia requer uma mudança fundamental do "normal injusto" da violência sistémica e estrutural em todo o mundo, de sistemas que destroem, desumanizam e diminuem, para uma cultura de solidariedade que busca a plenitude de vida para todos.

A não-violência ativa – uma espiritualidade, um modo de vida e um programa de ação social – é a chave para essa mudança global; para o roteiro apresentado em A caminho para o cuidado da casa comum; e para o futuro previsto na Laudato Si'. As duas mãos da não-violência falam claramente a este momento da história: "Não" às violências multidimensionais que assolam o nosso mundo; "Sim" à dignidade humana e ao respeito pela integridade da criação.

A não-violência é um caminho para a conversão, para uma profunda transformação pessoal e social da antiga forma de dominação e de exploração em direção a uma "civilização do amor" (Laudato Si', n. 231). A ética universal da não-violência pode moldar um novo e mais justo "normal" e guiar o crescente movimento massivo de pessoas comuns, incluindo muitos católicos, que anseiam pelo mundo pós-pandémico que o Papa Francisco nos ajudou a imaginar.

Para encorajar ainda mais um processo de conversão ecológica, cremos que uma reflexão complementar à Laudato Si' aprofundaria e alargaria consideravelmente a compreensão e o compromisso católicos da não-violência como um pilar crucial na fundação do desenvolvimento humano integral e de uma "casa comum" mais sustentável.

Estamos profundamente gratos pela esperança e visão que traz a estes tempos difíceis.


Adicione a sua assinatura aqui.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Santa Sé apoia esforços da ONU pelo Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares

A Santa Sé está pronta a apoiar todos os esforços da ONU para a entrada em vigor do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT), assinado em 1996.

Esta posição é manifestada por monsenhor Frederik Hansen, encarregado dos assuntos da Missão do Observador Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas, no seu discurso na sede em Nova York em 26 de agosto, por ocasião de um encontro virtual pela comemoração e a promoção do Dia Internacional Contra os Testes Nucleares, a ser celebrado a 29 de agosto. [...] Ler +

Fonte: Vatican News

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Solidariedade inter-religiosa ao serviço do mundo ferido pelo Covid-19

O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso (PCID) da Santa Sé publicaram o documento "Servir um mundo ferido em solidariedade inter-religiosa: Um apelo cristão à reflexão e ação durante o Covid-19 e no futuro".

Uma nota de imprensa, divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé, informa que o objetivo do CMI e do PCID é “encorajar” Igrejas e organizações cristãs a refletirem sobre “a importância da solidariedade inter-religiosa num mundo ferido pela pandemia Covid-19”. [...] Ler +

Fonte: Agência ECCLESIA

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terça-feira, 7 de julho de 2020

Mais de 100 bispos católicos assinam manifesto para impedir os abusos cometidos pelas empresas

Um grupo de mais de 100 bispos de vários países, incluindo Portugal, assinou uma petição dirigida à presidência alemã do Conselho da União Europeia, denunciando as violações aos Direitos Humanos no comércio internacional. [...] Ler +


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segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Evangelho da Não-violência

Moisés Mato, do Colectivo Noviolencia, escreve no Blog de CJ sobre o evangelho como fonte de inspiração para a práxis não-violenta.

La obediencia al Evangelio y la desobediencia a los poderes fácticos frecuentemente son el anverso y el reverso de la misma realidad. Cuando lo que está en juego es el deber de justicia y el servicio a la verdad, ¿qué le corresponde a Dios y qué al César? Las crónicas de la Iglesia previa a Constantino relatan numerosos hechos que hoy podríamos catalogar de actos de insumisión y desobediencia. Cuando el soldado Maximiliano se presentó ante el procónsul para informarle de que su condición de cristiano le impedía servir en el ejercito argumentó que debía cumplir con el mandato de no matar. Salvó su conciencia, pero perdió la vida. En esas circunstancias no había nada para el César. La forma en como algunos han vivido su fe a los largo de los siglos y las experiencias de noviolencia de los últimos ciento cincuenta años, muchas inspiradas en el Evangelio, dan buena cuenta de que los imperativos de la conciencia en muchas ocasiones no permiten margen a los intereses bastardos del césar de turno. [...] Ler +

Fonte: Blog de CJ

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Um “grito de esperança” de redes cristãs em favor da Palestina

Intitula-se “Grito de Esperança” e pretende ser um apelo urgente de redes e grupos cristãos, para que se ponha fim à actual situação dos palestinianos. Assinada pelo patriarca latino emérito de Jerusalém, Michel Sabbah, e pelo coordenador geral da rede Kairos Global pela Justiça, a petição apela à subscrição de todos os interessados, em apoio dos direitos do povo palestiniano, da justiça e da autodeterminação. [...] Ler +

Fonte: 7 Margens

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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Jerusalém: um erro perigoso e desnecessário

Desde a criação do estado de Israel em 1948, que os Estados Unidos vêm mantendo uma ligação muito especial a este país. Independentemente do partido a que pertencem, todos os presidentes norte-americanos fazem questão de proclamar a importância dessa ligação histórica que se tornou, com a passagem do tempo, uma espécie de garantia oficial e definitiva da sua independência. Trata-se de uma ligação que se deve não só ao peso financeiro e político que a comunidade judaica sempre teve nos Estados Unidos, mas também à política anti-israelita que muitos responsáveis palestinianos foram revelando ao longo do tempo, num comportamento traduzido no apoio a movimentos radicais que recusam aceitar a independência de Israel.

Apesar disso, esta ligação histórica confrontou-se sempre com algumas linhas vermelhas que o governo de Telavive nunca se atreveu a ultrapassar, sob pena de perder o apoio incondicional que sempre recebeu de Washington, e sem o qual dificilmente poderia sobreviver. Entre essas linhas vermelhas, podemos referir a que se prende com o estatuto de Jerusalém, a cidade santa que também o é para cristãos e muçulmanos. Não obstante toda carga histórica e simbólica desta cidade, ou talvez por isso mesmo, os fundadores do novo estado de Israel nunca se atreveram a considerá-la como sua capital, embora não faltasse quem guardasse esse desejo bem no fundo do coração. E isto foi sempre assim, até ao momento em que Donald Trump chegou à Casa Branca. [...] Ler +


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Para o cristianismo, o próximo vem antes do nacionalismo

Nestes dias parece voltar ao auge, em alguns países, uma forma de nacionalismo religioso-cultural. A religião é usada quer para fins de consenso pessoal, quer para lançar uma mensagem política que se identifica com a fidelidade e a devoção das pessoas a um Estado. Dá-se como adquirido que nele as pessoas têm em comum a identidade, a origem, a história, e que elas sustentam uma homogeneidade ideológica, cultural e religiosa, consolidada pelas fronteiras geopolíticas. Na realidade, no mundo globalizado contemporâneo não há nenhuma, entre as entidades geográficas que podem definir-se por “nações”, que tenha no seu interior uma só identidade homogénea sob o perfil linguístico ou religioso, ou de qualquer outro ponto de vista. Por conseguinte, um nacionalismo radical só é possível se ele elimina essa diversidade. Daqui resulta que é mais do que nunca necessário realizar uma libertadora desconstrução do nacionalismo. Sejamos claros: o nacionalismo nunca pode ser confundido com o patriotismo. Com efeito, enquanto o patriota se orgulha do seu país por aquilo que faz, o nacionalista orgulha-se do seu país, faça o que fizer; o primeiro contribui para criar sentido de responsabilidade, enquanto o segundo conduz a uma arrogância cega que conduz à guerra. [...] Ler +

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

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terça-feira, 23 de junho de 2020

Igreja pede “prioridade máxima” para o desarmamento nuclear

Numa altura que se receia que as negociações entre Rússia e Estados Unidos para estender o prazo do seu acordo de limitação de armas nucleares não sejam bem sucedidas, os bispos norte-americanos e europeus assumem que o cenário de uma guerra nuclear pode não estar assim tão distante. Numa declaração conjunta, os representantes da Igreja Católica pediram esta segunda-feira que seja dada “prioridade máxima” ao controlo de armas e desarmamento nuclear, e deixaram o alerta: “O nosso mundo permanece em grave perigo”. [...] Ler +

Fonte: 7 Margens

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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Líderes eméritos das Igrejas de Jerusalém pedem ajuda para reconciliar a Terra Santa

"Escrevemos este apelo como cristãos árabes-palestinianos, que vivem aqui desde o Pentecostes e são parte integrante da sociedade", afirmaram nestes dias os líderes eméritos das Igrejas de Jerusalém ao comentarem uma declaração publicada não site Abouna, os planos israelitas de anexação.

"A Terra Santa está a pegar fogo, numa situação de guerra e a sua santidade deve ser restaurada", escrevem o patriarca emérito da Igreja Católica romana Michel Sabbah, o bispo emérito da Igreja Anglicana Riah Abu El Assal e o bispo emérito da Igreja Luterana Munib A. Younan. “A justiça está ausente. A terra de Deus convida todas as Igrejas, os governos e as pessoas de boa vontade a agir e a pôr fim a esta tragédia".

Os líderes eméritos das Igrejas de Jerusalém pedem uma reconciliação para a Terra Santa baseada na igual dignidade e direitos de todas as pessoas e não mais um povo contra o outro, e sublinham que a pandemia de Covid-19 desviou a atenção dos problemas de justiça e paz em relação às questões da vida e da morte. [...] Ler +

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sábado, 20 de junho de 2020

A Pax Christi International opõe-se aos planos de anexação de Israel

A Pax Christi International opõe-se aos planos de anexação de Israel e exorta a comunidade internacional a responsabilizar Israel por violações do direito internacional

Para uma versão em PDF desta declaração em inglês, clique aqui.

A Pax Christi Internacional opõe-se veementemente ao plano de Israel de anexar qualquer área da Cisjordânia, incluindo o Vale do Jordão. Reconhecemos Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã na Síria como anexadas ilegalmente sob o direito internacional. Continuamos a condenar os 53 anos de ocupação da Cisjordânia por parte de Israel e os seus 13 anos de bloqueio de Gaza. Mantemos uma solidariedade inabalável com as nossas irmãs e irmãos palestinianos cuja liberdade, dignidade e direitos humanos estão ameaçados por esta proposta atual e pelas ações anteriores de Israel.

Apoiamos a declaração do Conselho de Patriarcas e Chefes das Igrejas da Terra Santa, que expressa grave preocupação com qualquer ação unilateral de anexar terras. Juntamos a nossa voz à crescente denúncia do flagrante desrespeito de Israel pelo direito internacional, Convenção de Genebra e resoluções acordadas pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Estamos com aqueles países, sociedade civil e organizações de direitos humanos, denominações e comunidades religiosas e pessoas de consciência que pedem que Israel cesse imediatamente os seus planos de anexação. [...] Ler + (em inglês)


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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Vaticano lança documento "A caminho para o cuidado da casa comum – Cinco anos depois da Laudato Si'"

O Vaticano lançou, esta quinta-feira, um “manual” de aplicação da encíclica ecológica e social Laudato Si', que o Papa publicou em 2015, com mais de 200 recomendações em defesa do ambiente e da vida humana.

A caminho para o cuidado da casa comum – Cinco anos depois da Laudato Si' é o nome do documento, elaborado pela Mesa Interdicasterial da Santa Sé sobre a ecologia integral, que apresenta como chaves para uma mudança na relação das pessoas com a natureza a “sobriedade”, o “consumo responsável” e o “uso de energias renováveis”.

As comunidades católicas de todo o mundo são desafiadas a assumir iniciativas de educação e formação sobre a ecologia, a reciclar, a utilizar meios de transporte menos poluentes e a partilhar veículos (car sharing), a um consumo “crítico e circular” a um “investimento ético” ou a abolir o uso de plásticos descartáveis, entre outras medidas. [...] Ler +

Para uma versão em PDF deste documento, clique aqui.

Fonte: Agência Ecclesia

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D. Rui Valério: Novo Presidente da Pax Christi Portugal

A 16 de junho de 2020, a Conferência Episcopal Portuguesa nomeou D. Rui Manuel Sousa Valério como Presidente da Pax Christi Portugal, para o triénio 2020-2023.


Nascido a 24 de Dezembro de 1964, em Urgueira, no Concelho de Ourém, D. Rui Valério ingressou no Noviciado da Congregação dos Missionários Monfortinos (Companhia de Maria) de São Luís Maria Grignon de Montfort, em Santaeramo-in-Colle, Itália, no ano de 1984. Um ano depois vai para Roma a fim de frequentar o curso de Filosofia, na Pontifícia Universidade Lateranense, e, em 1987, inicia a Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana. Realizou entretanto a sua profissão perpétua em 6 de outubro de 1990, tendo sido ordenado presbítero, em Fátima, a 23 de março de 1991. 

No ano de 1995-96 frequentou um curso de “Espiritualidade Missionária” no Centre International Montfortain, em Leuven-Bélgica. De regresso a Portugal, em 1997, iniciou o Doutoramento em Teologia, na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa.

Do ponto de vista pastoral a sua ação desenrolou-se sobretudo a nível paroquial. Esteve nas Paróquias do Concelho de Castro Verde, Diocese de Beja, de 1993 a 1995 como Coadjutor, e, como Pároco, de 2001 a 2007. No Patriarcado de Lisboa foi Coadjutor na Paróquia da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas), de 1996 a 2001 e Pároco de 2011 a 2018.

Trabalhou também no âmbito da Formação, enquanto responsável do Postulantado Monfortino de Portugal.

Entre 2008 e 2011, foi Capelão Militar na Marinha, mais propriamente na Escola Naval.

Em 2016, no Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco nomeou-o «Missionário da Misericórdia». 

Em 27 de outubro de 2018, o Papa Francisco nomeou-o Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança de Portugal, sucedendo a D. Manuel Linda no governo do Ordinariato Castrense. A ordenação episcopal teve lugar no dia 25 de novembro de 2018, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

O futuro da não-violência na Doutrina Social da Igreja

A revista Expositions: Interdisciplinary Studies in the Humanities dedicou o seu n.º 2 do volume 13 de 2019, ao tema "O futuro da não-violência na Doutrina Social da Igreja"


Vol 13 No 2 (2019): Special Issue: The Future of Nonviolence in Catholic Social Teaching

Introduction

Introduction - Eli S. McCarthy

Contributions

Renewing Catholicism: Toward Recommitting to Gospel Nonviolence throughout the Roman Catholic Church - Ken Butigan

The Realism Objection to Setting Aside Just War Theory: A Response - David Carroll Cochran

War: Reversing the Works of Mercy - Eileen Egan

Nonviolence: The Witness of a Church of Mercy - Leo Guardado

Nonviolence as a Tradition of Moral Praxis - Kyle B. T. Lambelet

Nonviolence: Building Gospel-based Communities Addressing Situations of Violence Today - Sr. Anne McCarthy, O.S.B.

Catholic Nonviolence: Transforming Military Institutions - Eli S. McCarthy

What Will It Take: Learning from Pope Francis’s Peacebuilding Pedagogy - Gerald W. Schlabach

Pope Francis, Nonviolence, and Catholic Teaching on War - John Sniegocki

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sábado, 13 de junho de 2020

Pax Christi Internacional denuncia empresas multinacionais de mineração

A Pax Christi Internacional uniu-se a mais de 300 organizações do mundo, onde se contam também Comissões Episcopais de Justiça e Paz, para denunciar a exploração de empresas multinacionais de mineração, que estão a lucrar com a pandemia global do COVID-19. A extração de recursos é uma das indústrias mais destrutivas do mundo e as empresas de mineração estão a tentar lucrar com a crise atual. 
Na mensagem condenam e rejeitam o modo como a indústria e muitos governos estão a aproveitar a pandemia para encontrar novas oportunidade para a extração insustentável dos recursos minerais e a estabelecer uma imagem pública positiva, hoje e no futuro. E as comunidades indígenas são, frequentemente, altamente vulneráveis e o seu direito ao consentimento livre, prévio e informado é negado.

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sexta-feira, 29 de maio de 2020

A Responsabilidade da Universidade pela Paz e pela Não-Violência

Artigo publicado na revista Educatio Catholica da Congregação para a Educação Católica do Vaticano, por Ken Butigan, membro do comité executivo da Iniciativa Católica para a Não-Violência e membro do corpo docente da Universidade DePaul.


Neste momento angustiante de violência e injustiça global, cada um de nós é chamado a lidar com esses desafios monumentais e a buscar um novo caminho, mais não-violento. As universidades estão particularmente bem posicionadas para desempenhar um papel de liderança nesta importante tarefa. Isto é especialmente verdade nas universidades católicas à luz da crescente aceitação pela Igreja institucional da ética universal da não-violência e à sua promoção de uma cultura de paz. Em termos teológicos cristãos, este é um momento Kairos - um momento de grande decisão, um momento para escolher um caminho a seguir em direção a um mundo mais não-violento - para o qual as instituições de ensino superior em todo o mundo estão a ser chamadas.

Este artigo examina a poderosa responsabilidade que as universidades católicas possuem para fomentar uma mudança não-violenta, ao refletir sobre as quatro questões seguintes:

* O caminho da paz e da não-violência não é uma especialização estreita, mas um apelo a todos

* O caminho da paz e da não-violência é uma ética abrangente

* O caminho da paz e da não-violência é cada vez mais reconhecido pela Igreja Católica institucional como uma ética central para a vida da Igreja e do mundo, e

* A universidade católica tem um papel especial na integração do caminho da paz e da não-violência na Igreja e no mundo. [...] Ler +

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terça-feira, 19 de maio de 2020

O rastilho das narrativas falsas

As narrativas falsas visam controlar as narrativas nos media e nas redes sociais, manipular a opinião pública, potenciar sentimentos de incerteza e minar os alicerces das democracias. Por isso, é fundamental conhecer a lógica tecnológica, social, política e económica das notícias falsas. Artigo de Rita Figueiras, Docente da Universidade Católica, publicado na revista Além-Mar.


No âmbito do 54.º Dia das Comunicações Sociais, o Santo Padre propõe uma reflexão sobre a importância da narração e da narrativa.

As histórias reais e de ficção têm um papel antropológico estrutural e estruturante na nossa cultura, nomeadamente na forma como: entendemos os valores e as práticas sociais, interpretamos a realidade, construímos a mundividência e a memória colectiva. Neste processo, as notícias, entendidas como um produto culturalmente situado, sinalizam questões e expressam conflitos considerados relevantes para a sociedade, excluindo do seu reportório narrativo acontecimentos que não servem a sua autodefinição.

Desinformação

Na mensagem do papa também encontramos referências às notícias falsas. A informação falsa visa controlar as narrativas nos media e nas redes sociais, manipular a opinião pública, potenciar sentimentos de incerteza e minar os alicerces das democracias. Tal como a designação sugere, estas narrativas são difíceis de identificar. Se algumas são construídas única e exclusivamente baseadas em mentiras, a maioria delas são mais difíceis de discernir, porque misturam informação verdadeira e falsa. É por esta razão que um estudo recente, feito por um instituto associado à reputada Universidade de Oxford, revela que as populações na maioria dos 38 países analisados têm elevados índices de preocupação com as narrativas falsas. Por exemplo, essa preocupação é partilhada por 85% dos brasileiros, por 75% dos portugueses e 70% dos britânicos.

Este receio reflecte a dúvida constante de quem procura e consome informação online, mas também de quem, sem estar à procura, se depara com algo que circula nas redes sociais: O que é verdade? O que é mentira? O que deve ser ignorado? E o que fazer com as notícias que se sabe que são falsas? Como alertar para o assunto sem amplificar as mentiras? Estas são dúvidas reais e que quotidianamente assaltam o espírito de muita gente em muitas partes do mundo. No entanto, em todos os tempos da História e nas mais variadas culturas, sempre houve notícias falsas, quer fosse, por exemplo, sob a forma de rumores ou de propaganda política. Então, porque é que de alguns anos a esta parte se começou a falar tanto em desinformação e em notícias falsas? [...] Ler +

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Papa Francisco: A paz deve ser procurada a qualquer preço

No passado dia 15 de abril, o Papa Francisco, ao retomar as catequeses sobre o tema das Bem-aventuranças, analisou a sétima: «Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9).


Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

A catequese de hoje é dedicada à sétima bem-aventurança, a dos “pacificadores”, que são proclamados filhos de Deus. Regozijo-me por ela se realizar imediatamente após a Páscoa, porque a paz de Cristo é fruto da sua morte e ressurreição, como ouvimos na Leitura de São Paulo. Para compreender esta bem-aventurança, é preciso explicar o sentido da palavra “paz”, que pode ser mal entendido ou, às vezes, banalizado.

Devemos orientar-nos entre duas ideias de paz: a primeira é a bíblica, onde aparece a maravilhosa palavra shalom, que exprime abundância, prosperidade, bem-estar. Quando em hebraico se deseja shalom, deseja-se uma vida boa, plena, próspera, mas também de acordo com a verdade e a justiça, as quais terão cumprimento no Messias, Príncipe da paz (cf. Is 9, 6; Mq 5, 4-5).

Depois há o outro sentido, mais generalizado, em que a palavra “paz” é entendida como uma espécie de tranquilidade interior: estou tranquilo, estou em paz. Esta é uma ideia moderna, psicológica e mais subjetiva. Pensa-se geralmente que a paz é sossego, harmonia, equilíbrio interior. Este conceito da palavra “paz” é incompleto e não pode ser absolutizado, porque na vida o desassossego pode ser um importante momento de crescimento. Muitas vezes é o próprio Senhor que semeia a inquietação em nós para irmos ao seu encontro, para o encontrarmos. Neste sentido, é um momento importante de crescimento; enquanto pode acontecer que a tranquilidade interior corresponda a uma consciência domesticada, e não a uma verdadeira redenção espiritual. Muitas vezes o Senhor deve ser um “sinal de contradição” (cf. Lc 2, 34-35), abalando as nossas falsas certezas para nos conduzir à salvação. E nesse momento parece que não temos paz, mas é o Senhor que nos coloca neste caminho para alcançarmos a paz que Ele próprio nos concederá.

Neste ponto devemos recordar que o Senhor entende a sua paz como diferente da humana, a do mundo, quando diz: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá» (Jo 14, 27). A de Jesus é outra paz, diferente da paz mundana.

Perguntemo-nos: como dá o mundo a paz? Se pensarmos nos conflitos bélicos, normalmente as guerras terminam de duas maneiras: ou com a derrota de uma das duas partes, ou com tratados de paz. Só podemos esperar e rezar para que se siga sempre este segundo caminho; mas temos de considerar que a história é uma série interminável de tratados de paz desmentidos por guerras sucessivas, ou pela metamorfose destas mesmas guerras em outras formas ou noutros lugares. Até no nosso tempo, uma guerra “aos pedaços” é travada em vários cenários e de diferentes formas (cf. Homilia no Sacrário Militar de Redipuglia, 13 de setembro de 2014; Homilia em Sarajevo, 6 de junho de 2015; Discurso ao Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, 21 de fevereiro de 2020). Devemos pelo menos suspeitar que, no contexto de uma globalização feita sobretudo de interesses económicos ou financeiros, a “paz” de uns corresponde à “guerra” de outros. E esta não é a paz de Cristo!

Ao contrário, como “dá” a sua paz o Senhor Jesus? Ouvimos São Paulo dizer que a paz de Cristo é “fazer de dois, um só” (cf. Ef 2, 14), anular a inimizade e reconciliar. E o caminho para realizar esta obra de paz é o seu corpo. Com efeito, Ele reconcilia todas as coisas e faz as pazes com o sangue da sua cruz, como o mesmo Apóstolo diz noutro lugar (cf. Cl 1, 20).

E aqui interrogo-me: todos podemos perguntar-nos: portanto, quem são os “pacificadores”? A sétima bem-aventurança é a mais ativa, explicitamente operativa; a expressão verbal é análoga àquela utilizada para a criação no primeiro versículo da Bíblia e indica iniciativa e laboriosidade. O amor pela sua natureza é criativo - o amor é sempre criativo - e procura a reconciliação custe o que custar. São chamados filhos de Deus aqueles que aprenderam a arte da paz e que a praticam, sabem que não há reconciliação sem o dom da própria vida, e que a paz deve ser procurada sempre e de todas as formas. Sempre e de todas as formas: não vos esqueçais disto! Deve ser procurada assim. Esta não é uma obra autónoma, fruto das próprias capacidades; é manifestação da graça recebida de Cristo, que é a nossa paz, que nos fez filhos de Deus.

O verdadeiro shalom e o autêntico equilíbrio interior brotam da paz de Cristo, que vem da sua Cruz e gera uma nova humanidade, encarnada numa infinita plêiade de Santos e Santas, inventivos e criativos, que conceberam formas sempre novas de amar. Os Santos e as Santas que edificam a paz. Esta vida de filhos de Deus, que pelo sangue de Cristo procuram e reencontram os seus irmãos, é a verdadeira felicidade. Bem-aventurados aqueles que seguem este caminho.

E de novo Feliz Páscoa a todos, na paz de Cristo!

Papa Francisco, Audiência geral de quarta-feira, 15 de abril.
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2020/documents/papa-francesco_20200415_udienza-generale.html

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