a OBSERVATÓRIO DA PAX

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A Responsabilidade da Universidade pela Paz e pela Não-Violência

Artigo publicado na revista Educatio Catholica da Congregação para a Educação Católica do Vaticano, por Ken Butigan, membro do comité executivo da Iniciativa Católica para a Não-Violência e membro do corpo docente da Universidade DePaul.


Neste momento angustiante de violência e injustiça global, cada um de nós é chamado a lidar com esses desafios monumentais e a buscar um novo caminho, mais não-violento. As universidades estão particularmente bem posicionadas para desempenhar um papel de liderança nesta importante tarefa. Isto é especialmente verdade nas universidades católicas à luz da crescente aceitação pela Igreja institucional da ética universal da não-violência e à sua promoção de uma cultura de paz. Em termos teológicos cristãos, este é um momento Kairos - um momento de grande decisão, um momento para escolher um caminho a seguir em direção a um mundo mais não-violento - para o qual as instituições de ensino superior em todo o mundo estão a ser chamadas.

Este artigo examina a poderosa responsabilidade que as universidades católicas possuem para fomentar uma mudança não-violenta, ao refletir sobre as quatro questões seguintes:

* O caminho da paz e da não-violência não é uma especialização estreita, mas um apelo a todos

* O caminho da paz e da não-violência é uma ética abrangente

* O caminho da paz e da não-violência é cada vez mais reconhecido pela Igreja Católica institucional como uma ética central para a vida da Igreja e do mundo, e

* A universidade católica tem um papel especial na integração do caminho da paz e da não-violência na Igreja e no mundo. [...] Ler +

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terça-feira, 19 de maio de 2020

O rastilho das narrativas falsas

As narrativas falsas visam controlar as narrativas nos media e nas redes sociais, manipular a opinião pública, potenciar sentimentos de incerteza e minar os alicerces das democracias. Por isso, é fundamental conhecer a lógica tecnológica, social, política e económica das notícias falsas. Artigo de Rita Figueiras, Docente da Universidade Católica, publicado na revista Além-Mar.


No âmbito do 54.º Dia das Comunicações Sociais, o Santo Padre propõe uma reflexão sobre a importância da narração e da narrativa.

As histórias reais e de ficção têm um papel antropológico estrutural e estruturante na nossa cultura, nomeadamente na forma como: entendemos os valores e as práticas sociais, interpretamos a realidade, construímos a mundividência e a memória colectiva. Neste processo, as notícias, entendidas como um produto culturalmente situado, sinalizam questões e expressam conflitos considerados relevantes para a sociedade, excluindo do seu reportório narrativo acontecimentos que não servem a sua autodefinição.

Desinformação

Na mensagem do papa também encontramos referências às notícias falsas. A informação falsa visa controlar as narrativas nos media e nas redes sociais, manipular a opinião pública, potenciar sentimentos de incerteza e minar os alicerces das democracias. Tal como a designação sugere, estas narrativas são difíceis de identificar. Se algumas são construídas única e exclusivamente baseadas em mentiras, a maioria delas são mais difíceis de discernir, porque misturam informação verdadeira e falsa. É por esta razão que um estudo recente, feito por um instituto associado à reputada Universidade de Oxford, revela que as populações na maioria dos 38 países analisados têm elevados índices de preocupação com as narrativas falsas. Por exemplo, essa preocupação é partilhada por 85% dos brasileiros, por 75% dos portugueses e 70% dos britânicos.

Este receio reflecte a dúvida constante de quem procura e consome informação online, mas também de quem, sem estar à procura, se depara com algo que circula nas redes sociais: O que é verdade? O que é mentira? O que deve ser ignorado? E o que fazer com as notícias que se sabe que são falsas? Como alertar para o assunto sem amplificar as mentiras? Estas são dúvidas reais e que quotidianamente assaltam o espírito de muita gente em muitas partes do mundo. No entanto, em todos os tempos da História e nas mais variadas culturas, sempre houve notícias falsas, quer fosse, por exemplo, sob a forma de rumores ou de propaganda política. Então, porque é que de alguns anos a esta parte se começou a falar tanto em desinformação e em notícias falsas? [...] Ler +

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Papa Francisco: A paz deve ser procurada a qualquer preço

No passado dia 15 de abril, o Papa Francisco, ao retomar as catequeses sobre o tema das Bem-aventuranças, analisou a sétima: «Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9).


Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

A catequese de hoje é dedicada à sétima bem-aventurança, a dos “pacificadores”, que são proclamados filhos de Deus. Regozijo-me por ela se realizar imediatamente após a Páscoa, porque a paz de Cristo é fruto da sua morte e ressurreição, como ouvimos na Leitura de São Paulo. Para compreender esta bem-aventurança, é preciso explicar o sentido da palavra “paz”, que pode ser mal entendido ou, às vezes, banalizado.

Devemos orientar-nos entre duas ideias de paz: a primeira é a bíblica, onde aparece a maravilhosa palavra shalom, que exprime abundância, prosperidade, bem-estar. Quando em hebraico se deseja shalom, deseja-se uma vida boa, plena, próspera, mas também de acordo com a verdade e a justiça, as quais terão cumprimento no Messias, Príncipe da paz (cf. Is 9, 6; Mq 5, 4-5).

Depois há o outro sentido, mais generalizado, em que a palavra “paz” é entendida como uma espécie de tranquilidade interior: estou tranquilo, estou em paz. Esta é uma ideia moderna, psicológica e mais subjetiva. Pensa-se geralmente que a paz é sossego, harmonia, equilíbrio interior. Este conceito da palavra “paz” é incompleto e não pode ser absolutizado, porque na vida o desassossego pode ser um importante momento de crescimento. Muitas vezes é o próprio Senhor que semeia a inquietação em nós para irmos ao seu encontro, para o encontrarmos. Neste sentido, é um momento importante de crescimento; enquanto pode acontecer que a tranquilidade interior corresponda a uma consciência domesticada, e não a uma verdadeira redenção espiritual. Muitas vezes o Senhor deve ser um “sinal de contradição” (cf. Lc 2, 34-35), abalando as nossas falsas certezas para nos conduzir à salvação. E nesse momento parece que não temos paz, mas é o Senhor que nos coloca neste caminho para alcançarmos a paz que Ele próprio nos concederá.

Neste ponto devemos recordar que o Senhor entende a sua paz como diferente da humana, a do mundo, quando diz: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá» (Jo 14, 27). A de Jesus é outra paz, diferente da paz mundana.

Perguntemo-nos: como dá o mundo a paz? Se pensarmos nos conflitos bélicos, normalmente as guerras terminam de duas maneiras: ou com a derrota de uma das duas partes, ou com tratados de paz. Só podemos esperar e rezar para que se siga sempre este segundo caminho; mas temos de considerar que a história é uma série interminável de tratados de paz desmentidos por guerras sucessivas, ou pela metamorfose destas mesmas guerras em outras formas ou noutros lugares. Até no nosso tempo, uma guerra “aos pedaços” é travada em vários cenários e de diferentes formas (cf. Homilia no Sacrário Militar de Redipuglia, 13 de setembro de 2014; Homilia em Sarajevo, 6 de junho de 2015; Discurso ao Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, 21 de fevereiro de 2020). Devemos pelo menos suspeitar que, no contexto de uma globalização feita sobretudo de interesses económicos ou financeiros, a “paz” de uns corresponde à “guerra” de outros. E esta não é a paz de Cristo!

Ao contrário, como “dá” a sua paz o Senhor Jesus? Ouvimos São Paulo dizer que a paz de Cristo é “fazer de dois, um só” (cf. Ef 2, 14), anular a inimizade e reconciliar. E o caminho para realizar esta obra de paz é o seu corpo. Com efeito, Ele reconcilia todas as coisas e faz as pazes com o sangue da sua cruz, como o mesmo Apóstolo diz noutro lugar (cf. Cl 1, 20).

E aqui interrogo-me: todos podemos perguntar-nos: portanto, quem são os “pacificadores”? A sétima bem-aventurança é a mais ativa, explicitamente operativa; a expressão verbal é análoga àquela utilizada para a criação no primeiro versículo da Bíblia e indica iniciativa e laboriosidade. O amor pela sua natureza é criativo - o amor é sempre criativo - e procura a reconciliação custe o que custar. São chamados filhos de Deus aqueles que aprenderam a arte da paz e que a praticam, sabem que não há reconciliação sem o dom da própria vida, e que a paz deve ser procurada sempre e de todas as formas. Sempre e de todas as formas: não vos esqueçais disto! Deve ser procurada assim. Esta não é uma obra autónoma, fruto das próprias capacidades; é manifestação da graça recebida de Cristo, que é a nossa paz, que nos fez filhos de Deus.

O verdadeiro shalom e o autêntico equilíbrio interior brotam da paz de Cristo, que vem da sua Cruz e gera uma nova humanidade, encarnada numa infinita plêiade de Santos e Santas, inventivos e criativos, que conceberam formas sempre novas de amar. Os Santos e as Santas que edificam a paz. Esta vida de filhos de Deus, que pelo sangue de Cristo procuram e reencontram os seus irmãos, é a verdadeira felicidade. Bem-aventurados aqueles que seguem este caminho.

E de novo Feliz Páscoa a todos, na paz de Cristo!

Papa Francisco, Audiência geral de quarta-feira, 15 de abril.
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2020/documents/papa-francesco_20200415_udienza-generale.html

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domingo, 17 de maio de 2020

COVID-19: Rumo à segurança autêntica enraizada na não-violência


A seguinte reflexão foi escrita por Marie Dennis, membro do comité executivo da Iniciativa Católica para a Não-Violência e consultora sénior da secretária geral da Pax Christi Internacional. Foi co-presidente da Pax Christi Internacional de 2007 a 2019.

O coronavírus abalou comunidades em todo o mundo, ameaçando meios de subsistência e vidas, forçando uma mudança antes impensável nas rotinas diárias, ajudando todos a reconhecer a fragilidade da vida e a profunda injustiça que deixa bastantes pessoas, comunidades e países muito mais vulneráveis do que outros. Ao mesmo tempo, o impacto da pandemia está a ser sentido universalmente ao cruzar fronteiras políticas, geográficas, económicas, sociais, religiosas e culturais, ilustrando vigorosamente a realidade da interdependência global e questionando os nossos pressupostos básicos sobre segurança e sobre as políticas de medo e divisão.

Talvez esta pandemia nos ajude a reconhecer a necessidade crítica de uma mudança transformadora da violência nos nossos valores e prioridades. Algumas razões pelas quais esta mudança é urgente são claramente visíveis:

• Aqueles que vivem nas margens, expostos a guerras e deslocações forçadas, pobreza e perturbações ambientais, são os mais vulneráveis aos estragos da pandemia. As violências da injustiça económica e da devastação ecológica são intensificadas por esta crise global. As prioridades nacionais e internacionais devem ser determinadas e responder às necessidades das comunidades mais vulneráveis.

• A experiência do distanciamento social radical ajudou-nos a reconhecer a centralidade dos relacionamentos nas nossas vidas e a importância da comunidade. Mesmo em culturas em que o individualismo é considerado como um valor eminente, à medida que o coronavírus nos isola, estamos a construir pontes seguras, muitas delas virtuais, para cuidar uns dos outros e das pessoas em maior risco.

• O coronavírus não respeita fronteiras políticas, barreiras físicas ou diferenças culturais. Responder de forma eficaz às ameaças transnacionais requer cooperação global respeitosa para promover o bem-estar de toda a comunidade terrestre, em vez de xenofobia e nacionalismo.

• Gastar centenas de milhares de milhões de dólares anualmente em armas e preparativos para a guerra não nos deu as ferramentas para lidar com uma pandemia global. De facto, os gastos militares roubam recursos necessários para criar comunidades saudáveis e resilientes em todo o país e em todo o mundo, que possam atrasar a propagação de doenças e recuperar mais rapidamente de ameaças graves, como a pandemia do COVID-19.

Este momento de crise exige urgentemente um novo entendimento de segurança, baseado em diplomacia, diálogo, reciprocidade e uma abordagem multilateral e colaborativa para resolver problemas globais bem reais e críticos. O nacionalismo e o unilateralismo minam a cooperação necessária para lidar com doenças, incluindo o COVID-19 e o ébola, bem como as alterações climáticas, a fome e a pobreza, o esgotamento de recursos, a guerra, a deslocação forçada de milhões de pessoas, o terrorismo, a proliferação de armas e outras ameaças que transcendem fronteiras nacionais.

A segurança autêntica na qual toda a comunidade terrestre pode prosperar só poderá emergir de uma globalização da solidariedade enraizada na não-violência que comprometa as diversas nações e povos, independentemente das diferenças, na promoção de comunidades sustentáveis baseadas em economias do “suficiente” e no favorecimento de segurança humana inclusiva baseada na justiça social, económica e ecológica.

Catholic Nonviolence Initiative

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Encontro virtual “Boas práticas, conquistas e perspetivas de futuro a favor da paz e da não-violência”


A Pax Christi Internacional está a celebrar este ano 75 anos de existência e, não fosse a situação atual de pandemia/confinamento, estaria prestes a ter início no Japão a sua Assembleia Mundial.

Em Portugal tínhamos planeado realizar um encontro da Pax Christi no dia 16 de maio, no novo espaço onde instalámos a sede (Basílica da Estrela). Tal não sendo possível e porque não queremos adiar mais este encontro vimos convidar-vos a participar um encontro virtual a ter lugar no dia 6 de junho, entre as 15:00 e as 17:00, para conversar e refletir sobre “Boas práticas, conquistas e perspetivas de futuro a favor da paz e da não-violência”.

Reservem a data na vossa agenda e contamos com a vossa participação.

Para participar neste encontro siga o link abaixo:
https://meetingsemea11.webex.com/meetingsemea11/j.php?MTID=mca7ae14cd7cda84143dc3151c2ac0614

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domingo, 12 de abril de 2020

COVID-19: Mensagem dos co-presidentes da Pax Christi Internacional



"…em ti me refugio e me abrigo à sombra das tuas asas, até que passe o perigo". (Salmo 57,2)


Queridas irmãs e irmãos em todo o mundo.

A paz de Cristo esteja com cada um de vós novamente!

Expressamos a nossa solidariedade com todos vós, especialmente aqueles que, em Itália e outros países do mundo, foram afetados adversamente pela pandemia de coronavírus (COVID-19). Estamos particularmente preocupados com as notícias alarmantes que vêm de África. As nossas orações estão convosco de uma maneira muito especial.

O Deus que caminhou connosco até hoje chama-nos a caminharmos mais longe na fé e na confiança. Desde que esta crise sanitária começou, todos nós, temos a certeza, fomos abalados até ao âmago do nosso ser e nunca mais voltaremos a ser os mesmos. É nossa esperança e oração que todos aproveitemos esta oportunidade para refletir, como indivíduos e sociedade como um todo, sobre o que significa ser humano, ser vulnerável, ser uma comunidade global com um Criador que é Mãe e Pai de todos nós. É também um apelo para que sejamos um povo de esperança.

Durante este período da Quaresma e à sombra da pandemia de Coronavírus (COVID-19), o Mistério Pascal é para nós um ponto de partida para realmente começarmos esta reflexão. Embora não haja lugar na pousada, agora que a quarentena e o bloqueio entram em vigor em diferentes partes do mundo, que isto seja um convite para refletirmos sobre as oportunidades que tivemos e estão disponíveis para acolhermos outros nos nossos corações, na nossa casa e nos nossos países. Enquanto percorremos com Jesus o caminho para o Calvário, carregando a nossa cruz de incerteza, dor, perda, culpa, medo e agonia, recordemos também aqueles que nos ajudam a carregar esta cruz; as “Marias” que lamentam o seu sofrimento e o filho morto, as “Verónicas” que limpam o rosto daqueles que sofrem, as “Mulheres” que choram vendo o sofrimento e os moribundos e os “Simão” que ajudam os outros a carregar as suas cruzes. Rezamos de uma maneira muito especial pelos médicos e enfermeiros, todos aqueles que estão direta e indiretamente envolvidos em aliviar o sofrimento de todos os afetados por este vírus.

À medida que encontremos novas maneiras de interagir entre nós nas nossas famílias, comunidades e comunidade global durante estes tempos difíceis, que esta seja uma verdadeira lição para nós sobre o que significa ser uma família de Deus, cuidar e partilhar os recursos que Deus nos confiou como guardiões, amar a todos, independentemente de género, credo, idade, classe e seguir os passos de Jesus não-violento, que morreu e ressuscitou para que todos os povos da terra possam ter vida e tê-la em abundância (João 10,10).

Que este seja um tempo para refletirmos mais sobre o que significa ser um Povo de Esperança, que caminha com um Deus cujos planos para nós são de paz e não de desgraça, reservando-nos um futuro cheio de esperança [cf. Jeremias 29,11]. A esperança é, por vezes, difícil, quando os nossos corações estão carregados de angústia. O próprio Jesus experimentou isto na sua agonia. Lembremo-nos do testemunho do Apóstolo Paulo: “Alegro-me nas minhas fraquezas… e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Coríntios 12,10).

Bênçãos para cada um de vós e vossas famílias

30 de março de 2020

Bispo Marc Stenger - Ir. Teresia Wamuyu Wachira (IBVM)
(Co-presidentes da Pax Christi Internacional)

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Reflexão dos Copresidentes da Pax Christi Internacional sobre a mensagem do Papa Francisco para o 53º Dia Mundial da Paz

REFLEXÃO DOS COPRESIDENTES DA PAX CHRISTI INTERNACIONAL SOBRE A MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 53º DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2020

A 52ª mensagem do Dia Mundial da Paz do Papa Francisco no ano de 2019 convidou-nos a refletir sobre o tema “A boa política está ao serviço da paz”. A mensagem do Papa era que a política, apesar de essencial à construção de comunidades e instituições humanas, pode tornar-se um meio de opressão, marginalização e até de destruição quando a vida política não é vista como uma forma de serviço à sociedade como um todo. Este ano, o tema do 53º Dia Mundial da Paz do Papa Francisco em 2020 é “A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica”. A reflexão sobre este tema é retratada nas seguintes seções da sua mensagem (1) A paz, caminho de esperança face aos obstáculos e provações. (2) A paz, caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade. (3) A paz, caminho de reconciliação na comunhão fraterna. (4) A paz, caminho de conversão ecológica.

Num mundo devastado por guerra e conflitos que frequentemente afetam os marginalizados e os vulneráveis da nossa sociedade, somos convidados a refletir sobre a paz como objeto da nossa esperança e aspiração de toda a família humana. A virtude da esperança inspira-nos e mantém-nos na nossa caminhada, mesmo quando os obstáculos parecem esmagadores. O Papa aborda as diferentes formas de violência que estão a dilacerar a humanidade e o seu verdadeiro significado. Ele afirma: “Na realidade, toda a guerra se revela um fratricídio que destrói o próprio projeto de fraternidade, inscrito na vocação da família humana”.

A mensagem do Papa Francisco é uma mensagem muito forte, uma mensagem vocacional. Esta vocação é a dos filhos de Deus, irmãos e irmãs. Mas o Papa sublinha a “impaciência pela diversidade do outro, que fomenta o desejo de […] domínio. Nasce no coração do homem a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo”. Ele enfatiza o facto de que a “guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo”. Pelo contrário, respeitando, confiando nos outros e vendo-os como filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs, podemos “romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança”.

Refletindo sobre esta mensagem, temos a oportunidade de agir contra estereótipos e preconceitos de outros, dominação cultural e cegueira cultural e várias formas de exclusão experimentadas nas nossas comunidades, país e em todo o mundo devido à raça, género, credo, etnia, estatuto, orientação e idade. Mais importante, o Papa coloca algumas questões críticas para nos ajudar a refletir sobre a nossa falta de aceitação, desconfiança e medo dos outros como indivíduos e/ou comunidade. “Como construir um caminho de paz e mútuo reconhecimento? Como romper a lógica morbosa da ameaça e do medo? Como quebrar a dinâmica de desconfiança atualmente prevalecente?” Outra pergunta importante a ser feita é: como lidamos com as divisões dentro de uma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa em empregar os meios para garantir o desenvolvimento humano integral que põe em risco a busca do bem comum? Isto exige profunda reflexão e o estímulo do Espírito Santo, que nos iluminará para que respondamos positivamente, tornando-nos artesãos da justiça e da paz.

Segundo o Papa, o mundo desenvolve um estranho paradoxo, ao mesmo tempo que busca garantir a paz “com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo”. O clima de medo reforça a fragilidade dos relacionamentos e aumenta o risco de violência, criando círculos viciosos que nunca levam a um relacionamento pacífico. O Papa concentra-se em particular no perigo da dissuasão nuclear que “só pode criar uma segurança ilusória”. Refletindo sobre isto, o Papa Francisco adverte contra a ilusão de pensar que podemos “manter a estabilidade no mundo através do medo da aniquilação”, em vez de proteger e preservar a vida e desenvolver uma “ética global de solidariedade e cooperação ao serviço dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira de hoje e de amanhã”. Quão inspiradora é esta perceção do Papa Francisco de que a violência em todas as suas formas nunca levou à paz, incluindo especialmente o uso de armas de destruição em massa. A paz nunca será alcançada através da dissuasão nuclear ou de qualquer ato de violência, pelo contrário, “a paz alcança-se no mais fundo do coração humano”. Somos chamados a viver livres do medo, pois temos um Deus que nos ama, apesar das nossas fraquezas e necessidades, como ilustra a parábola do filho pródigo (Lucas 15,11-24). Portanto, na nossa busca pela paz, “pode-nos inspirar o amor de Deus por cada um de nós, amor libertador, ilimitado, gratuito, incansável”. Para quebrar essa dinâmica de desconfiança devemos, portanto, “procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua. O desejo de paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos”.

O Santo Padre fala então da paz como um “caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade”. Refletindo sobre o horror das bombas atómicas lançadas em Hiroxima e Nagasaki em agosto de 1945 e as memórias dos Hibakusha (os sobreviventes da bomba atómica), o Papa Francisco exalta a importância de manter e preservar a memória de eventos passados. Tais memórias não devem ser apenas um lembrete para impedir que eventos semelhantes aconteçam, “mas também para que a memória, fruto da experiência, constitua a raiz e sugira a vereda para as opções de paz presentes e futuras”. Manter as memórias das vítimas vivas gera nova esperança em indivíduos e comunidades, em vez de buscar vingança, o que tende a criar mais violência. Em vista disso, convidamos cada um de nós a estudar o nosso contexto e, quando aplicável, honrar as memórias das vítimas, para que a esperança delas e a nossa possa acender-se, a fim de aproveitar a paz.

Na escuridão da guerra e da violência, uma simples mão estendida pode, às vezes, despertar novas energias e reavivar novas esperanças em indivíduos e comunidades. Abrir e traçar o caminho da paz é um desafio “complexo”, porque os interesses em jogo nos relacionamentos são múltiplos e contraditórios. Só podemos realmente alcançar a paz se buscarmos a verdade juntos “mais além das ideologias e das diferentes opiniões”. Através do diálogo e ouvindo-nos mutuamente, “podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto dum irmão”. O processo de paz é um compromisso de longo prazo. O Papa insiste que “o mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações”. O Santo Padre desenvolve então o papel da democracia, que pode ser “um paradigma significativo deste processo”. Também adverte contra sociedades fraturadas, nas quais “o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecução do bem comum”. Cabe à Igreja e às suas organizações participar no serviço deste bem comum, através da transmissão de valores cristãos, ensino moral e obras de educação social.

Na terceira parte de sua mensagem, o Papa refere-se à Bíblia, onde muitas passagens mostram que o outro nunca deve estar fechado no que tem de dizer ou fazer, mas deve ser considerado de acordo com a promessa que carrega dentro de si. O Papa Francisco convida-nos a respeitar, perdoar, reconciliar. Chama-nos a refletir sobre o poder do perdão, conforme ensinado por Jesus Cristo (Mateus 18,21-22) - perdoar “setenta vezes sete”. Aprendemos a viver no perdão para que possamos aumentar “a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz” e oferecer essa paz aos homens e mulheres do nosso tempo.

O Santo Padre invoca uma comunhão fraterna em cada área da existência, social, económica e política. Ao fazer isso, imitamos Cristo, que foi o primeiro reconciliador através de sua morte na cruz “estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz” (Colossenses 1,20). Nesta mensagem para o Dia Mundial da Paz, somos lembrados que para aqueles que seguem a Cristo, o caminho para a paz é sustentada pelo sacramento da reconciliação que renova indivíduos e comunidades. Este é um caminho que exige paciência e confiança, ouvindo-nos uns aos outros e contemplando o mundo que Deus deu para ser a nossa casa comum e o das gerações vindouras.

Nesta mensagem de paz, o Papa também nos convida a refletir sobre a “conversão ecológica” como forma de construir a paz. Assim, cada um de nós é desafiado a examinar a nossa atitude exploradora, dominadora, abusiva e egoísta em relação ao meio ambiente e aos recursos que o nosso Criador nos confiou como guardiães. Esta é também uma reflexão sobre a maneira como tratamos os outros, especialmente os marginalizados e vulneráveis. Somos, portanto, convidados a percorrer o caminho da “conversão ecológica”, de modo a respeitar e nutrir a Terra e tudo o que nela vive, inclusive a vida humana. Por meio da conversão ecológica desafiamo-nos a nós mesmos e aos outros a uma nova maneira de encarar a vida, enquanto apreciamos a generosidade de Deus para connosco por nos dar e compartilhar a terra. Isto exige uma mudança de atitude e transformação na maneira como nos relacionamos com o Criador, que é a origem e fonte de toda a vida, com os outros e com a criação de Deus em toda a sua rica variedade. Assim, como refere o Papa: “temos necessidade duma mudança nas convicções e na perspetiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e à receção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice”. Além disso, refletindo sobre a recente visita do Papa à Região Pan-Amazónica e a sua reflexão sobre essa visita, o apelo que nos é feito é o de procurar trabalhar para o relacionamento pacífico entre as comunidades e a terra, entre o presente e o passado, entre a experiência e a esperança. O Papa Francisco também nos convida a encontrar novas maneiras de viver juntos, celebrando e partilhando a vida com outros, além de respeitar e apreciar a Terra como a nossa casa comum.

Finalmente, o Papa volta ao tema com que abriu o texto, o da “esperança". “Não se obtém a paz, se não a esperamos”, enfatiza o Papa Francisco, que designa a paciência e a confiança como apoios. E continua a explicar. Em primeiro lugar, isto significa acreditar na possibilidade da paz, acreditar que os outros precisam da paz tanto como nós. Aqui podemos encontrar inspiração no amor que Deus tem por cada um de nós; amor que é libertador, ilimitado, gratuito e incansável.

Que todos nós, nos cinco continentes – velhos e jovens, mulheres e homens, todos criados à imagem e semelhança de Deus – possamos “conhecer uma existência de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si”. À medida que continuamos a servir nos nossos diferentes contextos e capacidades; que avançamos nas quatro áreas de intervenção da Pax Christi Internacional: (1) Não-violência como estilo de política da paz; (2) Tratado de proibição de armas nucleares: (3) Indústrias Extrativas na América Latina; (4) Processo de paz Israel-Palestina renovado; e na expectativa de comemorar o 75º aniversário da Pax Christi Internacional em maio de 2020 em Hiroxima, que a inspiração desta mensagem deste Dia Mundial da Paz de 2020 continue a ser o ímpeto que nos conduz. Que continuemos a trabalhar por um mundo onde todos experimentarão igualdade e justiça social; onde “o outro” já não é tratado como um inimigo, mas como um amigo, onde as espadas serão transformadas em arados, onde a criação de Deus será nutrida e respeitada e todos se reunirão em gratidão ao Criador de todos nós.

Que o Criador de novos começos caminhe suavemente com cada um de vós e traga a paz para vós e as vossas famílias neste novo ano de 2020. Ao criarem culturas de paz no vosso dia-a-dia, que possam experimentar paz, alegria e esperança.

Bispo Marc Stenger (Bispo de Troyes, França) | Irmã Teresia Wamuyu Wachira, IBVM (Quénia)

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Fazei desabrochar a Paz... Reflexões para o Advento 2019 - 4ª Semana


Fazei desabrochar a Paz...

4ª SEMANA

A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis: a paz consigo mesmo; a paz com o outro; a paz com a criação.

PAPA FRANCISCO, «A boa política está ao serviço da paz». Mensagem para a celebração do dia mundial da paz 2019, n. 7


REFLEXÃO

A paz está relacionada com o desenvolvimento sustentável e a integridade da criação. O contexto atual de desigualdade e “globalização da indiferença” é uma grave ameaça à paz. A educação para a paz precisa, portanto, de integrar perspetivas de desenvolvimento e ecologia que visem erradicar a pobreza e a injustiça, proteger o meio ambiente, garantir o desenvolvimento de toda pessoa e da pessoa toda, bem como promover a harmonia e a estabilidade de toda a criação. A atual crise ecológica é uma crise do ego, que é profundamente prejudicial para a paz e o bem-estar de todos. A ameaça que as alterações climáticas representam para a Terra, a “nossa casa comum”, convoca-nos a incluir o compromisso ecológico como um aspeto integral da educação para a paz. Há uma necessidade de introduzir programas educativos que promovam uma maneira nova e interdependente de pensar sobre as nossas relações com o divino, o humano e a natureza. Tal educação pode ocorrer em contextos variados: famílias, escolas, comunidades religiosas, lugares de trabalho e meios de comunicação.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO e CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Educação para a paz num mundo multirreligioso: Perspetiva Cristã, 2019, pp. 16.

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

53º Dia Mundial da Paz 2020 - A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2020



«A PAZ COMO CAMINHO DE ESPERANÇA:
DIÁLOGO, RECONCILIAÇÃO E CONVERSÃO ECOLÓGICA»



1. A paz, caminho de esperança face aos obstáculos e provações

A paz é um bem precioso, objeto da nossa esperança; por ela aspira toda a humanidade. Depor esperança na paz é um comportamento humano que alberga uma tal tensão existencial, que o momento presente, às vezes até custoso, «pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho»[1]. Assim, a esperança é a virtude que nos coloca a caminho, dá asas para continuar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis.

A nossa comunidade humana traz, na memória e na carne, os sinais das guerras e conflitos que têm vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e frágeis. Há nações inteiras que não conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a liberdade – incluindo a liberdade religiosa –, a solidariedade comunitária, a esperança no futuro. Inúmeras vítimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilhação e da exclusão, do luto e da injustiça, se não mesmo os traumas resultantes da opressão sistemática contra o seu povo e os seus entes queridos.

As terríveis provações dos conflitos civis e dos conflitos internacionais, agravadas muitas vezes por violências desalmadas, marcam prolongadamente o corpo e a alma da humanidade. Na realidade, toda a guerra se revela um fratricídio que destrói o próprio projeto de fraternidade, inscrito na vocação da família humana.

Sabemos que, muitas vezes, a guerra começa pelo facto de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio. Nasce, no coração do homem, a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo. A guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo; e simultaneamente alimenta tudo isso.

Como fiz notar durante a recente viagem ao Japão, é paradoxal que «o nosso mundo viva a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo. A paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de mútua destruição ou sobre uma ameaça de aniquilação total. São possíveis só a partir duma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira de hoje e de amanhã»[2].

Toda a situação de ameaça alimenta a desconfiança e a retirada para dentro da própria condição. Desconfiança e medo aumentam a fragilidade das relações e o risco de violência, num círculo vicioso que nunca poderá levar a uma relação de paz. Neste sentido, a própria dissuasão nuclear só pode criar uma segurança ilusória.

Por isso, não podemos pretender manter a estabilidade no mundo através do medo da aniquilação, num equilíbrio muito instável, pendente sobre o abismo nuclear e fechado dentro dos muros da indiferença, onde se tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada para os dramas do descarte do homem e da criação, em vez de nos guardarmos uns aos outros[3]. Então como construir um caminho de paz e mútuo reconhecimento? Como romper a lógica morbosa da ameaça e do medo? Como quebrar a dinâmica de desconfiança atualmente prevalecente?

Devemos procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua. O desejo de paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos.

2. A paz, caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade

Os sobreviventes aos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui – denominados os hibakusha – contam-se entre aqueles que, hoje, mantêm viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os sofrimentos indescritíveis que se seguiram até aos dias de hoje. Assim, o seu testemunho aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição. «Não podemos permitir que as atuais e as novas gerações percam a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno»[4].

Como eles, há muitos, em todas as partes do mundo, que oferecem às gerações futuras o serviço imprescindível da memória, que deve ser preservada não apenas para evitar que se voltem a cometer os mesmos erros ou se reproponham os esquemas ilusórios do passado, mas também para que a memória, fruto da experiência, constitua a raiz e sugira a vereda para as opções de paz presentes e futuras.

Mais ainda, a memória é o horizonte da esperança: muitas vezes, na escuridão das guerras e dos conflitos, a lembrança mesmo dum pequeno gesto de solidariedade recebida pode inspirar opções corajosas e até heroicas, pode colocar em movimento novas energias e reacender nova esperança nos indivíduos e nas comunidades.

Abrir e traçar um caminho de paz é um desafio muito complexo, pois os interesses em jogo, nas relações entre pessoas, comunidades e nações, são múltiplos e contraditórios. É preciso, antes de mais nada, fazer apelo à consciência moral e à vontade pessoal e política. Com efeito, a paz alcança-se no mais fundo do coração humano, e a vontade política deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades.

O mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações. De facto, só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade mais além das ideologias e das diferentes opiniões. A paz é uma construção que «deve estar constantemente a ser edificada»[5], um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter a palavra dada e a respeitar o direito. Na escuta mútua, podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto dum irmão.

Por conseguinte, o processo de paz é um empenho que se prolonga no tempo. É um trabalho paciente de busca da verdade e da justiça, que honra a memória das vítimas e abre, passo a passo, para uma esperança comum, mais forte que a vingança. Num Estado de direito, a democracia pode ser um paradigma significativo deste processo, se estiver baseada na justiça e no compromisso de tutelar os direitos de cada um, especialmente se vulnerável ou marginalizado, na busca contínua da verdade[6]. Trata-se duma construção social em contínua elaboração, para a qual cada um presta responsavelmente a própria contribuição, a todos os níveis da comunidade local, nacional e mundial.

Como assinalava o Papa São Paulo VI, «a dupla aspiração – à igualdade e à participação – procura promover um tipo de sociedade democrática. (...). Isto, de per si, já diz bem qual a importância de uma educação para a vida em sociedade, em que, para além da informação sobre os direitos de cada um, seja recordado também o seu necessário correlativo: o reconhecimento dos deveres de cada um em relação aos outros. O sentido e a prática do dever são, por sua vez, condicionados pelo domínio de si mesmo, pela aceitação das responsabilidades e das limitações impostas ao exercício da liberdade do indivíduo ou do grupo»[7].

Pelo contrário, a fratura entre os membros duma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecução do bem comum. Inversamente, o trabalho paciente, baseado na força da palavra e da verdade, pode despertar nas pessoas a capacidade de compaixão e solidariedade criativa.

Na nossa experiência cristã, fazemos constantemente memória de Cristo, que deu a sua vida pela nossa reconciliação (cf. Rm 5, 6-11). A Igreja participa plenamente na busca duma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperança da paz, através da transmissão dos valores cristãos, do ensinamento moral e das obras sociais e educacionais.

3. A paz, caminho de reconciliação na comunhão fraterna

A Bíblia, particularmente através da palavra dos profetas, chama as consciências e os povos à aliança de Deus com a humanidade. Trata-se de abandonar o desejo de dominar os outros e aprender a olhar-se mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irmãos. O outro nunca há de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo. Somente escolhendo a senda do respeito é que será possível romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança.

Guia-nos a passagem do Evangelho que reproduz o seguinte diálogo entre Pedro e Jesus: «“Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”» (Mt 18, 21-22). Este caminho de reconciliação convida-nos a encontrar no mais fundo do nosso coração a força do perdão e a capacidade de nos reconhecermos como irmãos e irmãs. Aprender a viver no perdão aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz.

O que é verdade em relação à paz na esfera social, é verdadeiro também no campo político e económico, pois a questão da paz permeia todas as dimensões da vida comunitária: nunca haverá paz verdadeira, se não formos capazes de construir um sistema económico mais justo. Como escreveu Bento XVI, «a vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se atue não só sobre a melhoria das transações fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade económica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão»[8].

4. A paz, caminho de conversão ecológica

«Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar»[9].

Vendo as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais – considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza –, precisamos duma conversão ecológica.

O Sínodo recente sobre a Amazónia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as esperanças.

Este caminho de reconciliação inclui também escuta e contemplação do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum. De facto, os recursos naturais, as numerosas formas de vida e a própria Terra foram-nos confiados para ser «cultivados e guardados» (cf. Gn 2, 15) também para as gerações futuras, com a participação responsável e diligente de cada um. Além disso, temos necessidade duma mudança nas convicções e na perspetiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e à receção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice.

De modo particular brotam daqui motivações profundas e um novo modo de habitar na casa comum, de convivermos uns e outros com as próprias diversidades, de celebrar e respeitar a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condições e modelos de sociedade que favoreçam o desabrochar e a permanência da vida no futuro, de desenvolver o bem comum de toda a família humana.

Por conseguinte a conversão ecológica, a que apelamos, leva-nos a uma nova perspetiva sobre a vida, considerando a generosidade do Criador que nos deu a Terra e nos chama à jubilosa sobriedade da partilha. Esta conversão deve ser entendida de maneira integral, como uma transformação das relações que mantemos com as nossas irmãs e irmãos, com os outros seres vivos, com a criação na sua riquíssima variedade, com o Criador que é origem de toda a vida. Para o cristão, uma tal conversão exige «deixar emergir, nas relações com o mundo que o rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus»[10].

5. Obtém-se tanto quanto se espera[11]

O caminho da reconciliação requer paciência e confiança. Não se obtém a paz, se não a esperamos.

Trata-se, antes de mais nada, de acreditar na possibilidade da paz, de crer que o outro tem a mesma necessidade de paz que nós. Nisto, pode-nos inspirar o amor de Deus por cada um de nós, amor libertador, ilimitado, gratuito, incansável.

O medo é, frequentemente, fonte de conflito. Por isso, é importante ir além dos nossos temores humanos, reconhecendo-nos filhos necessitados diante d’Aquele que nos ama e espera por nós, como o Pai do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-24). A cultura do encontro entre irmãos e irmãs rompe com a cultura da ameaça. Torna cada encontro uma possibilidade e um dom do amor generoso de Deus. Faz-nos de guia para ultrapassarmos os limites dos nossos horizontes estreitos, procurando sempre viver a fraternidade universal, como filhos do único Pai celeste.

Para os discípulos de Cristo, este caminho é apoiado também pelo sacramento da Reconciliação, concedido pelo Senhor para a remissão dos pecados dos batizados. Este sacramento da Igreja, que renova as pessoas e as comunidades, convida a manter o olhar fixo em Jesus, que reconciliou «todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu» (Col 1, 20); e pede para depor toda a violência nos pensamentos, nas palavras e nas obras quer para com o próximo quer para com a criação.

A graça de Deus Pai oferece-se como amor sem condições. Recebido o seu perdão, em Cristo, podemos colocar-nos a caminho para ir oferecê-lo aos homens e mulheres do nosso tempo. Dia após dia, o Espírito Santo sugere-nos atitudes e palavras para nos tornarmos artesãos de justiça e de paz.

Que o Deus da paz nos abençoe e venha em nossa ajuda.

Que Maria, Mãe do Príncipe da paz e Mãe de todos os povos da terra, nos acompanhe e apoie, passo a passo, no caminho da reconciliação.

E que toda a pessoa que vem a este mundo possa conhecer uma existência de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si.

Vaticano, 8 de dezembro de 2019.

Franciscus



[1] Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 30 de novembro de 2007, 1.

[2] Discurso sobre as armas nucleares, Nagasáqui – Parque «Atomic Bomb Hypocenter», 24 de novembro de 2019.

[3] Cf. Francisco, Homilia em Lampedusa, 8 de julho de 2013.

[4] Francisco, Discurso sobre a Paz, Hiroxima – Memorial da Paz, 24 de novembro de 2019.

[5] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 78.

[6] Cf. Bento XVI, Discurso aos dirigentes e membros das Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos (ACLI), 27 de janeiro de 2006.

[7] Carta ap. Octogesima adveniens, 14 de maio de 1971, 24.

[8] Carta enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 39.

[9] Francisco, Carta enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 200.

[10] Ibid., 217.

[11] Cf. São João da Cruz, Noite Escura, II, 21, 8.

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Fazei desabrochar a Paz... Reflexões para o Advento 2019 - 3ª Semana


Fazei desabrochar a Paz...

3ª SEMANA

Na social web, muitas vezes a identidade funda-se na contraposição ao outro, à pessoa estranha ao grupo: define-se mais a partir daquilo que divide do que daquilo que une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso, e outros).

PAPA FRANCISCO, “Somos membros uns dos outros” (Ef 4,25): Das comunidades de redes sociais à comunidade humana. Mensagem para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais


REFLEXÃO

“A verdade vos libertará” (João 8,32). A comunicação faz parte do plano de Deus para conduzir os seres humanos ao reconhecimento da verdade e à afirmação da liberdade e da fraternidade universal. O uso negativo das tecnologias de informação e comunicação para promover discórdia e conflito é bem conhecido. Nesta era da comunicação de massa, é importante, portanto, usar adequadamente os meios de comunicação social e os outros meios de comunicação como instrumentos de educação para a paz, levando em consideração os aspetos práticos e as necessidades locais. Isto é crucial para combater a disseminação das “notícias falsas”.

A este propósito, é importante criar programas educativos voltados para o desenvolvimento de capacidades para identificar e combater o flagelo das informações tendenciosas e infundadas, bem como as narrativas xenófobas.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO e CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Educação para a paz num mundo multirreligioso: Perspetiva Cristã, 2019, pp. 13.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Fazei desabrochar a Paz... Reflexões para o Advento 2019 - 2ª Semana


Fazei desabrochar a Paz...

2ª SEMANA

Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa.

PAPA FRANCISCO, «A boa política está ao serviço da paz». Mensagem para a celebração do dia mundial da paz 2019, n. 5


REFLEXÃO

A educação deve encorajar uma visão positiva dos seres humanos que são diferentes de nós em matéria de etnia ou religião e que são frequentemente referidos como o “outro” (cf. Mateus 7,12). É preciso apurar qualquer inadequação e imprecisão na apresentação de outras religiões ou comunidades minoritárias, em situações em que os membros de um determinado grupo religioso ou étnico controlam os sistemas educativos e os planos curriculares. Tal parcialidade contra as minorias pode afetar não só o plano curricular da educação religiosa, mas também a de outras disciplinas, como história e literatura. Pode também estimular a perceção de que os membros da “outra” comunidade não são cidadãos de pleno direito nem em pé de igualdade, ou que não contribuíram para a construção da nação. É essencial que em todos os países a aprendizagem sobre a fé e a experiência de tais “outros” faça parte integrante da educação, preferencialmente de uma forma que permita a esses outros contribuírem para o processo. Para evitar distorções ou invisibilidades, é essencial que os livros didáticos que são usados para ensinar sobre a fé e a história das comunidades religiosas minoritárias sejam escritos, ou pelo menos revistos, por representantes das próprias comunidades. Além disso, os membros de todas as comunidades religiosas necessitam de uma sólida formação na sua própria tradição religiosa, bem como uma boa informação sobre o outro, como uma base para o diálogo. Ao aprenderem sobre a sua própria tradição religiosa, as pessoas precisam de o fazer de um modo que não promova a arrogância.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO e CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Educação para a paz num mundo multirreligioso: Perspetiva Cristã, 2019, pp. 12-13.

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domingo, 1 de dezembro de 2019

Fazei desabrochar a Paz... Reflexões para o Advento 2019 - 1ª Semana


Fazei desabrochar a Paz...

1ª SEMANA

Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.

PAPA FRANCISCO, «A boa política está ao serviço da paz». Mensagem para a celebração do dia mundial da paz 2019, n. 1


REFLEXÃO

Cristo é a nossa paz (cf. Efésios 2,14). O elo entre Jesus Cristo e a paz está no centro da fé cristã e reflete-se no seu nascimento, morte na cruz e ressurreição, e o envio do Espírito Santo. O nascimento de Cristo é marcado por um anúncio divino de paz (cf. Lucas 2,14). A principal palavra e dom do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos é a paz (cf. Lucas 24,36; João 20,21). É um dom único – «Não a dou como o mundo a dá» (João 14,27) –, pois elimina o mal e a violência pela raiz.
Como beneficiários do dom da paz de Cris-to, os seus discípulos são chamados a serem artesãos de paz. Jesus, o Príncipe da Paz, envia os seus discípulos como portadores de paz: «Quando entrardes numa casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’» (Lucas 10,5). Mesmo diante da violência, Ele percorreu o caminho da não-violência até ao fim. Impediu ainda que os seus discípulos usassem a violência para continuar a sua missão (cf. Lucas 9, 54-55), ou que O protegessem no momento da sua prisão (cf. Mateus 26,52). Proclamar a paz é anunciar Cristo que é a “nossa paz”. Um importante sinal do Espírito que é dado aos discípulos para marcar a vida da Igreja é a “paz” (cf. Gálatas 5,22), e tal paz precisa de reinar nos seus corações para lhes permitir cumprir o seu chamamento como um só corpo (cf. Colossenses 3,15).

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO e CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS, Educação para a paz num mundo multirreligioso: Perspetiva Cristã, 2019, pp. 5-6.

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Fazei desabrochar a Paz... Reflexões para o Advento 2019 - Apresentação


Fazei desabrochar a Paz...

APRESENTAÇÃO


A paz – afirmou o Papa Francisco, na sua mensagem para a celebração do 52º Dia Mundial da Paz –, «é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência». E, como recordou às autoridades civis moçambicanas, em Maputo, a 5 de setembro de 2019, «a busca da paz duradoura – uma missão que envolve a todos – exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas».

Neste sentido, é nossa convicção que a educação para a paz e a não-violência assume, sem dúvida, uma tarefa importante e fundamental para a promoção e consolidação de uma cultura da paz e não-violência nesta nossa casa comum. Ela permitirá fazer desabrochar essa “flor frágil”, continuamente ameaçada, que é a paz, na medida em que as sementes de paz que “formos plantando”, mesmo em ambientes inóspitos, farão florescer o amor, a esperança e a alegria. E esta tem sido uma preocupação e um dos princípios fundamentais de ação da secção portuguesa da Pax Christi, Movimento Católico Internacional para a Paz, desde o seu início, nos anos 1980.

A este propósito, numa recente publicação conjunta (Educação para a paz num mundo multirreligioso: Perspetiva Cristã), o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso e o Conselho Mundial de Igrejas, afirmam: «A educação para a paz torna-se um imperativo no nosso contexto atual, caracterizado pela perda da vida humana, destruição de lares, propriedades e infraestruturas, pelas crises migratórias e de refugiados, pelo impacto no meio ambiente, bem como a traumatização de gerações inteiras e o uso de recursos finitos para abastecer o stock de armas à custa da educação e do desenvolvimento. A nossa tarefa torna-se ainda mais importante no contexto da crescente visibilidade da violência nos meios de comunicação social, que pode fomentar o medo e o ódio».

É neste espírito que propomos estas reflexões para viver o Advento de 2019, seja na paróquia, em família ou em grupo, a partir de textos selecionados do documento do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso e do Conselho Mundial de Igrejas, atrás citado, que realça o papel fundamental que a educação pode desempenhar na promoção de uma cultura da paz.

Esta proposta está enraizada na convicção de que todos podemos ser educadores para a paz e de que a educação para a paz e a não-violência é missão de todos, nomeadamente dos cristãos.

É nossa expectativa que estas reflexões para o advento sejam um incentivo a que cada um assuma o compromisso de promover, pelo menos, uma ação de educação para a paz no próximo ano.

Há inúmeras possibilidades: em família, na paróquia, na escola, no grupo, seja em ambientes online ou offline, pode promover uma campanha de educação/promoção da paz e da não-violência. Pode abordar o tema da paz em geral ou escolher temáticas específicas, como, por exemplo, Paz e diálogo inter-religioso, Paz e emergência climática, Viver a paz em sociedades multiculturais…

Contacte a Pax Christi se quiser ajuda, e partilhe connosco a sua iniciativa.

Novembro de 2019

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sábado, 3 de agosto de 2019

O segredo mais bem guardado da Igreja Católica

A Igreja Católica tem um grande segredo. É tão poderoso, desafiador e relevante, que se cada um dos bispos, padres, religiosos e leigos estivessem comprometidos em comunicar e implementar este segredo, viraria a sociedade de cabeça para baixo e literalmente transformaria o mundo!

No entanto, revelar o seu conteúdo e reclamar a plena aplicação da sua mensagem causaria certamente grande controvérsia. Os líderes da Igreja seriam atacados tanto por conservadores como por liberais. Seriam caracterizados como ingénuos e agindo fora dos limites aceitáveis da liderança da Igreja.

Portanto, a maioria dos líderes da Igreja optou por ser cauteloso, garantindo tristemente que a Doutrina Social da Igreja (DSI) continuará a ser o segredo mais bem guardado.

O segredo mais bem guardado é que a Igreja Católica é profundamente abençoada com mais de 125 anos de excelentes documentos sobre justiça social e paz redigidos por papas, Concílio Vaticano II, sínodos mundiais de bispos e conferências nacionais de bispos. Infelizmente, eles atraem mais pó do que leitores.

Porque os princípios fundacionais da DSI de amor, justiça e paz desafiam corajosamente governos, corporações e sociedades, bem como indivíduos ricos e poderosos a dividirem de forma justa a sua riqueza e poder com todos – especialmente os pobres, os vulneráveis e a mãe terra – e porque esses ensinamentos insistem que a preparação para a guerra e a guerra devem dar lugar à construção da paz, a DSI é, para não exagerar: uma venda difícil.

Precisamos de nos esforçar para aprender a sabedoria da DSI e desinteressadamente, corajosamente pô-la em prática nas nossas vidas pessoais, políticas, económicas e sociais. Ela precisa de ser posta acima do status quo de nós mesmos, das nossas nações, das nossas corporações e da nossa cultura.

Como o Evangelho, a DSI é contracultural. E, portanto, devemos sair das nossas zonas de conforto e ser contraculturais também!

Mas, infelizmente, porque a DSI é tão desafiadora, o caminho de menor resistência é mais frequentemente usado. Por exemplo, de vez em quando uma referência passageira é-lhe feita numa homilia, mas tais esforços simbólicos são muito fracos e pouco frequentes para fazer muita diferença para os não nascidos, pobres e devastados pela guerra do nosso mundo. E a nossa fé é mais fraca por isso.

A DSI tem no seu núcleo um conjunto de princípios destinados a guiar-nos na aplicação da mensagem libertadora do Evangelho aos problemas sociais, económicos e políticos, que a humanidade moderna enfrenta.

Estes princípios são:
  • A proteção de toda a vida humana e a promoção da dignidade humana;
  • O chamamento a participar na vida familiar e comunitária;
  • A promoção dos direitos e deveres humanos;
  • A opção preferencial pelos pobres e vulneráveis;
  • A salvaguarda da dignidade e dos direitos dos trabalhadores;
  • A construção da solidariedade global e do bem comum;
  • O cuidado da criação de Deus;
  • O destino universal dos bens;
  • O chamamento a ser construtores de paz.

Entre os documentos mais importantes da DSI estão a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual do Concílio Vaticano II, as encíclicas A Solicitude Social da Igreja e O Evangelho da vida de São João Paulo II e a encíclica Laudato Si’. Sobre o cuidado da casa comum do Papa Francisco. […]

A DSI poderia converter-se numa ferramenta tremendamente eficaz para construir um mundo justo e pacífico, se a lêssemos regularmente, rezássemos com ela, a ensinássemos, a pregássemos e a vivêssemos!

Tony MAGLIANO
https://paxchristipeacestories.com/2019/06/28/the-best-kept-secret-of-the-catholic-church/

domingo, 7 de abril de 2019

Líderes religiosos, praticantes da paz, aprofundam o compromisso da Igreja com a não-violência e a paz

Nos dias 4 e 5 de abril, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano e a Iniciativa Católica de Não-Violência da Pax Christi International organizaram um workshop sobre o tema “Caminho da não-violência: rumo a uma cultura de paz”.


Com uma consideração e compreensão das situações atuais de conflito e violência, os participantes dialogaram sobre as raízes da violência, a esperança de paz e de reconciliação e refletiram sobre os caminhos para uma conversão à não-violência. Observaram que a não-violência não é apenas um método, mas um estilo de vida, uma maneira de proteger e de cuidar das condições de vida para hoje e para o futuro. [+]

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Pax Christi International lança "A Europa que queremos", um manifesto sobre as eleições de Maio do Parlamento Europeu

Manifesto Europeu: “A Europa que queremos”
3 de abril de 2019

Por ocasião da eleição dos membros do Parlamento Europeu (23-26 de maio de 2019), a Pax Christi International e vários dos seus membros nacionais publicam o seguinte manifesto que encoraja os candidatos e cidadãos a escolher um projeto europeu renovado baseado na solidariedade, na fraternidade e na paz.

I. A Europa em que acreditamos

1. A “Europa” é um projeto de paz único que existe há mais de 70 anos. Quando começou após a Segunda Guerra Mundial, o “projeto europeu” foi construído sobre dois pilares paralelos: um era o controlo conjunto dos recursos de guerra, nomeadamente através da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951); a outra era a promoção e proteção dos direitos humanos como um meio significativo para prevenir a guerra entre nações europeias, através da criação do Conselho da Europa (1949). Em seguida, foram estabelecidas a Convenção Europeia dos Direitos do Homem (1950) e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (1959).

2. Desde então, foram desenvolvidas metodologias para a cooperação europeia, trazendo paz e prosperidade de modo inigualável a todo o nosso continente. A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço de 6 expandiu-se para uma União Europeia de 28 e os países que estão vinculados pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos são hoje 47. Todos os europeus partilham os mesmos direitos e liberdades fundamentais, a paz foi amplamente mantida em todo o continente, e declarar a guerra contra outro Estado europeu é agora simplesmente impensável. Além disso, contribuições cruciais foram feitas para a resolução de conflitos e a construção da paz noutros continentes.

3. Mas estas conquistas não acontecem sem falhas: a prosperidade não é partilhada de modo igual, os direitos humanos ainda são violados e a solidariedade é desafiada. Durante os 70 anos de paz, os conflitos armados reapareceram no continente europeu e a corrida armamentista que tinha sido revertida após o colapso da União Soviética recomeçou, com vários países europeus a desempenhar um grande papel nela como produtores e comerciantes de armas sofisticadas. As exportações de armas dos Estados-Membros da UE representam cerca de um quarto do total das exportações mundiais, causando devastação em todo o mundo.

4. O afluxo de imigrantes provocou apreensão e medo nas sociedades europeias. Sentimentos de insegurança minaram a confiança que as pessoas tinham na Europa como um projeto de paz e segurança. Alguns cidadãos prefeririam que a Europa erguesse muros como forma de bloquear esse afluxo; associam os imigrantes ao terror e ao possível desaparecimento da sua identidade, cultura e valores tradicionais. Políticos com programas nacionalistas e populistas rejeitam a ideia de diversidade e cooperação europeia, em vez de permanecerem abertos e tolerantes e de enfrentar os desafios europeus de forma conjunta, como é necessário.

5. Nós, as organizações da Pax Christi ligadas ao movimento de paz católico em toda a Europa, reiteramos a nossa fé no projeto europeu:

Sim, a “Europa” ainda é muito necessária para alcançar os objetivos de paz, prosperidade e sustentabilidade num mundo abalado por desigualdades, conflitos, mudanças climáticas catastróficas e desequilíbrios geopolíticos;

Sim, a “Europa” deve permanecer um farol de esperança e humanidade para todos os que foram despojados da sua dignidade e direito a condições de vida dignas, e

Sim, a “Europa” tem os recursos e a coragem para se adaptar a um mundo em mudança sem renegar os seus valores fundamentais, como o respeito pela dignidade humana, a democracia e os direitos humanos.

6. Por conseguinte, acreditamos que estes princípios fundamentais devem ser novamente colocados no âmago do projeto europeu e que as próximas eleições do Parlamento Europeu, a realizar em 23-26 de Maio de 2019 nos Estados-Membros da EU, constituem o momento certo para todos aqueles que acreditam numa Europa unida se mobilizarem para a apoiar.

7. Instamos os nossos membros e concidadãos europeus a terem uma visão crítica dos programas e manifestos dos partidos políticos europeus e candidatos individuais às eleições para o Parlamento Europeu, com vista a escolher aqueles que apoiam a Europa como um projeto de paz. A vossa voz será crucial, uma vez que as eleições para o Parlamento Europeu de 2019 serão disputadas sobre questões muito importantes da Europa e poderão constituir a eleição mais decisiva até agora sobre o futuro da Europa.

II. A Europa como um projeto de paz

8. A Europa tem a força, a experiência e os recursos para desempenhar um papel ativo, forte e construtivo nas questões mundiais. É um parceiro económico de confiança, possui uma moeda sólida e possui legislação social modelar e diplomatas hábeis que podem liderar a população através das mudanças necessárias para um mundo sustentável. O nosso movimento está convencido de que estas capacidades permitem alcançar as metas de bem-estar, prosperidade e segurança sem significativos esforços militares. Em vez de estar a gastar enormes quantias num recém-criado “Fundo Europeu de Defesa”, a UE deveria investir os seus recursos em:

i. Integrar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU em todas as políticas internas e externas e torná-los numa estratégia abrangente.

ii. Manter o aumento da temperatura da Terra abaixo de 1,5° C através de políticas de limitação corajosas e socialmente responsáveis dentro das fronteiras da Europa, bem como nos países pobres e em desenvolvimento que estão igualmente expostos às mudanças climáticas, em conformidade com o Acordo de Paris sobre o clima.

iii. Desenvolver uma cultura de paz e não-violência em áreas dominadas por conflitos promovendo o desenvolvimento económico, social e sustentável, iniciativas de justiça e construção da paz, e ações de formação e educação para a paz.

iv. Promover e garantir o desarmamento nuclear, incluindo a assinatura e ratificação, por parte dos Estados europeus, do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que foi adotado na ONU.

v. Garantir que os Estados adiram rigorosamente ao Tratado de Comércio de Armas. A UE precisa de reforçar ainda mais os critérios europeus para as exportações de armas, sendo necessária maior transparência e obrigação de apresentação de relatórios uniformes para os Estados, nomeadamente através da responsabilização pelas exportações impugnadas.

vi. Participar de forma ativa e construtiva nas negociações para um forte Tratado das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos que possa fazer justiça às vítimas de violações dos direitos humanos, incluindo através da criação de provedores de justiça europeus.

III. A Europa como um farol de justiça

9. No espírito da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), foram estabelecidos a Convenção Europeia dos Direitos do Homem (1950) e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (1959); eles devem ser salvaguardados a todo o custo. Inspiraram outros mecanismos a nível internacional e foram complementados na UE pela Carta dos Direitos Fundamentais (2000), pelas disposições em matéria de direitos humanos no Tratado de Lisboa (2009) e pela jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeia (desde 1952). Nestes tempos, em que os direitos humanos e os seus defensores estão sob pressão, a UE deve fazer mais para os apoiar:

i. Confirmando inequivocamente a sua concordância com a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, retomando os procedimentos de adesão à mesma.

ii. Reforçando as capacidades da Agência dos Direitos Fundamentais da UE para aumentar a sensibilização para a Carta dos Direitos Fundamentais da UE e outros instrumentos em matéria de direitos humanos, e para monitorizar o seu cumprimento na Europa através de trabalho político e de investigação.

iii. Aperfeiçoando a proteção mundial dos defensores dos direitos humanos, em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Defensores dos Direitos Humanos (1998), as Diretrizes da UE sobre os Defensores dos Direitos Humanos (2008) e a recomendação do Conselho da Europa sobre a necessidade de reforçar o espaço da sociedade civil (2018).

iv. Regulamentando as atividades de lobbying no seio das instituições da UE e nos Estados-Membros, em conformidade com a recomendação do Conselho da Europa em matéria de lobbying no contexto do processo público de decisão (2017).

v. Promovendo um sistema mais forte para lidar com a legislação restritiva sobre as ONG, tanto dentro como fora da Europa, e pronunciando-se contra tais práticas, com o fim de apoiar a sociedade civil.

IV. A Europa como terra de humanidade

10. Em 1950, a ambição da unidade europeia era garantir a paz através da prosperidade partilhada, dentro e fora das suas fronteiras. A migração intercontinental hoje é uma realidade que requer uma resposta coletiva europeia baseada na solidariedade, no respeito pelos direitos humanos e na justiça, e políticas efetivas de integração socioeconómica. Os Estados-Membros da UE devem reforçar a sua cooperação em matéria de migrações com o fim de:

i. Renegociar a regulamentação de Dublin com o objetivo de tornar os processos de pedidos de asilo mais justos e rápidos, com pleno respeito pelos direitos e pelo melhor interesse das crianças e com especial atenção para os menores não acompanhados.

ii. Implementar ativamente o Pacto Global das Nações Unidas para uma Migração Segura, Ordenada e Regular, que foi adotado em Marraquexe (Marrocos) em 10 de dezembro de 2018 como um quadro de referência importante para a cooperação internacional.

iii. Adotar legislação sobre "vistos humanitários", dada a necessidade de per-cursos legais e seguros para a Europa para os civis que fogem da guerra e das zonas de conflito.

iv. Resistir à criminalização de atos de solidariedade por parte da sociedade civil e desafiar medidas questionáveis para restringir o acesso à proteção social por parte de refugiados, requerentes de asilo e migrantes.

v. Adotar legislação e práticas que permitam aos refugiados, requerentes de asilo e migrantes estabelecerem-se, adaptarem-se e enriquecerem as próprias sociedades que lhes proporcionam abrigo, em conformidade com os valores e normas dos países de acolhimento, conforme estabelecido pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos e outros instrumentos de direitos humanos.

V. A Europa como continente com futuro

11. A Europa é um projeto para os seus cidadãos e para todos os que nela vi-vem. Deve oferecer oportunidades para suas crianças e jovens através de políticas educativas, vocacionais e laborais apropriadas, que incluam aprender a viver em paz, a respeitar o pluralismo e a fazer da diversidade uma vantagem numa sociedade multicultural. Isto inclui oportunidades de intercâmbio e de aprendizagem com crianças e jovens de outros continentes para aumentar a compreensão intercultural. A Europa deve continuar os seus investimentos nas presentes e futuras gerações mediante:

i. Gastar mais fundos em projetos de intercâmbio internacional, como o “Erasmus +”, para jovens europeus estudarem, formarem-se ou aprenderem no estrangeiro, em consonância com a proposta da Comissão Europeia para duplicar as dotações com o próximo orçamento da UE e, especialmente, na educação e formação para a paz e a não-violência.

ii. Adotar políticas e ações que promovam a educação para os direitos humanos e a democracia, compreensão mútua, tolerância e respeito pela diversidade, utilizando os resultados e lições aprendidas pelo Conselho da Europa.

iii. Investir em proteger e tornar acessível a todos, especialmente às jovens gerações, a sua herança cultural como meio de compreender a natureza múltipla das suas raízes históricas, culturais e espirituais.

VI. A Europa em que acreditamos e pela qual trabalhamos

12. “A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto.” Estas palavras de Robert Schuman ainda são verdadeiras quase 70 anos depois de terem sido pronunciadas (9 de maio de 1950). A Europa ainda está incompleta e permanecem muitos desafios, mas as suas conquistas são imensas. Seria tolice não as reconhecer. No entanto, não podemos aceitar que um projeto tão generoso – paz, solidariedade, participação – seja interrompido por causa do medo: medo do futuro desconhecido, medo da diversidade da humanidade que bate à nossa porta, medo de um desastre ecológico iminente.

13. Acreditamos que a Europa é a única resposta aos imensos desafios dentro das nossas fronteiras e fora delas. Mais do que nunca, o futuro da Europa está em jogo. Enquanto populistas e nacionalistas estão a fazer ouvir a sua voz no período que antecede as eleições para o Parlamento Europeu, vamos agir e convencer as pessoas a participarem nas eleições e apoiarem a Europa que queremos: uma Europa pacífica, fraterna e voltada para um futuro para todas as mulheres e todos os homens de boa vontade.


- O manifesto está disponível em PDF aqui.

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terça-feira, 5 de março de 2019

Comissão Nacional Justiça e Paz propõe reflexão para a Quaresma

FAZER A PÁSCOA
Reflexão Quaresmal de 2019 da Comissão Nacional Justiça e Paz

Com esta citação de S. Paulo aos Romanos o Papa Francisco inicia a sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Fala na Quaresma como um «itinerário de preparação» para a Páscoa que, ano após ano, percorremos. O dicionário diz-nos, entre outras palavras, que “preparação” significa “obra prévia”. Há, portanto, que fazer alguma coisa para podermos entrar na Páscoa. As “cinzas” significam que somos pó e em pó nos havemos de tornar. São um chamamento à conversão. Francisco alerta-nos para a força negativa do pecado e para a possibilidade de perdão, insistindo que «a harmonia gerada pela redenção» está por alcançar. «Convertei-vos!» - afirma João Batista (cf Mt 3,2).

A Encíclica Laudato Sí continua a ser a força inspiradora para a mensagem do Papa. Respeitai e convertei a criação! Reparai a criação! Francisco convida-nos a não desperdiçar “este tempo favorável” da Quaresma. Ao desejar que tornemos este tempo favorável, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) elabora um conjunto de propostas que deixa à consideração dos cristãos e de todos os homens e mulheres de boa vontade.


1. Exploração/respeito pela criação

Etimologicamente, a palavra “respeito” corresponde à «ação de olhar para trás: consideração, atenção, acolhida, refúgio». Que fizemos da criação? O ser humano não é o senhor absoluto da criação, usando-a apenas em benefício próprio. Vivemos na permanente ameaça das alterações climáticas causadas pela sofreguidão dos homens e das mulheres. Quem paga são os mais pobres, os menos protegidos, os mais vulneráveis. Estamos a transformar o jardim do Éden num deserto.

Prevalece a lei do mais forte sobre o mais fraco. Citando o Apocalipse o Papa afirma que a própria criação pode também “fazer Páscoa”: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). Trabalhemos para a Páscoa da criação.


2. Balancear Individual/coletivo

Urge ultrapassar «comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –». A nossa sociedade individualista inscreve em nós uma auto-centração levando-nos a esquecer a nossa “circunstância”. Num movimento narcísico de contemplação de mim próprio/a esqueço o perigo de me deixar apaixonar pela minha imagem. Esqueço a real interdependência de todos os seres humanos. O “Outro” compele-me, responsabiliza-me, ajuda-me a descentrar de mim próprio. Partilhemos, «na alegria de um coração purificado». Sejamos solidários e partilhemos o que temos. Dar esmola para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos.


3. Direitos/responsabilidades

Este eu “autocentrado” esquece que não há direitos sem responsabilidades. Celebramos muito justificadamente a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Reafirmamo-la, mas ainda estamos longe de a cumprir em cada ser humano. Cedemos “à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela” - afirma o Papa. Esquecemos que não há direitos sem responsabilidades. E a responsabilidade implica a atenção desvelada ao outro, a solidariedade, o movimento de apagamento da minha necessidade imediata para que o outro possa também usufruir da vida tal como eu usufruo.


4. Frugalidade/consumismo

A mensagem do Papa convida-nos a que reaprendamos o sentido do jejum. Jejuar, segundo o Papa é «aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de “devorar” tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração».

Somos bombardeados pela publicidade. No Natal passado gastámos como há muito tempo não gastávamos. Pensamos que a felicidade está no consumo e consumimos desenfreadamente em busca de sentido, caminhando de desilusão em desilusão. Centramo-nos na satisfação imediata. Francisco fala «de uma intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados». Como passar para o outro lado? Para o lado de uma partilha responsável, de uma atenta solidariedade, na consciência de que os bens são limitados e devem ser distribuídos por todos. Como levar uma vida mais frugal naquilo que comemos, que vestimos, no lazer, nas coisas que temos? Como sermos frugais na competição desenfreada que nos consome? Como “emagrecer”? Como ultrapassar esta lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais? Como ensinamos a frugalidade aos nossos filhos? Como dar lugar ao Ser em vez do Ter?

Minimalismo aparece como uma nova palavra, principalmente entre pessoas que já se cansaram do consumismo desenfreado e agora prestam um pouco mais de atenção a coisas que o dinheiro não pode comprar, como a satisfação com a vida e a felicidade. Nesta Quaresma prestemos atenção a esta palavra e pensemos como podemos ser “minimalistas”.


5. Fechamento/Hospitalidade

Assistimos a um fechamento de fronteiras, a Europa isola-se nas suas muralhas intransponíveis. Constatamos, impotentes, o reacendimento de movimentos nacionalistas. Face a estes movimentos, os cristãos são convidados à hospitalidade. S. Paulo, na carta aos Hebreus lembra: «Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos». Hospitalidade implica receber o outro como igual: no acolhimento do outro eu aprendo a reconhecer-me a mim próprio/a. A hospitalidade é incondicional e implica uma disposição interior aberta e irrestrita. Criemos cadeias de solidariedade includentes, abertas aos migrantes, aos refugiados que buscam uma vida melhor e mais segura. No acolhimento do outro eu aprendo a reconhecer-me a mim próprio/a. Deixemos que uma hospitalidade global prevaleça no nosso quotidiano.


6. Política/Serviço ao bem público

Política tem a sua etimologia na palavra polis, que significa cidade. Torna-se necessário aprendermos a viver na polis, na comunidade. A política quer dizer servir o bem público, o bem de todos. Constatamos como a corrupção – na política como em outros setores – mina qualquer sociedade democrática. Participemos na política, mas de um modo diferente, porque, enquanto cristãos, queremos ser responsáveis pelo bem comum, pela partilha de bens e recursos, pela salvaguarda do interesse colectivo. Construamos alternativas de participação. Na «alegria de um coração purificado» trabalhemos para uma política limpa, transparente, cristalina como um espelho.


7. Rezar!

Entrar no deserto. Saborear o silêncio. Parar para contemplar. Respirar simplesmente. Deixarmo-nos invadir pelo belo, pelo bom, pelo justo. Permanecer em atenta escuta, olhando o horizonte mais amplo das nossas vidas. Balbuciar o nome de Deus, do inominável. O Papa convida-nos a «restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, da conversão e do perdão». Que sentido tem o perdoar em tempo de Quaresma? Que entendemos por reconciliação? Rezemos uns pelos outros. Rezemos pelo Papa. Rezemos pela Igreja. E, sim, ajoelhemos face ao Mistério.

No entanto sejamos alegres. Que ninguém saiba que jejuamos, que nos privamos em favor dos outros. Que a nossa alegria irradie.

«Voltemo-nos para a Páscoa de Jesus!» - interpela finalmente o Papa, «voltemo-nos para o horizonte da Ressurreição». Acreditemos no milagre da Ressurreição. Estendamos a mão ao milagre:

Não deixes o cansaço instalar-se.
Em vez disso silenciosamente
como a um pássaro
Estende a mão ao milagre
(Hilde Domin)

CNJP

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