a OBSERVATÓRIO DA PAX

domingo, 7 de abril de 2019

Líderes religiosos, praticantes da paz, aprofundam o compromisso da Igreja com a não-violência e a paz

Nos dias 4 e 5 de abril, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano e a Iniciativa Católica de Não-Violência da Pax Christi International organizaram um workshop sobre o tema “Caminho da não-violência: rumo a uma cultura de paz”.


Com uma consideração e compreensão das situações atuais de conflito e violência, os participantes dialogaram sobre as raízes da violência, a esperança de paz e de reconciliação e refletiram sobre os caminhos para uma conversão à não-violência. Observaram que a não-violência não é apenas um método, mas um estilo de vida, uma maneira de proteger e de cuidar das condições de vida para hoje e para o futuro. [+]

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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Pax Christi International lança "A Europa que queremos", um manifesto sobre as eleições de Maio do Parlamento Europeu

Manifesto Europeu: “A Europa que queremos”
3 de abril de 2019

Por ocasião da eleição dos membros do Parlamento Europeu (23-26 de maio de 2019), a Pax Christi International e vários dos seus membros nacionais publicam o seguinte manifesto que encoraja os candidatos e cidadãos a escolher um projeto europeu renovado baseado na solidariedade, na fraternidade e na paz.

I. A Europa em que acreditamos

1. A “Europa” é um projeto de paz único que existe há mais de 70 anos. Quando começou após a Segunda Guerra Mundial, o “projeto europeu” foi construído sobre dois pilares paralelos: um era o controlo conjunto dos recursos de guerra, nomeadamente através da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951); a outra era a promoção e proteção dos direitos humanos como um meio significativo para prevenir a guerra entre nações europeias, através da criação do Conselho da Europa (1949). Em seguida, foram estabelecidas a Convenção Europeia dos Direitos do Homem (1950) e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (1959).

2. Desde então, foram desenvolvidas metodologias para a cooperação europeia, trazendo paz e prosperidade de modo inigualável a todo o nosso continente. A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço de 6 expandiu-se para uma União Europeia de 28 e os países que estão vinculados pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos são hoje 47. Todos os europeus partilham os mesmos direitos e liberdades fundamentais, a paz foi amplamente mantida em todo o continente, e declarar a guerra contra outro Estado europeu é agora simplesmente impensável. Além disso, contribuições cruciais foram feitas para a resolução de conflitos e a construção da paz noutros continentes.

3. Mas estas conquistas não acontecem sem falhas: a prosperidade não é partilhada de modo igual, os direitos humanos ainda são violados e a solidariedade é desafiada. Durante os 70 anos de paz, os conflitos armados reapareceram no continente europeu e a corrida armamentista que tinha sido revertida após o colapso da União Soviética recomeçou, com vários países europeus a desempenhar um grande papel nela como produtores e comerciantes de armas sofisticadas. As exportações de armas dos Estados-Membros da UE representam cerca de um quarto do total das exportações mundiais, causando devastação em todo o mundo.

4. O afluxo de imigrantes provocou apreensão e medo nas sociedades europeias. Sentimentos de insegurança minaram a confiança que as pessoas tinham na Europa como um projeto de paz e segurança. Alguns cidadãos prefeririam que a Europa erguesse muros como forma de bloquear esse afluxo; associam os imigrantes ao terror e ao possível desaparecimento da sua identidade, cultura e valores tradicionais. Políticos com programas nacionalistas e populistas rejeitam a ideia de diversidade e cooperação europeia, em vez de permanecerem abertos e tolerantes e de enfrentar os desafios europeus de forma conjunta, como é necessário.

5. Nós, as organizações da Pax Christi ligadas ao movimento de paz católico em toda a Europa, reiteramos a nossa fé no projeto europeu:

Sim, a “Europa” ainda é muito necessária para alcançar os objetivos de paz, prosperidade e sustentabilidade num mundo abalado por desigualdades, conflitos, mudanças climáticas catastróficas e desequilíbrios geopolíticos;

Sim, a “Europa” deve permanecer um farol de esperança e humanidade para todos os que foram despojados da sua dignidade e direito a condições de vida dignas, e

Sim, a “Europa” tem os recursos e a coragem para se adaptar a um mundo em mudança sem renegar os seus valores fundamentais, como o respeito pela dignidade humana, a democracia e os direitos humanos.

6. Por conseguinte, acreditamos que estes princípios fundamentais devem ser novamente colocados no âmago do projeto europeu e que as próximas eleições do Parlamento Europeu, a realizar em 23-26 de Maio de 2019 nos Estados-Membros da EU, constituem o momento certo para todos aqueles que acreditam numa Europa unida se mobilizarem para a apoiar.

7. Instamos os nossos membros e concidadãos europeus a terem uma visão crítica dos programas e manifestos dos partidos políticos europeus e candidatos individuais às eleições para o Parlamento Europeu, com vista a escolher aqueles que apoiam a Europa como um projeto de paz. A vossa voz será crucial, uma vez que as eleições para o Parlamento Europeu de 2019 serão disputadas sobre questões muito importantes da Europa e poderão constituir a eleição mais decisiva até agora sobre o futuro da Europa.

II. A Europa como um projeto de paz

8. A Europa tem a força, a experiência e os recursos para desempenhar um papel ativo, forte e construtivo nas questões mundiais. É um parceiro económico de confiança, possui uma moeda sólida e possui legislação social modelar e diplomatas hábeis que podem liderar a população através das mudanças necessárias para um mundo sustentável. O nosso movimento está convencido de que estas capacidades permitem alcançar as metas de bem-estar, prosperidade e segurança sem significativos esforços militares. Em vez de estar a gastar enormes quantias num recém-criado “Fundo Europeu de Defesa”, a UE deveria investir os seus recursos em:

i. Integrar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU em todas as políticas internas e externas e torná-los numa estratégia abrangente.

ii. Manter o aumento da temperatura da Terra abaixo de 1,5° C através de políticas de limitação corajosas e socialmente responsáveis dentro das fronteiras da Europa, bem como nos países pobres e em desenvolvimento que estão igualmente expostos às mudanças climáticas, em conformidade com o Acordo de Paris sobre o clima.

iii. Desenvolver uma cultura de paz e não-violência em áreas dominadas por conflitos promovendo o desenvolvimento económico, social e sustentável, iniciativas de justiça e construção da paz, e ações de formação e educação para a paz.

iv. Promover e garantir o desarmamento nuclear, incluindo a assinatura e ratificação, por parte dos Estados europeus, do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que foi adotado na ONU.

v. Garantir que os Estados adiram rigorosamente ao Tratado de Comércio de Armas. A UE precisa de reforçar ainda mais os critérios europeus para as exportações de armas, sendo necessária maior transparência e obrigação de apresentação de relatórios uniformes para os Estados, nomeadamente através da responsabilização pelas exportações impugnadas.

vi. Participar de forma ativa e construtiva nas negociações para um forte Tratado das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos que possa fazer justiça às vítimas de violações dos direitos humanos, incluindo através da criação de provedores de justiça europeus.

III. A Europa como um farol de justiça

9. No espírito da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), foram estabelecidos a Convenção Europeia dos Direitos do Homem (1950) e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (1959); eles devem ser salvaguardados a todo o custo. Inspiraram outros mecanismos a nível internacional e foram complementados na UE pela Carta dos Direitos Fundamentais (2000), pelas disposições em matéria de direitos humanos no Tratado de Lisboa (2009) e pela jurisprudência do Tribunal de Justiça Europeia (desde 1952). Nestes tempos, em que os direitos humanos e os seus defensores estão sob pressão, a UE deve fazer mais para os apoiar:

i. Confirmando inequivocamente a sua concordância com a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, retomando os procedimentos de adesão à mesma.

ii. Reforçando as capacidades da Agência dos Direitos Fundamentais da UE para aumentar a sensibilização para a Carta dos Direitos Fundamentais da UE e outros instrumentos em matéria de direitos humanos, e para monitorizar o seu cumprimento na Europa através de trabalho político e de investigação.

iii. Aperfeiçoando a proteção mundial dos defensores dos direitos humanos, em conformidade com a Declaração das Nações Unidas sobre os Defensores dos Direitos Humanos (1998), as Diretrizes da UE sobre os Defensores dos Direitos Humanos (2008) e a recomendação do Conselho da Europa sobre a necessidade de reforçar o espaço da sociedade civil (2018).

iv. Regulamentando as atividades de lobbying no seio das instituições da UE e nos Estados-Membros, em conformidade com a recomendação do Conselho da Europa em matéria de lobbying no contexto do processo público de decisão (2017).

v. Promovendo um sistema mais forte para lidar com a legislação restritiva sobre as ONG, tanto dentro como fora da Europa, e pronunciando-se contra tais práticas, com o fim de apoiar a sociedade civil.

IV. A Europa como terra de humanidade

10. Em 1950, a ambição da unidade europeia era garantir a paz através da prosperidade partilhada, dentro e fora das suas fronteiras. A migração intercontinental hoje é uma realidade que requer uma resposta coletiva europeia baseada na solidariedade, no respeito pelos direitos humanos e na justiça, e políticas efetivas de integração socioeconómica. Os Estados-Membros da UE devem reforçar a sua cooperação em matéria de migrações com o fim de:

i. Renegociar a regulamentação de Dublin com o objetivo de tornar os processos de pedidos de asilo mais justos e rápidos, com pleno respeito pelos direitos e pelo melhor interesse das crianças e com especial atenção para os menores não acompanhados.

ii. Implementar ativamente o Pacto Global das Nações Unidas para uma Migração Segura, Ordenada e Regular, que foi adotado em Marraquexe (Marrocos) em 10 de dezembro de 2018 como um quadro de referência importante para a cooperação internacional.

iii. Adotar legislação sobre "vistos humanitários", dada a necessidade de per-cursos legais e seguros para a Europa para os civis que fogem da guerra e das zonas de conflito.

iv. Resistir à criminalização de atos de solidariedade por parte da sociedade civil e desafiar medidas questionáveis para restringir o acesso à proteção social por parte de refugiados, requerentes de asilo e migrantes.

v. Adotar legislação e práticas que permitam aos refugiados, requerentes de asilo e migrantes estabelecerem-se, adaptarem-se e enriquecerem as próprias sociedades que lhes proporcionam abrigo, em conformidade com os valores e normas dos países de acolhimento, conforme estabelecido pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos e outros instrumentos de direitos humanos.

V. A Europa como continente com futuro

11. A Europa é um projeto para os seus cidadãos e para todos os que nela vi-vem. Deve oferecer oportunidades para suas crianças e jovens através de políticas educativas, vocacionais e laborais apropriadas, que incluam aprender a viver em paz, a respeitar o pluralismo e a fazer da diversidade uma vantagem numa sociedade multicultural. Isto inclui oportunidades de intercâmbio e de aprendizagem com crianças e jovens de outros continentes para aumentar a compreensão intercultural. A Europa deve continuar os seus investimentos nas presentes e futuras gerações mediante:

i. Gastar mais fundos em projetos de intercâmbio internacional, como o “Erasmus +”, para jovens europeus estudarem, formarem-se ou aprenderem no estrangeiro, em consonância com a proposta da Comissão Europeia para duplicar as dotações com o próximo orçamento da UE e, especialmente, na educação e formação para a paz e a não-violência.

ii. Adotar políticas e ações que promovam a educação para os direitos humanos e a democracia, compreensão mútua, tolerância e respeito pela diversidade, utilizando os resultados e lições aprendidas pelo Conselho da Europa.

iii. Investir em proteger e tornar acessível a todos, especialmente às jovens gerações, a sua herança cultural como meio de compreender a natureza múltipla das suas raízes históricas, culturais e espirituais.

VI. A Europa em que acreditamos e pela qual trabalhamos

12. “A Europa não se fará de um golpe, nem numa construção de conjunto: far-se-á por meio de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto.” Estas palavras de Robert Schuman ainda são verdadeiras quase 70 anos depois de terem sido pronunciadas (9 de maio de 1950). A Europa ainda está incompleta e permanecem muitos desafios, mas as suas conquistas são imensas. Seria tolice não as reconhecer. No entanto, não podemos aceitar que um projeto tão generoso – paz, solidariedade, participação – seja interrompido por causa do medo: medo do futuro desconhecido, medo da diversidade da humanidade que bate à nossa porta, medo de um desastre ecológico iminente.

13. Acreditamos que a Europa é a única resposta aos imensos desafios dentro das nossas fronteiras e fora delas. Mais do que nunca, o futuro da Europa está em jogo. Enquanto populistas e nacionalistas estão a fazer ouvir a sua voz no período que antecede as eleições para o Parlamento Europeu, vamos agir e convencer as pessoas a participarem nas eleições e apoiarem a Europa que queremos: uma Europa pacífica, fraterna e voltada para um futuro para todas as mulheres e todos os homens de boa vontade.


- O manifesto está disponível em PDF aqui.

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terça-feira, 5 de março de 2019

Comissão Nacional Justiça e Paz propõe reflexão para a Quaresma

FAZER A PÁSCOA
Reflexão Quaresmal de 2019 da Comissão Nacional Justiça e Paz

Com esta citação de S. Paulo aos Romanos o Papa Francisco inicia a sua Mensagem para a Quaresma de 2019. Fala na Quaresma como um «itinerário de preparação» para a Páscoa que, ano após ano, percorremos. O dicionário diz-nos, entre outras palavras, que “preparação” significa “obra prévia”. Há, portanto, que fazer alguma coisa para podermos entrar na Páscoa. As “cinzas” significam que somos pó e em pó nos havemos de tornar. São um chamamento à conversão. Francisco alerta-nos para a força negativa do pecado e para a possibilidade de perdão, insistindo que «a harmonia gerada pela redenção» está por alcançar. «Convertei-vos!» - afirma João Batista (cf Mt 3,2).

A Encíclica Laudato Sí continua a ser a força inspiradora para a mensagem do Papa. Respeitai e convertei a criação! Reparai a criação! Francisco convida-nos a não desperdiçar “este tempo favorável” da Quaresma. Ao desejar que tornemos este tempo favorável, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) elabora um conjunto de propostas que deixa à consideração dos cristãos e de todos os homens e mulheres de boa vontade.


1. Exploração/respeito pela criação

Etimologicamente, a palavra “respeito” corresponde à «ação de olhar para trás: consideração, atenção, acolhida, refúgio». Que fizemos da criação? O ser humano não é o senhor absoluto da criação, usando-a apenas em benefício próprio. Vivemos na permanente ameaça das alterações climáticas causadas pela sofreguidão dos homens e das mulheres. Quem paga são os mais pobres, os menos protegidos, os mais vulneráveis. Estamos a transformar o jardim do Éden num deserto.

Prevalece a lei do mais forte sobre o mais fraco. Citando o Apocalipse o Papa afirma que a própria criação pode também “fazer Páscoa”: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). Trabalhemos para a Páscoa da criação.


2. Balancear Individual/coletivo

Urge ultrapassar «comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –». A nossa sociedade individualista inscreve em nós uma auto-centração levando-nos a esquecer a nossa “circunstância”. Num movimento narcísico de contemplação de mim próprio/a esqueço o perigo de me deixar apaixonar pela minha imagem. Esqueço a real interdependência de todos os seres humanos. O “Outro” compele-me, responsabiliza-me, ajuda-me a descentrar de mim próprio. Partilhemos, «na alegria de um coração purificado». Sejamos solidários e partilhemos o que temos. Dar esmola para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos.


3. Direitos/responsabilidades

Este eu “autocentrado” esquece que não há direitos sem responsabilidades. Celebramos muito justificadamente a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Reafirmamo-la, mas ainda estamos longe de a cumprir em cada ser humano. Cedemos “à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela” - afirma o Papa. Esquecemos que não há direitos sem responsabilidades. E a responsabilidade implica a atenção desvelada ao outro, a solidariedade, o movimento de apagamento da minha necessidade imediata para que o outro possa também usufruir da vida tal como eu usufruo.


4. Frugalidade/consumismo

A mensagem do Papa convida-nos a que reaprendamos o sentido do jejum. Jejuar, segundo o Papa é «aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de “devorar” tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração».

Somos bombardeados pela publicidade. No Natal passado gastámos como há muito tempo não gastávamos. Pensamos que a felicidade está no consumo e consumimos desenfreadamente em busca de sentido, caminhando de desilusão em desilusão. Centramo-nos na satisfação imediata. Francisco fala «de uma intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados». Como passar para o outro lado? Para o lado de uma partilha responsável, de uma atenta solidariedade, na consciência de que os bens são limitados e devem ser distribuídos por todos. Como levar uma vida mais frugal naquilo que comemos, que vestimos, no lazer, nas coisas que temos? Como sermos frugais na competição desenfreada que nos consome? Como “emagrecer”? Como ultrapassar esta lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais? Como ensinamos a frugalidade aos nossos filhos? Como dar lugar ao Ser em vez do Ter?

Minimalismo aparece como uma nova palavra, principalmente entre pessoas que já se cansaram do consumismo desenfreado e agora prestam um pouco mais de atenção a coisas que o dinheiro não pode comprar, como a satisfação com a vida e a felicidade. Nesta Quaresma prestemos atenção a esta palavra e pensemos como podemos ser “minimalistas”.


5. Fechamento/Hospitalidade

Assistimos a um fechamento de fronteiras, a Europa isola-se nas suas muralhas intransponíveis. Constatamos, impotentes, o reacendimento de movimentos nacionalistas. Face a estes movimentos, os cristãos são convidados à hospitalidade. S. Paulo, na carta aos Hebreus lembra: «Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos». Hospitalidade implica receber o outro como igual: no acolhimento do outro eu aprendo a reconhecer-me a mim próprio/a. A hospitalidade é incondicional e implica uma disposição interior aberta e irrestrita. Criemos cadeias de solidariedade includentes, abertas aos migrantes, aos refugiados que buscam uma vida melhor e mais segura. No acolhimento do outro eu aprendo a reconhecer-me a mim próprio/a. Deixemos que uma hospitalidade global prevaleça no nosso quotidiano.


6. Política/Serviço ao bem público

Política tem a sua etimologia na palavra polis, que significa cidade. Torna-se necessário aprendermos a viver na polis, na comunidade. A política quer dizer servir o bem público, o bem de todos. Constatamos como a corrupção – na política como em outros setores – mina qualquer sociedade democrática. Participemos na política, mas de um modo diferente, porque, enquanto cristãos, queremos ser responsáveis pelo bem comum, pela partilha de bens e recursos, pela salvaguarda do interesse colectivo. Construamos alternativas de participação. Na «alegria de um coração purificado» trabalhemos para uma política limpa, transparente, cristalina como um espelho.


7. Rezar!

Entrar no deserto. Saborear o silêncio. Parar para contemplar. Respirar simplesmente. Deixarmo-nos invadir pelo belo, pelo bom, pelo justo. Permanecer em atenta escuta, olhando o horizonte mais amplo das nossas vidas. Balbuciar o nome de Deus, do inominável. O Papa convida-nos a «restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, da conversão e do perdão». Que sentido tem o perdoar em tempo de Quaresma? Que entendemos por reconciliação? Rezemos uns pelos outros. Rezemos pelo Papa. Rezemos pela Igreja. E, sim, ajoelhemos face ao Mistério.

No entanto sejamos alegres. Que ninguém saiba que jejuamos, que nos privamos em favor dos outros. Que a nossa alegria irradie.

«Voltemo-nos para a Páscoa de Jesus!» - interpela finalmente o Papa, «voltemo-nos para o horizonte da Ressurreição». Acreditemos no milagre da Ressurreição. Estendamos a mão ao milagre:

Não deixes o cansaço instalar-se.
Em vez disso silenciosamente
como a um pássaro
Estende a mão ao milagre
(Hilde Domin)

CNJP

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segunda-feira, 4 de março de 2019

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2019

«A criação encontra-se em expetativa ansiosa,
aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19)


Queridos irmãos e irmãs!

Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De facto, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspetiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.


1. A redenção da criação

A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.


2. A força destruidora do pecado

Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.


3. A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

Esta «impaciência», esta expetativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente connosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de outubro de 2018.

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

E a nossa hospitalidade para com a Casa Comum?

Por Catarina Sá Couto

Hospitalidade, saber ser acolhido e acolher, foi o tema reflectido nas orações da noite e nas reflexões dos jovens em pequenos grupos, ao longo do encontro europeu anual da “Peregrinação da Confiança” em Madrid; essa foi a proposta da comunidade de Taizé para o tema a ser desenvolvido nos encontros durante o ano de 2019.

Num encontro europeu de Taizé este tema, por força das circunstâncias, toca especialmente todos os participantes atendendo ao facto de estarmos fora das nossas cidades: dão-nos de comer e um sítio para dormir, integrados em paróquias ou famílias de acolhimento que nos recebem. A hospitalidade não foi para nós só uma ideia ou um conceito abstracto; foi, sim, a realidade do dia-a-dia.

Além do importante tema dos migrantes e refugiados que chegam às nossas fronteiras, há outro tipo de hospitalidade que, como seguidores de Jesus, devemos ter em conta:

A hospitalidade na nossa Casa Comum, o planeta.

A maior convergência entre todas as religiões é a fé no Deus Criador. Em Genésis 1, lemos que Deus criou a luz, o céu, a Terra, os astros, as aves, os seres vivos que andam na água e na terra, animais domésticos e selvagens. Depois de cada criação, há uma conclusão: "Deus viu que era bom". O ser humano foi a última criação de Deus, acolhido, assim, por tudo quanto já existia.

Nos dias que correm, subsistem, então, as seguintes perguntas:

Estaremos a saber ser acolhidos na nossa casa comum?

Mostramos gratidão por tudo o que Deus gratuitamente nos ofereceu e continua a oferecer-nos?

Estaremos a ser fiéis a Deus se descuidamos algo que "Deus viu que era bom" [+]

7 Margens – jornal digital de religiões, espiritualidades e culturas

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2019

«A BOA POLÍTICA
ESTÁ AO SERVIÇO DA PAZ»



1. «A paz esteja nesta casa!»

Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lc 10, 5-6).

Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.[1] A «casa», de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa «casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.

Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»

2. O desafio da boa política

A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy;[2] é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.

«Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade».[3]

Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.

3. Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz

O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana».[4] Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.

A propósito, vale a pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:

Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.

Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.

Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.

Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.

Bem-aventurado o político que realiza a unidade.

Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.

Bem-aventurado o político que sabe escutar.

Bem-aventurado o político que não tem medo.[5]

Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.

4. Os vícios da política

A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.

5. A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro

Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. «Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo».[6]

Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família humana.

6. Não à guerra nem à estratégia do medo

Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.

O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.

7. Um grande projeto de paz

Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».[7]

Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:

- a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;

- a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;

- a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.

A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: A «misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (...), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre» (Lc 1, 50-55).

Vaticano, 8 de dezembro de 2018.

Franciscus


[1] Cf. Lc 2, 14: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado».

[2] Cf. Le Porche du mystère de la deuxième vertu (Paris 1986).

[3] Carta ap. Octogesima adveniens (14/V/1971), 46.

[4] Carta enc. Caritas in veritate (29/V/2009), 7.

[5] Cf. «Discurso na Exposição-Encontro “Civitas” de Pádua»: Revista 30giorni (2002-nº 5).

[6] Bento XVI, Discurso às Autoridades do Benim (Cotonou, 19/XI/2011).

[7] Carta enc. Pacem in terris (11/IV/1963), 24 (44).


Vatican.va

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sábado, 22 de dezembro de 2018

ADVENTO 2018: 4ª SEMANA DO ADVENTO

1. Ambientação

D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES (10 de maio de 1906 – 13 de abril de 1989), bispo da diocese do Porto desde 1952, viu-se forçado ao exílio durante o Estado Novo, por ter criticado a situação político-social e religiosa do país.
Após o afastamento político de Salazar (ocorrido em 1968), e no seguimento da denominada primavera marcelista, regressou a Portugal em 18 de junho de 1969, dez anos após o começo do exílio, tendo retomado o governo da diocese portucalense até 1982.
D. António foi um paladino da liberdade e um educador da consciência e da convivência democrática e da sua faceta de cidadão ressalta a sua postura sempre serena mas frontal perante a realidade e os desafios que o cercavam.



2. Reflexão

Vivemos habitualmente num alibi tão fácil como falso, numa alienação tranquilizante de consciência: a Paz depende de todos os outros, dos exércitos ou dos governos, das Nações Unidas ou das nações nacionalistas desunidas, dos papas ou dos bispos, dos políticos ou dos economistas, dos mass media ou dos educadores, de todos enfim, menos da minha honesta e pacífica pessoa, sentada ao canto da minha lareira ou a cultivar o meu jardim…
Pois bem: a Paz – e também consequentemente a guerra – depende de ti. De ti, multiplicado evidentemente por milhões. Mas, cuidado, não vás já alienar-te nos milhões, alienar-te agora nos milhões de boas pessoas à tua imagem, como antes nos governos ou nos exércitos ou nos bispos!...
De ti, de cada indivíduo, multiplicado por milhões, sem dúvida. Mas, se não desmultiplicamos esses milhões, se não reduzimos essas massas humanas às unidades, ao indivíduo, à consciência humana, à responsabilidade pessoal, numa palavra, se não responsabilizamos o coletivo, para que falar aqui, para que falar em Igreja inerme, para que tratar de fé e de moral?!

A paz depende de ti. Homilia do Dia Mundial da Paz de 1 de Janeiro de 1974


3. Gesto de Paz

Acende-se a QUARTA VELA da Coroa do Advento.

Proposta para refletir durante a 4ª semana:.
Acho que a paz só depende dos outros, daqueles que ocupam cargos de poder ou de responsabilidade na sociedade? Ou estou disposto/a a fazer a minha parte para a construção da Paz? Como penso que o posso fazer?


4. Oração

1. Senhor, Deus de Paz e de Amor, que nos envias como mensageiros e testemunhas de justiça e de paz, dá-nos a força e a coragem para sermos cada dia artesãos de um mundo que seja uma casa justa e pacífica para toda a humanidade.

Todos: Senhor, ouve a nossa prece e realiza a tua promessa dando-nos uma paz sem fim.


5. Bênção

1. A paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guarde os nossos corações e os nossos pensamentos em Cristo Jesus.

Todos: Ámen.


In: Veio anunciar a boa nova da paz (Ef 2,17). Contributos para a celebração do Advento 2018. Esta brochura está disponível online aqui.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

70 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS: Como aprofundar os direitos que se querem universais?

Sem o “espírito de fraternidade”, corro o risco de defender (apenas) os meus direitos individuais, deixando desvanecer assim o seu caráter universal. (Andreas Lind)

Foi a 10 de dezembro de 1948 que a Assembleia Geral das Nações Unidas, num contexto marcado pelas feridas e pelo rescaldo de duas guerras à escala global, proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). 70 anos depois, cabe-nos a nós avaliar, aprofundar e tornar mais efetiva tal Declaração no mundo atual.

Por um lado, parece haver um consenso alargado quanto ao facto de muitas das ambições da DUDH ainda estarem por cumprir. Afinal, como se afirma no Preâmbulo da Declaração, trata-se de um “ideal comum” ao torno do qual devemos unir esforços de forma a que a dignidade de cada um seja respeitada o mais possível. No entanto, emergem, por outro lado, opiniões diametralmente opostas sobre possíveis alargamentos dos direitos universais. Há quem queira incluir, a título de exemplo, a identidade de género ou o aborto como um direito universal, quando outros consideram tais ‘direitos’ contrários à dignidade da pessoa humana (ao ter sobretudo em conta o 3º artigo da DUDH: “Todo o indivíduo tem direito à vida”).

Nesse sentido, parece-me importante aprofundar a questão de saber até que ponto os direitos humanos, solenemente proclamados, serão mesmo universais? Trata-se, por outras palavras, da questão de saber o que significa a universalidade de um direito.

A questão pode parecer redundante, até porque o artigo que inaugura a DUDH é explícito quanto ao significado de universal: “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade.” Contudo, para que se possa avaliar e aprofundar a DUDH, desde a sua origem, nos seus avanços e recuos, de forma a projetar o futuro, torna-se imperioso que se precise bem a resposta a esta questão. [+]

Ponto SJ

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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

THE MOTIVES FOR MEANINGFUL PEACE WORK

By Fr. Paul Lansu
Senior Policy Advisor, Pax Christi International

Catholic social teaching provides a critical framework from where to search values and norms and to contribute to justice, peace and care for the creation. The social ideas of the Church, which have developed over decades, offer an almost inexhaustible richness of points of reference for peace work. Especially concerning the four most prominent (international) areas of attention: peace/security, human rights, development and climate. Within the broader political framework, international law and especially international humanitarian law are applicable.

Human dignity

Catholic social teaching has the dignity of each individual as its point of departure. Each person is unique. Moreover, life in solidarity is people’s calling. Solidarity refers mostly to taking responsibility together for each person’s dignity, whatever his/her identity and so-called social status. Catholic social thought is universal in nature. Transnational problems will ask for transnational answers, especially in these times of globalisation.

Serving the common good

Living in solidarity entails striving for the common good, or the ‘bonum commune’, together. Society should develop in harmony with every person and his/her environment, and to everybody’s content. Solidarity calls for tangible acts. It is time for action. Every person deserves help, especially in situations of war or other need, such as people on the run.

As a human being, one inevitably lives in the company of others, both locally and globally. Society belongs to everyone and people thus live in a participatory manner. The social fabric in which people live has both local and international characteristics. That social fabric should be, or is, the medium for life in peace and harmony with other people and our surroundings.

Options for the poor and weakest

People are part of different social networks: family, upbringing, culture, religion, career, etc. The (shared) responsibility for social/public life lies with people themselves in the first place.

This kind of thinking requires making choices regularly. It requires prioritising the most weak and the poorest and simultaneously it requires redistribution of wealth. A social safety net should take up the delicate. It is not possible to live in freedom without there being some form of social protection.

Globalisation often results in inequality between countries and societies. It is necessary to eliminate large inequalities between people and between populations. We must develop the earth and her society in a responsible way as much as possible. The UN’s Sustainable Development Goals are a frame of reference for this as well. [+]

PEACE STORIES
A project of Pax Christi International, the global Catholic movement for peace

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sábado, 15 de dezembro de 2018

ADVENTO 2018: 3ª SEMANA DO ADVENTO

1. Ambientação

D. MANUEL DA SILVA MARTINS (20 de janeiro de 1927 – 24 de setembro de 2017) foi o primeiro bispo da diocese de Setúbal e o primeiro Presidente da Secção Portuguesa da Pax Christi.
Em Setúbal, para onde foi nomeado bispo em 26 de outubro de 1975, encontrando um clima social marcado pela instabilidade e por todo o tipo de carências, procurou comungar vivamente a vida daquele povo, como proclamou no momento da sua ordenação: «Nasci bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho de Cristo – isto é, a justiça, a paz, o amor».
Com uma presença muito ativa, exerceu a sua ação pastoral, até 24 de abril de 1998, numa vertente de serviço sobretudo aos mais carentes e marginalizados.



2. Reflexão

A Igreja desculpa-se quando é interpelada sobre as suas obrigações nesta sociedade. Diz que tem cumprido o seu dever, mas entende-o apenas como o “dar de comer a quem tem fome”. Tem-lhe faltado uma coisa que é muito importante, que é apontar as causas da fome e denunciá-las sem medo. Mas se calhar a Igreja está comprometida com muita coisa, com o Governo que dá dinheiro para o seminário, com o presidente da Câmara que dá dinheiro para uma obra... Está comprometida com o poder e tem-se esquecido um bocadinho da sua dimensão profética, que é a de denunciar com coragem e sem medo as causas e os causadores da situação que vivemos. O Papa Francisco disse que prefere uma Igreja mergulhada no mundo, do que uma Igreja bonequinha, muito bem tratadinha dentro de uma redoma.

Entrevista ao Expresso, por ocasião dos 40 anos do 25 de Abril (2014)


3. Gesto de Paz

Acende-se a TERCEIRA VELA da Coroa do Advento.

Proposta para refletir durante a 3ª semana:.
Como desempenho o meu papel na Igreja? A Igreja, a Comunidade é para mim um refúgio, o local onde me abrigo para esquecer os problemas do mundo? Ou, pelo contrário, é uma fonte de inspiração e de coragem para me ajudar a “mergulhar” no mundo?


4. Oração

1. Senhor, Deus de Paz e de Amor, que nos envias como mensageiros e testemunhas de justiça e de paz, dá-nos a força e a coragem para sermos cada dia artesãos de um mundo que seja uma casa justa e pacífica para toda a humanidade.

Todos: Senhor, ouve a nossa prece e realiza a tua promessa dando-nos uma paz sem fim.


5. Bênção

1. A paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guarde os nossos corações e os nossos pensamentos em Cristo Jesus.

Todos: Ámen.


In: Veio anunciar a boa nova da paz (Ef 2,17). Contributos para a celebração do Advento 2018. Esta brochura está disponível online aqui.

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Declaração da Pax Christi Internacional a propósito do 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Today marks the 70th anniversary of the Universal Declaration on Human Rights (UDHR), which was adopted by the UN General Assembly on 10 December 1948. A milestone document, it enumerated, for the first time, a universal core of human rights that, as agreed upon, guaranteed the fundamental rights of every individual. The declaration is an essential component to our present-day foundation of human rights protection. For 70 years, the UNDR has served as a roadmap for the advancement of human rights around the world.

The promotion and the protection of human rights, such as those recognised in the UDHR, are at the very heart of Pax Christi International’s work as a global peace and nonviolence movement. Through activities grounded in the belief of the power of nonviolence, our member organisations and partners educate people and communities about their human rights, promote services to ensure that their human rights will be met, and cooperate with - as well as pressure - decision-makers to respect and advance human rights through their actions. The UDHR has truly served as a catalyst for human rights advancement at the local, national, regional and international level benefiting many of the people and communities with whom we work.

Pax Christi International believes that this anniversary should serve not only as a moment to celebrate the achievements of the UDHR but also as a pivotal time to examine the current challenges for its implementation. We have become acutely aware from our partners and friends that human rights and those who seek to protect them are increasingly under attack. The tireless guardians of these universal rights are faced with a shrinking space in which to do their work. Yet despite these challenges, we remain hopeful because human rights defenders, environmental and disarmament activists remain steadfast in their nonviolent struggle for human rights. [+]

Pax Christi Internacional

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

IS MIGRATION THE “MOTHER OF ALL PROBLEMS”?

By Fr. Paul Lansu
Senior Policy Advisor, Pax Christi International

Europe is now home to people from all over the world. In most European countries, we see the increase of rejection of new foreign citizens in Western society. Anti-migration sentiments are growing. In the south and east negative attitudes prevailed. In Italy for instance, one in every two persons perceive migration as a problem. Several European countries have built fences and barriers at their borders playing on people’s fear of foreign threats and focusing on the dangers from immigration of terrorism. Recent elections in different EU states demonstrate that concerns surrounding migration and asylum continue to dominate the public space, shape national, and EU politics. Extremist (right wing) political parties are winning votes massively.

Migration remains the biggest challenge and is a debatable issue both in public opinion as well as in politics. Is this question the mother of all problems? Negative perceptions of “outsiders” have caused divisions not just between countries, but also within communities, political parties, the media, at street level, even within families. This topic will make a big difference in the next EU elections in May 2019.

Unhappiness characterizes modern man. Many people experience living in a chaotic world. Fear of innovation is the result of this. Determining or confronting other customs and cultures gives rise to resistance, even hatred and racism. Because the “stranger” is now also visible in the small cities and municipalities, the fear of migration is growing. It all became so unexpectedly and chaotic, loss of political control. Emotions are put to the test. Hosting in my neighbourhood refugees of different cultural and religious backgrounds is a sensitive issue. The fact that refugees/migrants want to go to places where they are among themselves is understandable but that does not help the integration. Ghettos should be prevented.

Some politicians use the rhetoric of keeping and “kicking migrants out.” That can result in criminalising these people. Even Prime Ministers or Presidents of EU member states use xenophobic rhetoric and hate speech against migrants and refugees. That behaviour is observable within authoritarian populist leaderships in Europe. The microphone of xenophobia is often the megaphone of a loud minority. [+]

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sábado, 8 de dezembro de 2018

ADVENTO 2018: 2ª SEMANA DO ADVENTO

1. Ambientação

MARIA DE LURDES PINTASILGO (18 de janeiro de 1930 – 10 de julho de 2004) foi a primeira mulher (a única até ao momento presente) a assumir o cargo de primeira-ministra em Portugal, tendo liderado o V Governo Constitucional, de 31 de julho de 1979 a 3 de janeiro de 1980.
Ainda muito jovem, pela sua participação no movimento católico português e internacional, alcançou grande notoriedade. Esse protagonismo, associado à sua sensibilização pelas questões sociais, conduziu-a ao envolvimento político tendo uma participação constante na política institucional em Portugal.
A justiça social, a intervenção das mulheres na sociedade e a dimensão internacional de todas as questões foram as suas causas.



2. Reflexão

A uma ética da justiça – em que se funda e a que se limita no seu melhor a democracia existente – há que justapor a ética do cuidado.
Enquanto a ética da justiça constrói todo o edifício político sobre o ser humano como sede de direitos, a ética do cuidado toma em linha de conta a posição eminentemente realista de que o ser humano também é um ser de vulnerabilidades que, em numerosas situações, o impedem de se erguer para defender os seus direitos. (…)
Uma ética do cuidado pode dar um novo ponto de partida ao papel do Estado em relação às verdadeiras prioridades políticas de sociedades em que a pessoa humana deve ser o centro e o fim último de toda decisão política (…).
Não bastará então acrescentar piedosamente à democracia política a democracia social, económica e cultural. Haverá, sim, que construir a democracia simultaneamente sobre a justiça e sobre o cuidado, sobre os direitos e sobre as responsabilidades.

Cuidar o futuro (2000)


3. Gesto de Paz

Acende-se a SEGUNDA VELA da Coroa do Advento.

Proposta para refletir durante a 2ª semana:
O que significa para mim a intervenção política e democrática? Considero a dimensão política uma forma de intervir na sociedade dando testemunho de uma ética de justiça e do cuidado? Ou, pelo contrário, acho que a intervenção política e democrática são perda de tempo e esforço inglório? Como estou disposto/a a lutar pelos direitos de todas e de todos com justiça e cuidado?


4. Oração

1. Senhor, Deus de Paz e de Amor, que nos envias como mensageiros e testemunhas de justiça e de paz, dá-nos a força e a coragem para sermos cada dia artesãos de um mundo que seja uma casa justa e pacífica para toda a humanidade.

Todos: Senhor, ouve a nossa prece e realiza a tua promessa dando-nos uma paz sem fim.


5. Bênção

1. A paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guarde os nossos corações e os nossos pensamentos em Cristo Jesus.

Todos: Ámen.


In: Veio anunciar a boa nova da paz (Ef 2,17). Contributos para a celebração do Advento 2018. Esta brochura está disponível online aqui.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Manual para fazer a paz: ​Missa do Papa Francisco em Santa Marta

Com o estilo humilde dos artesãos, «viver em paz com a nossa alma, em casa com a família, na escola, no trabalho, no bairro»: eis o compromisso prático para o Advento — um verdadeiro manual para construir a paz no dia a dia, com exame de consciência para todos, incluindo as crianças — sugerido por Francisco na missa celebrada a 4 de dezembro em Santa Marta.

Para esta reflexão sobre a paz, o Papa realçou que na primeira leitura, tirada de Isaías (11, 1-10), «há uma promessa dos tempos, quando o Senhor vier: o povo esperava a vinda do Salvador, do Libertador, do Senhor — explicou — e o profeta diz como será aquele tempo, quando Ele vier». E «afirma que tudo estará em paz, o Senhor fará a paz».

Em particular, observou Francisco, o profeta «descreve esta paz com imagens que parecem um pouco bucólicas, mas bonitas: haverá tanta paz que “o lobo estará com o cordeiro, a pantera deitar-se-á ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino guiá-los-á; a vaca e o urso fraternizar-se-ão, as suas crias deitar-se-ão juntas e o leão alimentar-se-á de palha, como o boi. A criança de peito brincará junto à toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na caverna da áspide. Não se fará mal nem dano em todo o meu santo monte”».

Diante deste texto, prosseguiu o Papa, questionamo-nos se isto «será possível». Na realidade, afirmou, Isaías «quer dizer que a paz do Senhor é capaz de transformar a vida e a história, e Jesus é chamado precisamente príncipe da paz porque vem trazer esta paz, oferecer-nos esta paz».

«O tempo de Advento é para nos preparamos em vista desta vinda do Príncipe da paz», insistiu o Pontífice. É, pois, «um tempo para nos pacificarmos: antes de tudo, com nós mesmos, pacificar a alma», porque «muitas vezes não estamos em paz; somos ansiosos, angustiados, sem esperança, e a pergunta que o Senhor nos dirige é: “Como está a tua alma hoje, está em paz?” — “Não sei” – “Mas olha, se não está em paz, começa a percorrer este caminho para a pacificar” — “Mas não posso”». Contudo «Ele pode», afirmou o Papa, convidando a pedir «a Ele que te pacifique: o Príncipe da paz pacifica a alma».

Eis que, observou Francisco, «o primeiro passo deste tempo de Advento consiste em pacificar a própria alma». Na realidade, «estamos habituados a olhar para a alma dos outros: “Mas olha o que ele, ela, faz”». Ao contrário, devemos olhar para a nossa alma e interrogar-nos: «Como estás? O que sente o teu coração? Está em paz? Estás zangado, zangada? És ansioso, ansiosa?». Assim, «pede ao Senhor a graça de pacificar a alma, preparando-te para o encontro com Ele».

«Outra realidade a pacificar é a casa», disse o Pontífice, sugerindo que nos perguntemos: «Como está a paz em casa?». É preciso sempre «pacificar a família: há muitas tristezas na família, muitas lutas, tantas pequenas guerras, às vezes uma grande desunião». Assim, «não há paz: um contra o outro, ou desafia o outro». Por isso, propôs Francisco, «cada um se interrogue: como está a minha família, em paz ou em guerra, unida ou desunida? Existem muitas pontes entre nós, ou muros que nos separam?». O objetivo é «pacificar a família».

É preciso também alargar os horizontes para «observar o mundo — convidou o Papa — e ver que há mais guerra que paz: há muitas guerras, desunião, ódio, exploração. Não há paz». Mas «que faço para construir a paz no mundo?». Poderíamos justificar-nos, dizendo que «o mundo está demasiado distante». Então, o Pontífice convidou a verificar «o que faço para construir a paz no bairro, na escola, no lugar de trabalho: encontro sempre um pretexto para entrar em guerra, para odiar, para falar mal dos outros? Isto significa fazer guerra! Sou manso? Procuro construir pontes? Não condeno?». É uma questão que se refere também às crianças, às quais é preciso perguntar: «na escola, quando há um companheiro, uma companheira da qual não gostas, é um pouco odioso ou fraco, fazes bullying ou fazes a paz, procuras fazer a paz? Perdoas tudo?». O estilo deve ser o dos «artesãos de paz» e «é preciso este tempo de Advento, de preparação para a vinda do Senhor, que é o Príncipe da paz».

«E a paz — explicou Francisco — vai sempre em frente, nunca se detém, chega a um ponto e dá mais um passo de paz, outro passo de paz: é fecunda». Mais ainda, «a paz parte da alma e volta para a alma, depois de ter percorrido este caminho de pacificação». Por isso, «fazer a paz é um pouco imitar Deus, quando quis fazer a paz connosco e nos perdoou, enviando-nos o seu Filho para fazer a paz, para ser o Príncipe da paz».

Todos estão chamados a ser artífices de paz. Talvez, sugeriu o Papa, «alguém possa dizer: “padre, não estudei como se faz a paz, não sou uma pessoa culta, não sei, sou jovem, não sei”». Mas é o próprio Jesus, no trecho evangélico de Lucas, proposto pela liturgia (10, 21-24), quem nos diz «qual deve ser a atitude: “Pai, Senhor do céu e da terra, dou-te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos”». Talvez, reiterou o Papa, «não tenhas estudado, não sejas sábio», mas «faz-te pequenino, humilde, servo dos outros: faz-te pequenino e o Senhor dar-te-á a capacidade de entender como se faz a paz e a força para a concretizar».

«Viver em paz com a nossa alma, em casa com a família, na escola, no trabalho, no bairro, viver em paz, tal será a oração deste tempo de Advento», sugeriu Francisco. Trata-se de «pacificar, fazer a paz com humildade». E «cada vez que vemos que há a possibilidade de uma pequena guerra, quer em casa, quer no meu coração, na escola, no trabalho, paremos e procuremos fazer a paz». Sobretudo «nunca firamos o outro, nunca». E o primeiro passo «para não ferir o próximo» é precisamente «não falar mal dos outros, não disparar o primeiro tiro de canhão». Convicto de que, «se todos nós fizéssemos só isto — não falar mal do próximo — a paz progrediria».

«Que o Senhor nos prepare para o Natal do Príncipe da paz», concluiu o Papa. Mas, acrescentou, «que nos prepare, levando-nos a fazer tudo o que nos compete para pacificar: pacificar o meu coração, a minha alma, a minha família, a escola, o bairro, o lugar de trabalho». E para sermos assim, verdadeiramente «homens e mulheres de paz!».

L'Osservatore Romano

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A guerra, origem e essência antropológica e ética

Habitualmente, define-se a guerra como algo não apenas de não-político, mas, na transcendentalidade do político, como algo que diz respeito a grandes massas humanas: povos, nações, estados, países.

Aparentemente, salvo o especial relevo de certos heróis combatentes, como, por exemplo, um Alexandre Magno ou um Nuno Álvares Pereira, a guerra ignora o indivíduo humano, a pessoa singular, cuja ação própria como que se perde no seio de uma ação conjunta de grandes números de seres humanos.

Estas características supostamente evidentes não são algo de moderno, como certas reflexões sobre as grandes guerras do século vinte podem fazer parecer, mas encontram-se presentes nos relatos historiográficos que até nós chegaram. O caráter humano maciço em termos de números envolvidos, bem como o caráter institucional das guerras é verificável já em textos tão antigos quanto os relativos à cultura egípcia, por exemplo, nas suas relações com povos vizinhos; o mesmo se diga da própria Bíblia.

É esta a ideia comum que se tem da guerra.

Ora, nada mais errado quanto ao que constitui a essência da guerra, que, se bem que possa envolver grandes massas de seres humanos, não tem necessariamente de o fazer. E não tem de o fazer porque a sua causa não diz respeito às grandes massas humanas, mas ao modo como cada ser humano, cada pessoa, age na relação com o outro ser humano, com a outra pessoa, com as outras pessoas. [+]

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A wall without a future: Israelis and Palestinians live in two different worlds

By Fr. Paul Lansu
Senior Policy Advisor, Pax Christi International

The border wall between Israel and the West Bank is among the most forbidding and hostile in the world. Viewed from up close, whichever side you find yourself on, it rears up from the ground, overwhelming and dominating you. It is dispiriting, intimidating, oppressive, and otherworldly. On each side of the wall lives a different people. It is a monument to one of the world’s most intractable disputes.

I have been following the Israeli – Palestinian conflict since 1981. The conflict became increasingly complicated and, above all, unworthy. However, I could never believe that from 2002 on (during the Second Intifada) a wall would be built by Israel between the two communities. Since then I have been able to follow the construction of the wall, which has recently been completed and built on Palestinian territory. The divisions between Israel and Palestine are well established. You have to cross checkpoints in order to get in the other community, if you are allowed to do so. I regret that some visitors of the Holy Land look at the wall as “conflict tourists.” [+]


PEACE STORIES. A project of Pax Christi International, the global Catholic movement for peace

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sábado, 1 de dezembro de 2018

ADVENTO 2018: 1ª SEMANA DO ADVENTO

1. Ambientação

ARISTIDES DE SOUSA MENDES (19 de julho de 1885 – 3 de abril de 1954) foi um diplomata português, que desempenhava funções de cônsul de Bordéus em França no início da Segunda Guerra Mundial.
De 16 a 23 de junho de 1940, guiando-se pelos imperativos da sua consciência, trabalhou incessantemente na emissão de vistos a refugiados, na sua maioria judeus, que fugiam duma França ocupada pelos alemães, desobedecendo à ordem do Governo português que proibia a emissão de vistos ou documentos que permitissem atravessar território nacional.
Pela sua ação humanitária em Bordéus, devido à qual morreu na miséria, em 1966 o Yad Vashem, Memorial do Holocausto em Jerusalém, prestou-lhe homenagem atribuindo-lhe o título de “Justo entre as Nações”, título oficial dado a não-judeus que tenham arriscado a vida para salvar judeus durante a Segunda Guerra Mundial.



2. Reflexão

Realmente desobedeci, mas a minha desobediência não me desonra. Não cumpri instruções que significavam, a meu ver, perseguição a verdadeiros náufragos que procuravam a todo o custo salvar-se da sanha hitleriana. Acima dessas instruções, estava para mim a lei de Deus e foi essa que eu procurei cumprir, sem hesitações, nem cobardias de poltrão. O verdadeiro valor da religião cristã está no amor do próximo e eu, sendo cristão, não podia fugir do seu império.

Carta a Adelino da Palma Carlos. 17 de julho 1941


3. Gesto de Paz

Acende-se a PRIMEIRA VELA da Coroa do Advento.

Proposta para refletir durante a 1ª semana:
Quando tenho de tomar uma decisão importante na minha vida qual o primeiro critério que me guia: A opinião dos que me rodeiam? As convenções sociais? Ou procuro seguir a Lei de Deus e os valores cristãos?


4. Oração

1. Senhor, Deus de Paz e de Amor, que nos envias como mensageiros e testemunhas de justiça e de paz, dá-nos a força e a coragem para sermos cada dia artesãos de um mundo que seja uma casa justa e pacífica para toda a humanidade.

Todos: Senhor, ouve a nossa prece e realiza a tua promessa dando-nos uma paz sem fim.


5. Bênção

1. A paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guarde os nossos corações e os nossos pensamentos em Cristo Jesus.

Todos: Ámen.


In: Veio anunciar a boa nova da paz (Ef 2,17). Contributos para a celebração do Advento 2018. Esta brochura está disponível online aqui.

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terça-feira, 27 de novembro de 2018

ADVENTO 2018: Veio anunciar a boa nova da paz (Ef 2,17). Contributos para a celebração do Advento 2018

A nossa geração vai ter de se arrepender não apenas das odiosas palavras e ações dos maus, mas também do confrangedor silêncio dos bons. (MARTIN LUTHER KING, JR., Carta da prisão de Birmingham, 16 de abril de 1963)


A 11 de novembro assinalou-se o centenário do fim da I Guerra Mundial (1914-1918), uma guerra que resultou em vários milhões de mortos e feridos. A propósito desta efeméride o Papa Francisco afirmou: «A página histórica do primeiro conflito mundial é, para todos, uma severa advertência para refutar a cultura da guerra e procurar todos os meios legítimos para pôr fim aos conflitos que ainda ensanguentam várias regiões do mundo. Parece que não aprendemos». E, depois de pedir orações pelos milhões de vítimas «daquela imensa tragédia», lançou um repto: «apostemos na paz, não na guerra!».

Este nosso mundo, contudo, parece não ter aprendido a lição: apesar de já ter passado por duas Grandes Guerras, que fizeram milhões de vítimas, continua a apostar na guerra como meio legítimo para pôr fim aos conflitos.

Apostar na paz é o caminho! Contudo, como afirmou o Papa Francisco em Amã (Jordânia, 24.05.2014), «a paz não se pode comprar, não está à venda. A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir “artesanalmente” através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária». O nosso mundo tem necessidade, por isso, de quem lhe leve e testemunhe a paz. Este nosso tempo, continuamente ameaçado pela violência multifacetada, precisa de quem lhe indique o caminho para construir a paz; «precisa de obreiros de paz e de pessoas livres e libertadoras, pessoas corajosas que saibam aprender do passado para construir o futuro sem se fechar nos preconceitos; precisa de construtores de pontes de paz, de diálogo, de fraternidade, de justiça e de humanidade».

A exemplo de Jesus Cristo, que cheio do Espírito do Pai, «veio anunciar a boa nova da paz» (Efésios 2,17), também nós, seus discípulos, ungidos pelo mesmo Espírito, que «ungiu interiormente Jesus, e unge os discípulos para que tenham os mesmos sentimentos de Jesus e possam, assim, assumir na sua vida atitudes que favoreçam a paz e a comunhão (…), somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz» a este mundo que tanta necessidade tem «de nós como mensageiros de paz, como testemunhas de paz!».

É neste espírito que propomos este itinerário, pautado por textos selecionados de testemunhas de paz contemporâneas portuguesas, para celebrar e viver o Advento de 2018, seja na paróquia, em família ou em grupo, tendo como ideia central a temática da Paz.

Neste tempo litúrgico em que, em piedosa e alegre expectativa, alimentada pela oração e pelo compromisso efetivo do amor feito serviço, nos preparamos para acolher o Deus que, na fragilidade de um Menino, vem ao nosso encontro como «a paz» (cf. Efésios 2,14; Isaías 9,6), deixemo-nos interpelar pelas testemunhas de paz que nos instigam «a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora», a deixar de ser espetadores e passar a ser protagonistas da História. Levemos a paz ao mundo. Testemunhemos a paz que tem a sua fonte em Deus, a paz que nos trouxe o Senhor Jesus!

Novembro de 2018

Veio anunciar a boa nova da paz (Ef 2,17). Contributos para a celebração do Advento 2018 está disponível para impressão aqui.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Intenção do Papa Francisco para o mês de Novembro: Ao serviço da paz



Rezemos juntos para que a linguagem do coração e do diálogo prevaleça sempre sobre a linguagem das armas

Papa Francisco – Novembro 2018

Vídeo do Papa

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terça-feira, 6 de novembro de 2018

«A boa política está ao serviço da paz»: Tema da mensagem para o 52º Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2019)

A boa política está ao serviço da paz: Este é o tema da Mensagem para o 52º Dia mundial da paz, que se celebra a 1 de janeiro de 2019.

A responsabilidade política pertence a cada cidadão, e em particular àqueles que receberam o mandato de proteger e governar. Esta missão consiste em salvaguardar o direito e fomentar o diálogo entre os atores da sociedade, entre as gerações e entre as culturas. Não há paz sem confiança recíproca. E a confiança tem como primeira condição o respeito pela palavra dada. O compromisso político – que é uma das mais altas expressões da caridade – comporta a preocupação pelo futuro da vida e do planeta, dos mais jovens e dos mais pequenos, na sua sede de realização.

Quando o homem é respeitado nos seus direitos – como recordava São João XXIII na Encíclica Pacem in Terris (1963) – brota nele o sentido do dever de respeitar os direitos dos outros. Os direitos e os deveres do homem ampliam a consciência de pertencer a uma mesma comunidade, com os outros e com Deus (cf. ibid., 45). Estamos, portanto, chamados a levar e a anunciar a paz como a boa notícia de um futuro no qual cada ser vivo será considerado na sua dignidade e nos seus direitos.

Vatican.va

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sábado, 1 de setembro de 2018

Mensagem do Papa Francisco para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (1 de setembro de 2018)

Caros irmãos e irmãs!

Neste Dia de Oração desejo, em primeiro lugar, agradecer ao Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão comprometidos em protegê-la. Agradeço também pelos numerosos projetos que visam promover o estudo e a proteção dos ecossistemas, pelos esforços destinados a desenvolver uma agricultura mais sustentável e uma alimentação mais responsável, pelas diversas iniciativas educacionais, espirituais e litúrgicas que envolvem muitos cristãos em todo o mundo no cuidado da criação.

Devemos reconhecê-lo: não soubemos proteger a criação com responsabilidade. A situação ambiental, quer a nível global, quer em muitos lugares específicos, não pode ser considerada satisfatória. Com razão, surgiu a necessidade de uma relação renovada e saudável entre a humanidade e a criação, a convicção de que apenas uma visão do homem autêntica e integral nos permitirá cuidar melhor do nosso planeta para o benefício das gerações presentes e futuras, pois «não há ecologia sem uma adequada antropologia» (Carta Enc. Laudato si’, 118).

Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação, que a Igreja Católica há alguns anos celebra em união com os irmãos e irmãs ortodoxos, e com o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs, gostaria de chamar a atenção para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso infelizmente é difícil para muitos, se não impossível. No entanto, «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável» (ibid., 30).

A água nos convida a refletir sobre as nossas origens. A maior parte do corpo é composta de água; e muitas civilizações, na história, surgiram nas proximidades de grandes cursos de água que marcaram sua identidade. É sugestiva a imagem utilizada no início do Génesis, em que se diz que nas origens o espírito do Criador «pairava sobre as águas» (1,2).

Pensando em seu papel fundamental na criação e no desenvolvimento humano, sinto a necessidade de dar graças a Deus pela «irmã água», simples e útil sem nada de parecido para a vida no planeta. Precisamente por esse motivo, cuidar de fontes e bacias hídricas é um imperativo urgente. Hoje, mais do que nunca, é necessário um olhar que ultrapasse o imediato (cf. Carta Enc. Laudato si’, 36), além de «critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual» (ibid., 159). Precisa-se urgentemente de projetos conjuntos e de ações concretas, tendo em conta que é inaceitável qualquer privatização do bem natural da água que seja contrária ao direito humano de poder ter acesso a ela.

Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e de vida. O pensamento vai imediatamente para o Batismo, sacramento do nosso renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. O Batismo representa também, para os cristãos de diferentes confissões, o ponto de partida real e indispensável para viver uma fraternidade cada vez mais autêntica no caminho da plena unidade. Jesus, durante a sua missão, prometeu uma água capaz de saciar para sempre a sede do homem (cf. Jo 4,14), e profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Ir a Jesus, beber d’Ele significa encontrá-Lo pessoalmente como Senhor, haurindo da sua Palavra o sentido da vida. Que possam ressoar em nós com força as palavras que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo 19, 28). O Senhor continua a pedir para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele nos pede para dar-Lhe de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede e me destes de beber» (Mt 25,35). Dar de beber, na aldeia global, não envolve apenas gestos pessoais de caridade, mas escolhas concretas e compromisso constante de garantir a todos o bem primário da água.

Gostaria também de tocar na questão dos mares e dos oceanos. Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto a terra com os oceanos (cf. Sl 104,6). Orientar os nossos pensamentos para as imensas extensões marinhas, em constante movimento, representa também, em certo sentido, uma oportunidade para pensar em Deus, que acompanha constantemente a sua criação, fazendo com que siga adiante, mantendo-a na existência (cf. S. João Paulo II, Catequese, 7 de Maio de 1986).

Proteger esse bem inestimável todos os dias representa hoje uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador. Infelizmente, muitos esforços desaparecem devido à falta de regulamentação e de controles efetivos, especialmente no que diz respeito à proteção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais (cf. Carta Enc. Laudato si’, 174). Não podemos permitir que os mares e oceanos se preencham com extensões inertes de plástico flutuante. Também para essa emergência somos chamados a nos comprometer, com uma mentalidade ativa, rezando como se tudo dependesse da Providência divina e agindo como se tudo dependesse de nós.

Rezemos para que as águas não sejam um sinal de separação entre os povos, mas de encontro para a comunidade humana. Rezemos para que sejam protegidas aquelas pessoas que arriscam suas vidas em meio às ondas em busca de um futuro melhor. Peçamos ao Senhor e àqueles que realizam o alto serviço da política que as questões mais delicadas da nossa época, tais como as relacionadas com a migração, com a mudança climática, com o direito para todos de usufruírem dos bens primários, sejam encaradas com responsabilidade, com previsão olhando para o amanhã, com generosidade e com espírito de cooperação, especialmente entre os países que têm maior disponibilidade. Rezemos por aqueles que se dedicam ao apostolado do mar, por aqueles que ajudam a refletir sobre os problemas com que se debatem os ecossistemas marítimos, por aqueles que contribuem para o desenvolvimento e a aplicação de regulamentos internacionais sobre os mares que possam tutelar as pessoas, os Países, os bens, os recursos naturais – penso, por exemplo, na fauna e na flora marinha, bem como nos recifes de coral (cf. ibid., 41) ou nos fundos marinhos – e garantindo um desenvolvimento integral na perspectiva do bem comum de toda a família humana e não de interesses particulares. Lembremos também de quantas pessoas trabalham para a proteção das áreas marítimas, para a tutela dos oceanos e sua biodiversidade, para que possam realizar essa tarefa com responsabilidade e honestidade.

Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas, para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. O meu desejo é que as comunidades cristãs contribuam cada vez mais concretamente para que todos possam usufruir desse recurso indispensável, no cuidado respeitoso dos dons recebidos do Criador, em particular dos cursos de água, mares e oceanos.

Vaticano, 1 de Setembro de 2018

Francisco

Vatican.va

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