a OBSERVATÓRIO DA PAX

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Dia Mundial da Paz 2023

Dia Mundial da Paz de 2023
"Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da Covid-19 para traçar sendas de paz”


Na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, o Papa faz um convite a refletir sobre as lições deixadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia e indica o caminho para a paz: "É juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos."

"É hora de pararmos um pouco para nos interrogar, aprender, crescer e deixar transformar": este é o convite do Papa Francisco contido na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, celebrado no 1º de janeiro.

O tema escolhido pelo Pontífice é "Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da Covid-19 para traçar sendas de paz".

O segredo, aponta o Papa, está na palavra "juntos".

“De facto, as respostas mais eficazes à pandemia foram aquelas que viram grupos sociais, instituições públicas e privadas, organizações internacionais, unidos para responder ao desafio, deixando de lado interesses particulares."

Mas quando o mundo ainda se recuperava do trauma, eis que outro facto colocou a humanidade à dura prova: a guerra na Ucrânia. Francisco fala de "desgraça", "flagelo" que, diferentemente do Covid, foi pilotado por "opções humanas culpáveis". A guerra ceifa vítimas inocentes e as suas consequências vão além-fronteiras, como demonstram o aumento do preço do trigo e energia.

"Não era esta, sem dúvida, a estação pós-Covid que esperávamos ou por que ansiávamos", lamenta o Pontífice, definindo a guerra uma "derrota da humanidade" para a qual ainda não há vacina.

"Com certeza, o vírus da guerra é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provem de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado."

E vem a última pergunta: "Que fazer?"

Antes de mais nada, deixar que Deus transforme os nossos corações. E depois, pensar em termos comunitários. Não existe mais o espaço dos nossos interesses pessoais ou nacionais, mas "é hora de nos comprometermos todos em prol da cura da nossa sociedade e do nosso planeta".

E os desafios, infelizmente, não são poucos: guerras, alterações climáticas, desigualdades, desemprego, migração e o "escândalo dos povos famintos".

"Compartilho estas reflexões com a esperança de que, no novo ano, possamos caminhar juntos valorizando tudo o que a história nos pode ensinar", conclui o Santo Padre.

Adaptado de artigo de Bianca Fraccalvieri – Vatican News


Texto para ajudar a reflexão neste Dia Mundial da Paz

Arrisquemos o perigoso sonho da paz, proclamando a sua possibilidade, concebendo a cura dos conflitos que dividem o nosso mundo e dividem também os nossos próprios corações. Vamos desistir de frustrações e de uma aceitação resignada de "o mundo é assim" como uma inevitabilidade. 

Vamos tomar a sério a saudação enviada por São Paulo aos seus amigos de Corinto há quase 2.000 anos: “Que Deus, nosso Pai, e Jesus Cristo, nosso Senhor, vos deem graça e paz”. Ámen a isto! 

Mas o que significa, abraçar este dom? O que teria de mudar em nós e nos outros? Como teria de mudar o mundo para fazer isto acontecer, e como esta Paz poderia mudar o mundo?

Pode ser útil usar aqui a nossa imaginação, em vez de simplesmente enumerar os passos que nos podem levar do conflito ativo até ao fim da divisão. 

Simplesmente permitindo a possibilidade de que as nossas vidas sejam vividas sob a bandeira da graça e da paz e se tornem sinais destas mesmas duas qualidades – graça e paz – o nosso ser é mudado e o nosso destino é mudado.

E, enquanto estamos aqui, imaginemos também quais as qualidades que seriam necessárias num verdadeiro construtor da paz. Talvez o salmo 39 (40) possa ser o nosso guia. O refrão leva-nos ao ponto de partida certo: "Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade": por um lado, a capacidade de estar presente no momento, em vez de dilacerado e distraído – aqui estou; por outro lado, uma abertura de coração, um desejo de que a minha vida seja mais do que só para mim. É o que o salmista chama de "esperar no Senhor", um encontro que começa a mudar a minha forma de pensar e a minha forma de falar. "(O Senhor) Pôs em meus lábios um cântico novo, um hino de louvor ao nosso Deus". Para ser pacificadores, temos de ser pessoas cujas palavras edificam em vez de deitarem abaixo, portadores de esperança que se recusam a ceder ao cinismo preguiçoso.

O construtor da paz é também alguém que escuta: "Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas abristes-me os ouvidos". Sim, isso significa escutar a Palavra de Deus, mas significa também escutar a realidade em que vivemos, escutando especialmente o grito dos pobres e excluídos, as vozes incómodas da dor, mesmo as vozes daqueles que chamamos de "inimigos". Por que é que nos temem? Por que é que, às vezes, nos odeiam?

Antes de podermos esperar pela paz, devemos ser capazes de enfrentar qualquer sombra que impeça o nosso encontro com os nossos irmãos e irmãs num lugar de luz, seja o peso da história ou o peso de estruturas injustas (deles e nossas).

No entanto, além de ouvir, é necessário algo mais, uma vontade de defender a justiça e de falar contra a opressão. O caminho para a paz de coração, mesmo que pareça arrastar-nos para campos de conflito, é poder dizer o que confessa o antigo poeta: "Proclamei a justiça ... não fechei os meus lábios". A justiça de Deus, não a minha justiça; a visão de Deus do florescimento do mundo, não os meus pequenos planos, projetos e preconceitos.

"Se queres a paz, prepara-te para a guerra", escreveu certa vez o antigo general romano Vegetius. Mas todos os nossos preparativos para a guerra ao longo de muitas gerações não nos trouxeram paz. É hora de corrigir esse velho ditado, pelo menos para os cristãos. 

Se queres a paz, põe-te ao serviço da graça de Deus: espera no Senhor; canta o novo cântico de esperança que tem as suas raízes no Evangelho; aprende a ouvir aqueles que aprendemos a ignorar – especialmente as vozes dos pobres e excluídos, mas também os rancores dos nossos inimigos, para tentar entender melhor os nossos conflitos; e, em último caso, recusa-te a ficar calado. Fala pela justiça e contra a opressão, mas sem rancor nem ódio. Que a graça e a paz estejam no coração de tudo o que fazemos e dizemos. 

Traduzido e adaptado de 2023 Peace Sunday Liturgy Booklet, Pax Christi UK, Homily Notes – First Reflection


Proposta de atividade


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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

54º Dia Mundial da Paz 2021 - A cultura do cuidado como percurso de paz

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 54º DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE JANEIRO DE 2021 
A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ 

1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados. 

O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis.[1] 

É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição. 

Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer. [+]

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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Fratelli tutti: Declaração da Pax Christi Internacional sobre a encíclica do Papa Francisco


Fratelli tutti: Uma base para promover a não-violência num mundo violento

Uma declaração da Pax Christi Internacional sobre a encíclica do Papa Francisco
6 de outubro de 2020


A Pax Christi Internacional está grata pela nova encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti: Sobre a fraternidade e a amizade social. Este documento oportuno enfrenta as realidades de um mundo polarizado, violento e injusto no meio da crise mundial da pandemia COVID-19 e visualiza uma nova forma de avançar para um futuro mais justo, pacífico, igual, esperançoso e não-violento.

Embora Fratelli tutti não use explicitamente o termo não-violência, a encíclica oferece uma base clara para desenvolver e integrar a teologia e a prática da não-violência no ensinamento da Igreja, um esforço ao qual se dedica a Iniciativa Católica de Não-violência da Pax Christi. Em particular, a análise clara do Papa Francisco da violência global, incluindo a violência estrutural, prepara o cenário para uma compreensão mais profunda da não-violência.

No início do documento, o Papa Francisco descreve o “normal injusto”, com as suas estruturas económicas, políticas, sociais e tecnológicas interligadas, que dividem os privilegiados de milhares de outros, incluindo os empobrecidos, os migrantes, as mulheres, os doentes, os idosos. Para transformar o mundo de maneira não-violenta, devemos primeiro vislumbrar a sua violência, e o Papa Francisco não nos poupa nisto.

O papa, porém, não se limita a descrever a realidade do nosso mundo injusto; ele responde-lhe com temas-chave fundamentados numa visão espiritual primordial, que é também a base da ética universal da não-violência: que todos os seres em todos os lugares estão interrelacionados. Inspirado por São Francisco de Assis, que fez da sororidade e da fraternidade de todos os seres uma pedra de toque da sua espiritualidade e ação concreta no mundo, o Papa Francisco dissolve todas as barreiras que nos impedem de ver e viver esta realidade.

Na encíclica, uma série de temas resulta logicamente disto. Se somos todos parentes, se somos todos uma família, então devemos desafiar tudo o que destrói esta unidade: mostrando cuidado radical uns pelos outros; construindo uma cultura de encontro autêntico; tornando o diálogo central na nossa maneira de ser; e colocando em ação a solidariedade com os mais excluídos, despossuídos, desumanizados e sistematicamente sob ataque. O Papa Francisco está aqui a chamar-nos inflexivelmente à vida não-violenta, especialmente iluminada pela sua extensa análise da história do Bom Samaritano.

O Papa Francisco nesta encíclica também age, mesmo quando chama o mundo a fazê-lo. Reitera a inadmissibilidade da pena de morte, mas talvez ainda de grande envergadura é a reflexão do Papa Francisco sobre a guerra, que acreditamos ir mais longe do que qualquer encíclica papal na história.

Ao enfatizar como a tradição da guerra justa fracassa face à guerra moderna, ele escreve: “Já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar duma possível ‘guerra justa’.” Na nota de rodapé nº 242, ele é ainda mais direto: “Santo Agostinho, que elaborou uma ideia da ‘guerra justa’ que hoje já não defendemos, disse que ‘matar a guerra com a palavra e alcançar e conseguir a paz com a paz e não com a guerra, é maior glória do que a dar aos homens com a espada’ (Epistula 229, 2: PL 33, 1020).”

A Pax Christi Internacional e a sua Iniciativa Católica de Não-Violência estão enormemente gratas pela visão do Papa Francisco de tal mundo, que ele compartilha desde o início do seu papado. Em resposta a esta visão, temos explorado a não-violência como uma espiritualidade, um modo de vida, um programa de transformação social e uma ética universal. Fratelli tutti oferece uma base para promover a teologia e a prática fiel da não-violência.

O Papa Francisco convida-nos a uma reflexão sobre a realidade da guerra e sobre outra realidade quando “escolhemos a paz”. Façamos esta viagem com o Papa enquanto fazemos avançar esta reflexão juntos em busca de uma casa comum mais justa, pacífica e não-violenta.


Pode descarregar a versão em PDF aqui.


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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Peritos em paz atentos aos sinais dos tempos

A mudança de época que a humanidade vive é habitada por aquela que indiquei várias vezes como «uma terceira guerra mundial em pedaços ». Bem sabemos como o receio de um conflito mundial, capaz de destruir a humanidade inteira, marcou o nosso passado recente. São João XXIII dedicou a sua última Encíclica ao tema da paz, dirigindo-a a todos os homens de boa vontade [Carta enc. Pacem in terris]. E como deixar de recordar o apelo sincero lançado por São Paulo VI à Assembleia das Nações Unidas: «Jamais uns contra os outros, nunca mais!» (4 de outubro de 1965)?

Infelizmente, devemos constatar que hoje o mundo ainda está mergulhado num clima de guerra e violência recíproca: esta dolorosa realidade não só exige que mantenhamos vivo o apelo à paz, mas quase nos obriga a colocar-nos interrogações decisivas.

Por que num mundo onde a globalização derrubou tantas fronteiras, onde todos — diz-se — estamos interligados, ainda se continua a praticar violência nas relações entre os indivíduos e as comunidades?

Por que quem é diferente de nós muitas vezes nos assusta, de tal forma que tomamos uma atitude de defesa e suspeita que demasiadas vezes se torna agressão hostil?

Por que os governos dos Estados julgam que mostrar a própria força, até com atos de guerra, pode conferir- lhes maior credibilidade aos olhos dos seus cidadãos e aumentar o consenso de que gozam?

A estas e a outras perguntas não se pode responder de maneira genérica e apressada. É necessário um compromisso de estudo, é preciso investir também a nível da pesquisa científica e da formação das novas gerações. Foi por estes motivos que considerei necessário instituir na Pontifícia Universidade Lateranense um Ciclo de estudos sobre Ciências da paz, a partir da convicção de que a Igreja é chamada a empenhar-se «na solução de problemas que afetam a paz, a concórdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos humanos e civis» [Exort. ap. Evangelii gaudium, 65].

Neste compromisso «desempenha um papel central o mundo universitário, lugar símbolo daquele humanismo integral que tem continuamente necessidade de ser renovado e enriquecido, para que saiba produzir uma corajosa renovação cultural que o momento atual exige. Este desafio interpela inclusive a Igreja que, com a sua rede mundial de Universidades eclesiásticas, pode “oferecer o decisivo contributo de fermento, sal e luz do Evangelho de Jesus Cristo e da Tradição viva da Igreja, sempre aberta a novos cenários e propostas”, como recordei recentemente, reformando o ordenamento dos estudos académicos nas Instituições eclesiásticas [Cf. Const. ap. Veritatis gaudium, 2]. Sem dúvida, isto não significa alterar o sentido institucional e as tradições consolidadas das nossas realidades académicas mas, pelo contrário, orientar a sua função na perspetiva de uma Igreja mais acentuadamente “em saída” e missionária. Com efeito, é possível enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com uma capacidade de resposta adequada nos conteúdos e compatível na linguagem, antes de tudo dirigindo-se às novas gerações» [Carta ao Cardeal De Donatis, por ocasião da instituição do Curso de estudos sobre “Ciências da Paz”, 12 de novembro de 2018].

[...]

Gostaria de realçar que um bom pacificador deve ser capaz de amadurecer um olhar sobre o mundo e a história, que não caia num «“excesso de diagnóstico”, que nem sempre é acompanhado por propostas resolutivas e realmente aplicáveis» [Exort. ap. Evangelii gaudium, 50]. Com efeito, trata-se de ir além de uma abordagem puramente sociológica, que tenha a pretensão de abranger toda a realidade de uma forma neutra e assética. Quem deseja tornar-se especialista em Ciências da Paz tem necessidade de aprender a estar atento aos sinais dos tempos: o gosto pela investigação científica e pelo estudo deve ser acompanhado por um coração capaz de compartilhar «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje» [Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 1], a fim de saber fazer um verdadeiro discernimento evangélico.

Precisamos realmente de homens e mulheres bem preparados, dotados de todos os instrumentos necessários para ler e interpretar as dinâmicas sociais, económicas e políticas do nosso tempo. Comprometer-se nestes percursos de formação poderá ser uma válida ajuda para muitos jovens descobrirem que «a vocação laical é, antes de mais nada, a caridade na família, a caridade social e a caridade política: é um compromisso concreto nascido da fé para a construção de uma sociedade nova, é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia, e assim estender o Reino de Deus no mundo» [Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 168].

Papa Francisco
Prefácio ao livro «Per un sapere della pace» (“Por um saber da paz”), publicado pela Libreria editrice vaticana (Cidade do Vaticano, 2020, 124 páginas)

Fonte: L'Osservatore Romano, Edição Semanal em Português, terça-feira 22 de setembro de 2020, p. 7

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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Um apelo ao Papa Francisco: O caminho da não-violência para um futuro Laudato Si'

A Igreja está a celebrar o quinto aniversário da Laudato Si'. Sobre o cuidado da casa comum, a carta encíclica do Papa Francisco que nos chama a uma nova compreensão de todas as ligações tecidas na criação. Neste tempo de crise é nítido que a não-violência é um pilar crucial na fundação de um mundo pós-pandémico mais justo e sustentável ao qual nos conduz a Laudato Si'.

Convidamos todas e todos (comunidades religiosas católicas, organizações, instituições educativas e indivíduos) a assinar esta mensagem dirigida ao Papa Francisco expressando a nossa gratidão pela sua liderança durante este tempo de crise e o nosso apoio aos ensinamentos da Laudato Si'.

O prazo para assinar termina a meados de setembro

Partilhe o link para esta mensagem o mais amplamente possível.



Um apelo ao Papa Francisco:
O caminho da não-violência para um futuro Laudato Si'

O coronavírus revelou as raízes profundas do racismo e da violência cultural, da injustiça económica, das guerras "travadas aos bocados", das mudanças climáticas e da destruição ambiental que a comunidade humana e o nosso planeta estão a enfrentar. A resposta à pandemia requer uma mudança fundamental do "normal injusto" da violência sistémica e estrutural em todo o mundo, de sistemas que destroem, desumanizam e diminuem, para uma cultura de solidariedade que busca a plenitude de vida para todos.

A não-violência ativa – uma espiritualidade, um modo de vida e um programa de ação social – é a chave para essa mudança global; para o roteiro apresentado em A caminho para o cuidado da casa comum; e para o futuro previsto na Laudato Si'. As duas mãos da não-violência falam claramente a este momento da história: "Não" às violências multidimensionais que assolam o nosso mundo; "Sim" à dignidade humana e ao respeito pela integridade da criação.

A não-violência é um caminho para a conversão, para uma profunda transformação pessoal e social da antiga forma de dominação e de exploração em direção a uma "civilização do amor" (Laudato Si', n. 231). A ética universal da não-violência pode moldar um novo e mais justo "normal" e guiar o crescente movimento massivo de pessoas comuns, incluindo muitos católicos, que anseiam pelo mundo pós-pandémico que o Papa Francisco nos ajudou a imaginar.

Para encorajar ainda mais um processo de conversão ecológica, cremos que uma reflexão complementar à Laudato Si' aprofundaria e alargaria consideravelmente a compreensão e o compromisso católicos da não-violência como um pilar crucial na fundação do desenvolvimento humano integral e de uma "casa comum" mais sustentável.

Estamos profundamente gratos pela esperança e visão que traz a estes tempos difíceis.


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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Reflexão dos Copresidentes da Pax Christi Internacional sobre a mensagem do Papa Francisco para o 53º Dia Mundial da Paz

REFLEXÃO DOS COPRESIDENTES DA PAX CHRISTI INTERNACIONAL SOBRE A MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 53º DIA MUNDIAL DA PAZ
1 DE JANEIRO DE 2020

A 52ª mensagem do Dia Mundial da Paz do Papa Francisco no ano de 2019 convidou-nos a refletir sobre o tema “A boa política está ao serviço da paz”. A mensagem do Papa era que a política, apesar de essencial à construção de comunidades e instituições humanas, pode tornar-se um meio de opressão, marginalização e até de destruição quando a vida política não é vista como uma forma de serviço à sociedade como um todo. Este ano, o tema do 53º Dia Mundial da Paz do Papa Francisco em 2020 é “A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica”. A reflexão sobre este tema é retratada nas seguintes seções da sua mensagem (1) A paz, caminho de esperança face aos obstáculos e provações. (2) A paz, caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade. (3) A paz, caminho de reconciliação na comunhão fraterna. (4) A paz, caminho de conversão ecológica.

Num mundo devastado por guerra e conflitos que frequentemente afetam os marginalizados e os vulneráveis da nossa sociedade, somos convidados a refletir sobre a paz como objeto da nossa esperança e aspiração de toda a família humana. A virtude da esperança inspira-nos e mantém-nos na nossa caminhada, mesmo quando os obstáculos parecem esmagadores. O Papa aborda as diferentes formas de violência que estão a dilacerar a humanidade e o seu verdadeiro significado. Ele afirma: “Na realidade, toda a guerra se revela um fratricídio que destrói o próprio projeto de fraternidade, inscrito na vocação da família humana”.

A mensagem do Papa Francisco é uma mensagem muito forte, uma mensagem vocacional. Esta vocação é a dos filhos de Deus, irmãos e irmãs. Mas o Papa sublinha a “impaciência pela diversidade do outro, que fomenta o desejo de […] domínio. Nasce no coração do homem a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo”. Ele enfatiza o facto de que a “guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo”. Pelo contrário, respeitando, confiando nos outros e vendo-os como filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs, podemos “romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança”.

Refletindo sobre esta mensagem, temos a oportunidade de agir contra estereótipos e preconceitos de outros, dominação cultural e cegueira cultural e várias formas de exclusão experimentadas nas nossas comunidades, país e em todo o mundo devido à raça, género, credo, etnia, estatuto, orientação e idade. Mais importante, o Papa coloca algumas questões críticas para nos ajudar a refletir sobre a nossa falta de aceitação, desconfiança e medo dos outros como indivíduos e/ou comunidade. “Como construir um caminho de paz e mútuo reconhecimento? Como romper a lógica morbosa da ameaça e do medo? Como quebrar a dinâmica de desconfiança atualmente prevalecente?” Outra pergunta importante a ser feita é: como lidamos com as divisões dentro de uma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa em empregar os meios para garantir o desenvolvimento humano integral que põe em risco a busca do bem comum? Isto exige profunda reflexão e o estímulo do Espírito Santo, que nos iluminará para que respondamos positivamente, tornando-nos artesãos da justiça e da paz.

Segundo o Papa, o mundo desenvolve um estranho paradoxo, ao mesmo tempo que busca garantir a paz “com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo”. O clima de medo reforça a fragilidade dos relacionamentos e aumenta o risco de violência, criando círculos viciosos que nunca levam a um relacionamento pacífico. O Papa concentra-se em particular no perigo da dissuasão nuclear que “só pode criar uma segurança ilusória”. Refletindo sobre isto, o Papa Francisco adverte contra a ilusão de pensar que podemos “manter a estabilidade no mundo através do medo da aniquilação”, em vez de proteger e preservar a vida e desenvolver uma “ética global de solidariedade e cooperação ao serviço dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira de hoje e de amanhã”. Quão inspiradora é esta perceção do Papa Francisco de que a violência em todas as suas formas nunca levou à paz, incluindo especialmente o uso de armas de destruição em massa. A paz nunca será alcançada através da dissuasão nuclear ou de qualquer ato de violência, pelo contrário, “a paz alcança-se no mais fundo do coração humano”. Somos chamados a viver livres do medo, pois temos um Deus que nos ama, apesar das nossas fraquezas e necessidades, como ilustra a parábola do filho pródigo (Lucas 15,11-24). Portanto, na nossa busca pela paz, “pode-nos inspirar o amor de Deus por cada um de nós, amor libertador, ilimitado, gratuito, incansável”. Para quebrar essa dinâmica de desconfiança devemos, portanto, “procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua. O desejo de paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos”.

O Santo Padre fala então da paz como um “caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade”. Refletindo sobre o horror das bombas atómicas lançadas em Hiroxima e Nagasaki em agosto de 1945 e as memórias dos Hibakusha (os sobreviventes da bomba atómica), o Papa Francisco exalta a importância de manter e preservar a memória de eventos passados. Tais memórias não devem ser apenas um lembrete para impedir que eventos semelhantes aconteçam, “mas também para que a memória, fruto da experiência, constitua a raiz e sugira a vereda para as opções de paz presentes e futuras”. Manter as memórias das vítimas vivas gera nova esperança em indivíduos e comunidades, em vez de buscar vingança, o que tende a criar mais violência. Em vista disso, convidamos cada um de nós a estudar o nosso contexto e, quando aplicável, honrar as memórias das vítimas, para que a esperança delas e a nossa possa acender-se, a fim de aproveitar a paz.

Na escuridão da guerra e da violência, uma simples mão estendida pode, às vezes, despertar novas energias e reavivar novas esperanças em indivíduos e comunidades. Abrir e traçar o caminho da paz é um desafio “complexo”, porque os interesses em jogo nos relacionamentos são múltiplos e contraditórios. Só podemos realmente alcançar a paz se buscarmos a verdade juntos “mais além das ideologias e das diferentes opiniões”. Através do diálogo e ouvindo-nos mutuamente, “podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto dum irmão”. O processo de paz é um compromisso de longo prazo. O Papa insiste que “o mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações”. O Santo Padre desenvolve então o papel da democracia, que pode ser “um paradigma significativo deste processo”. Também adverte contra sociedades fraturadas, nas quais “o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecução do bem comum”. Cabe à Igreja e às suas organizações participar no serviço deste bem comum, através da transmissão de valores cristãos, ensino moral e obras de educação social.

Na terceira parte de sua mensagem, o Papa refere-se à Bíblia, onde muitas passagens mostram que o outro nunca deve estar fechado no que tem de dizer ou fazer, mas deve ser considerado de acordo com a promessa que carrega dentro de si. O Papa Francisco convida-nos a respeitar, perdoar, reconciliar. Chama-nos a refletir sobre o poder do perdão, conforme ensinado por Jesus Cristo (Mateus 18,21-22) - perdoar “setenta vezes sete”. Aprendemos a viver no perdão para que possamos aumentar “a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz” e oferecer essa paz aos homens e mulheres do nosso tempo.

O Santo Padre invoca uma comunhão fraterna em cada área da existência, social, económica e política. Ao fazer isso, imitamos Cristo, que foi o primeiro reconciliador através de sua morte na cruz “estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz” (Colossenses 1,20). Nesta mensagem para o Dia Mundial da Paz, somos lembrados que para aqueles que seguem a Cristo, o caminho para a paz é sustentada pelo sacramento da reconciliação que renova indivíduos e comunidades. Este é um caminho que exige paciência e confiança, ouvindo-nos uns aos outros e contemplando o mundo que Deus deu para ser a nossa casa comum e o das gerações vindouras.

Nesta mensagem de paz, o Papa também nos convida a refletir sobre a “conversão ecológica” como forma de construir a paz. Assim, cada um de nós é desafiado a examinar a nossa atitude exploradora, dominadora, abusiva e egoísta em relação ao meio ambiente e aos recursos que o nosso Criador nos confiou como guardiães. Esta é também uma reflexão sobre a maneira como tratamos os outros, especialmente os marginalizados e vulneráveis. Somos, portanto, convidados a percorrer o caminho da “conversão ecológica”, de modo a respeitar e nutrir a Terra e tudo o que nela vive, inclusive a vida humana. Por meio da conversão ecológica desafiamo-nos a nós mesmos e aos outros a uma nova maneira de encarar a vida, enquanto apreciamos a generosidade de Deus para connosco por nos dar e compartilhar a terra. Isto exige uma mudança de atitude e transformação na maneira como nos relacionamos com o Criador, que é a origem e fonte de toda a vida, com os outros e com a criação de Deus em toda a sua rica variedade. Assim, como refere o Papa: “temos necessidade duma mudança nas convicções e na perspetiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e à receção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice”. Além disso, refletindo sobre a recente visita do Papa à Região Pan-Amazónica e a sua reflexão sobre essa visita, o apelo que nos é feito é o de procurar trabalhar para o relacionamento pacífico entre as comunidades e a terra, entre o presente e o passado, entre a experiência e a esperança. O Papa Francisco também nos convida a encontrar novas maneiras de viver juntos, celebrando e partilhando a vida com outros, além de respeitar e apreciar a Terra como a nossa casa comum.

Finalmente, o Papa volta ao tema com que abriu o texto, o da “esperança". “Não se obtém a paz, se não a esperamos”, enfatiza o Papa Francisco, que designa a paciência e a confiança como apoios. E continua a explicar. Em primeiro lugar, isto significa acreditar na possibilidade da paz, acreditar que os outros precisam da paz tanto como nós. Aqui podemos encontrar inspiração no amor que Deus tem por cada um de nós; amor que é libertador, ilimitado, gratuito e incansável.

Que todos nós, nos cinco continentes – velhos e jovens, mulheres e homens, todos criados à imagem e semelhança de Deus – possamos “conhecer uma existência de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si”. À medida que continuamos a servir nos nossos diferentes contextos e capacidades; que avançamos nas quatro áreas de intervenção da Pax Christi Internacional: (1) Não-violência como estilo de política da paz; (2) Tratado de proibição de armas nucleares: (3) Indústrias Extrativas na América Latina; (4) Processo de paz Israel-Palestina renovado; e na expectativa de comemorar o 75º aniversário da Pax Christi Internacional em maio de 2020 em Hiroxima, que a inspiração desta mensagem deste Dia Mundial da Paz de 2020 continue a ser o ímpeto que nos conduz. Que continuemos a trabalhar por um mundo onde todos experimentarão igualdade e justiça social; onde “o outro” já não é tratado como um inimigo, mas como um amigo, onde as espadas serão transformadas em arados, onde a criação de Deus será nutrida e respeitada e todos se reunirão em gratidão ao Criador de todos nós.

Que o Criador de novos começos caminhe suavemente com cada um de vós e traga a paz para vós e as vossas famílias neste novo ano de 2020. Ao criarem culturas de paz no vosso dia-a-dia, que possam experimentar paz, alegria e esperança.

Bispo Marc Stenger (Bispo de Troyes, França) | Irmã Teresia Wamuyu Wachira, IBVM (Quénia)

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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

53º Dia Mundial da Paz 2020 - A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2020



«A PAZ COMO CAMINHO DE ESPERANÇA:
DIÁLOGO, RECONCILIAÇÃO E CONVERSÃO ECOLÓGICA»



1. A paz, caminho de esperança face aos obstáculos e provações

A paz é um bem precioso, objeto da nossa esperança; por ela aspira toda a humanidade. Depor esperança na paz é um comportamento humano que alberga uma tal tensão existencial, que o momento presente, às vezes até custoso, «pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho»[1]. Assim, a esperança é a virtude que nos coloca a caminho, dá asas para continuar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis.

A nossa comunidade humana traz, na memória e na carne, os sinais das guerras e conflitos que têm vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e frágeis. Há nações inteiras que não conseguem libertar-se das cadeias de exploração e corrupção que alimentam ódios e violências. A muitos homens e mulheres, crianças e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade física, a liberdade – incluindo a liberdade religiosa –, a solidariedade comunitária, a esperança no futuro. Inúmeras vítimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilhação e da exclusão, do luto e da injustiça, se não mesmo os traumas resultantes da opressão sistemática contra o seu povo e os seus entes queridos.

As terríveis provações dos conflitos civis e dos conflitos internacionais, agravadas muitas vezes por violências desalmadas, marcam prolongadamente o corpo e a alma da humanidade. Na realidade, toda a guerra se revela um fratricídio que destrói o próprio projeto de fraternidade, inscrito na vocação da família humana.

Sabemos que, muitas vezes, a guerra começa pelo facto de não se suportar a diversidade do outro, que fomenta o desejo de posse e a vontade de domínio. Nasce, no coração do homem, a partir do egoísmo e do orgulho, do ódio que induz a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a excluí-lo e cancelá-lo. A guerra nutre-se com a perversão das relações, com as ambições hegemónicas, os abusos de poder, com o medo do outro e a diferença vista como obstáculo; e simultaneamente alimenta tudo isso.

Como fiz notar durante a recente viagem ao Japão, é paradoxal que «o nosso mundo viva a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer diálogo. A paz e a estabilidade internacional são incompatíveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de mútua destruição ou sobre uma ameaça de aniquilação total. São possíveis só a partir duma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço dum futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana inteira de hoje e de amanhã»[2].

Toda a situação de ameaça alimenta a desconfiança e a retirada para dentro da própria condição. Desconfiança e medo aumentam a fragilidade das relações e o risco de violência, num círculo vicioso que nunca poderá levar a uma relação de paz. Neste sentido, a própria dissuasão nuclear só pode criar uma segurança ilusória.

Por isso, não podemos pretender manter a estabilidade no mundo através do medo da aniquilação, num equilíbrio muito instável, pendente sobre o abismo nuclear e fechado dentro dos muros da indiferença, onde se tomam decisões socioeconómicas que abrem a estrada para os dramas do descarte do homem e da criação, em vez de nos guardarmos uns aos outros[3]. Então como construir um caminho de paz e mútuo reconhecimento? Como romper a lógica morbosa da ameaça e do medo? Como quebrar a dinâmica de desconfiança atualmente prevalecente?

Devemos procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no diálogo e na confiança mútua. O desejo de paz está profundamente inscrito no coração do homem e não devemos resignar-nos com nada de menos.

2. A paz, caminho de escuta baseado na memória, solidariedade e fraternidade

Os sobreviventes aos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasáqui – denominados os hibakusha – contam-se entre aqueles que, hoje, mantêm viva a chama da consciência coletiva, testemunhando às sucessivas gerações o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os sofrimentos indescritíveis que se seguiram até aos dias de hoje. Assim, o seu testemunho aviva e preserva a memória das vítimas, para que a consciência humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de domínio e destruição. «Não podemos permitir que as atuais e as novas gerações percam a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno»[4].

Como eles, há muitos, em todas as partes do mundo, que oferecem às gerações futuras o serviço imprescindível da memória, que deve ser preservada não apenas para evitar que se voltem a cometer os mesmos erros ou se reproponham os esquemas ilusórios do passado, mas também para que a memória, fruto da experiência, constitua a raiz e sugira a vereda para as opções de paz presentes e futuras.

Mais ainda, a memória é o horizonte da esperança: muitas vezes, na escuridão das guerras e dos conflitos, a lembrança mesmo dum pequeno gesto de solidariedade recebida pode inspirar opções corajosas e até heroicas, pode colocar em movimento novas energias e reacender nova esperança nos indivíduos e nas comunidades.

Abrir e traçar um caminho de paz é um desafio muito complexo, pois os interesses em jogo, nas relações entre pessoas, comunidades e nações, são múltiplos e contraditórios. É preciso, antes de mais nada, fazer apelo à consciência moral e à vontade pessoal e política. Com efeito, a paz alcança-se no mais fundo do coração humano, e a vontade política deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades.

O mundo não precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo sem exclusões nem manipulações. De facto, só se pode chegar verdadeiramente à paz quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade mais além das ideologias e das diferentes opiniões. A paz é uma construção que «deve estar constantemente a ser edificada»[5], um caminho que percorremos juntos procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter a palavra dada e a respeitar o direito. Na escuta mútua, podem crescer também o conhecimento e a estima do outro, até ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto dum irmão.

Por conseguinte, o processo de paz é um empenho que se prolonga no tempo. É um trabalho paciente de busca da verdade e da justiça, que honra a memória das vítimas e abre, passo a passo, para uma esperança comum, mais forte que a vingança. Num Estado de direito, a democracia pode ser um paradigma significativo deste processo, se estiver baseada na justiça e no compromisso de tutelar os direitos de cada um, especialmente se vulnerável ou marginalizado, na busca contínua da verdade[6]. Trata-se duma construção social em contínua elaboração, para a qual cada um presta responsavelmente a própria contribuição, a todos os níveis da comunidade local, nacional e mundial.

Como assinalava o Papa São Paulo VI, «a dupla aspiração – à igualdade e à participação – procura promover um tipo de sociedade democrática. (...). Isto, de per si, já diz bem qual a importância de uma educação para a vida em sociedade, em que, para além da informação sobre os direitos de cada um, seja recordado também o seu necessário correlativo: o reconhecimento dos deveres de cada um em relação aos outros. O sentido e a prática do dever são, por sua vez, condicionados pelo domínio de si mesmo, pela aceitação das responsabilidades e das limitações impostas ao exercício da liberdade do indivíduo ou do grupo»[7].

Pelo contrário, a fratura entre os membros duma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecução do bem comum. Inversamente, o trabalho paciente, baseado na força da palavra e da verdade, pode despertar nas pessoas a capacidade de compaixão e solidariedade criativa.

Na nossa experiência cristã, fazemos constantemente memória de Cristo, que deu a sua vida pela nossa reconciliação (cf. Rm 5, 6-11). A Igreja participa plenamente na busca duma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperança da paz, através da transmissão dos valores cristãos, do ensinamento moral e das obras sociais e educacionais.

3. A paz, caminho de reconciliação na comunhão fraterna

A Bíblia, particularmente através da palavra dos profetas, chama as consciências e os povos à aliança de Deus com a humanidade. Trata-se de abandonar o desejo de dominar os outros e aprender a olhar-se mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irmãos. O outro nunca há de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo. Somente escolhendo a senda do respeito é que será possível romper a espiral da vingança e empreender o caminho da esperança.

Guia-nos a passagem do Evangelho que reproduz o seguinte diálogo entre Pedro e Jesus: «“Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”» (Mt 18, 21-22). Este caminho de reconciliação convida-nos a encontrar no mais fundo do nosso coração a força do perdão e a capacidade de nos reconhecermos como irmãos e irmãs. Aprender a viver no perdão aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz.

O que é verdade em relação à paz na esfera social, é verdadeiro também no campo político e económico, pois a questão da paz permeia todas as dimensões da vida comunitária: nunca haverá paz verdadeira, se não formos capazes de construir um sistema económico mais justo. Como escreveu Bento XVI, «a vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se atue não só sobre a melhoria das transações fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade económica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão»[8].

4. A paz, caminho de conversão ecológica

«Se às vezes uma má compreensão dos nossos princípios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência, nós, crentes, podemos reconhecer que então fomos infiéis ao tesouro de sabedoria que devíamos guardar»[9].

Vendo as consequências da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da exploração abusiva dos recursos naturais – considerados como instrumentos úteis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza –, precisamos duma conversão ecológica.

O Sínodo recente sobre a Amazónia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma relação pacífica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a memória, entre as experiências e as esperanças.

Este caminho de reconciliação inclui também escuta e contemplação do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum. De facto, os recursos naturais, as numerosas formas de vida e a própria Terra foram-nos confiados para ser «cultivados e guardados» (cf. Gn 2, 15) também para as gerações futuras, com a participação responsável e diligente de cada um. Além disso, temos necessidade duma mudança nas convicções e na perspetiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e à receção do dom da criação, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Artífice.

De modo particular brotam daqui motivações profundas e um novo modo de habitar na casa comum, de convivermos uns e outros com as próprias diversidades, de celebrar e respeitar a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condições e modelos de sociedade que favoreçam o desabrochar e a permanência da vida no futuro, de desenvolver o bem comum de toda a família humana.

Por conseguinte a conversão ecológica, a que apelamos, leva-nos a uma nova perspetiva sobre a vida, considerando a generosidade do Criador que nos deu a Terra e nos chama à jubilosa sobriedade da partilha. Esta conversão deve ser entendida de maneira integral, como uma transformação das relações que mantemos com as nossas irmãs e irmãos, com os outros seres vivos, com a criação na sua riquíssima variedade, com o Criador que é origem de toda a vida. Para o cristão, uma tal conversão exige «deixar emergir, nas relações com o mundo que o rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus»[10].

5. Obtém-se tanto quanto se espera[11]

O caminho da reconciliação requer paciência e confiança. Não se obtém a paz, se não a esperamos.

Trata-se, antes de mais nada, de acreditar na possibilidade da paz, de crer que o outro tem a mesma necessidade de paz que nós. Nisto, pode-nos inspirar o amor de Deus por cada um de nós, amor libertador, ilimitado, gratuito, incansável.

O medo é, frequentemente, fonte de conflito. Por isso, é importante ir além dos nossos temores humanos, reconhecendo-nos filhos necessitados diante d’Aquele que nos ama e espera por nós, como o Pai do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-24). A cultura do encontro entre irmãos e irmãs rompe com a cultura da ameaça. Torna cada encontro uma possibilidade e um dom do amor generoso de Deus. Faz-nos de guia para ultrapassarmos os limites dos nossos horizontes estreitos, procurando sempre viver a fraternidade universal, como filhos do único Pai celeste.

Para os discípulos de Cristo, este caminho é apoiado também pelo sacramento da Reconciliação, concedido pelo Senhor para a remissão dos pecados dos batizados. Este sacramento da Igreja, que renova as pessoas e as comunidades, convida a manter o olhar fixo em Jesus, que reconciliou «todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu» (Col 1, 20); e pede para depor toda a violência nos pensamentos, nas palavras e nas obras quer para com o próximo quer para com a criação.

A graça de Deus Pai oferece-se como amor sem condições. Recebido o seu perdão, em Cristo, podemos colocar-nos a caminho para ir oferecê-lo aos homens e mulheres do nosso tempo. Dia após dia, o Espírito Santo sugere-nos atitudes e palavras para nos tornarmos artesãos de justiça e de paz.

Que o Deus da paz nos abençoe e venha em nossa ajuda.

Que Maria, Mãe do Príncipe da paz e Mãe de todos os povos da terra, nos acompanhe e apoie, passo a passo, no caminho da reconciliação.

E que toda a pessoa que vem a este mundo possa conhecer uma existência de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si.

Vaticano, 8 de dezembro de 2019.

Franciscus



[1] Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 30 de novembro de 2007, 1.

[2] Discurso sobre as armas nucleares, Nagasáqui – Parque «Atomic Bomb Hypocenter», 24 de novembro de 2019.

[3] Cf. Francisco, Homilia em Lampedusa, 8 de julho de 2013.

[4] Francisco, Discurso sobre a Paz, Hiroxima – Memorial da Paz, 24 de novembro de 2019.

[5] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 78.

[6] Cf. Bento XVI, Discurso aos dirigentes e membros das Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos (ACLI), 27 de janeiro de 2006.

[7] Carta ap. Octogesima adveniens, 14 de maio de 1971, 24.

[8] Carta enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 39.

[9] Francisco, Carta enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 200.

[10] Ibid., 217.

[11] Cf. São João da Cruz, Noite Escura, II, 21, 8.

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2019

«A BOA POLÍTICA
ESTÁ AO SERVIÇO DA PAZ»



1. «A paz esteja nesta casa!»

Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lc 10, 5-6).

Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.[1] A «casa», de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa «casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.

Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»

2. O desafio da boa política

A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy;[2] é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.

«Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade».[3]

Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.

3. Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz

O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana».[4] Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.

A propósito, vale a pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:

Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.

Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.

Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.

Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.

Bem-aventurado o político que realiza a unidade.

Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.

Bem-aventurado o político que sabe escutar.

Bem-aventurado o político que não tem medo.[5]

Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.

4. Os vícios da política

A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.

5. A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro

Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. «Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo».[6]

Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família humana.

6. Não à guerra nem à estratégia do medo

Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.

O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.

7. Um grande projeto de paz

Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».[7]

Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:

- a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;

- a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;

- a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.

A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: A «misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (...), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre» (Lc 1, 50-55).

Vaticano, 8 de dezembro de 2018.

Franciscus


[1] Cf. Lc 2, 14: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado».

[2] Cf. Le Porche du mystère de la deuxième vertu (Paris 1986).

[3] Carta ap. Octogesima adveniens (14/V/1971), 46.

[4] Carta enc. Caritas in veritate (29/V/2009), 7.

[5] Cf. «Discurso na Exposição-Encontro “Civitas” de Pádua»: Revista 30giorni (2002-nº 5).

[6] Bento XVI, Discurso às Autoridades do Benim (Cotonou, 19/XI/2011).

[7] Carta enc. Pacem in terris (11/IV/1963), 24 (44).


Vatican.va

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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Intenção do Papa Francisco para o mês de Novembro: Ao serviço da paz



Rezemos juntos para que a linguagem do coração e do diálogo prevaleça sempre sobre a linguagem das armas

Papa Francisco – Novembro 2018

Vídeo do Papa

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sábado, 1 de setembro de 2018

Mensagem do Papa Francisco para a celebração do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (1 de setembro de 2018)

Caros irmãos e irmãs!

Neste Dia de Oração desejo, em primeiro lugar, agradecer ao Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão comprometidos em protegê-la. Agradeço também pelos numerosos projetos que visam promover o estudo e a proteção dos ecossistemas, pelos esforços destinados a desenvolver uma agricultura mais sustentável e uma alimentação mais responsável, pelas diversas iniciativas educacionais, espirituais e litúrgicas que envolvem muitos cristãos em todo o mundo no cuidado da criação.

Devemos reconhecê-lo: não soubemos proteger a criação com responsabilidade. A situação ambiental, quer a nível global, quer em muitos lugares específicos, não pode ser considerada satisfatória. Com razão, surgiu a necessidade de uma relação renovada e saudável entre a humanidade e a criação, a convicção de que apenas uma visão do homem autêntica e integral nos permitirá cuidar melhor do nosso planeta para o benefício das gerações presentes e futuras, pois «não há ecologia sem uma adequada antropologia» (Carta Enc. Laudato si’, 118).

Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação, que a Igreja Católica há alguns anos celebra em união com os irmãos e irmãs ortodoxos, e com o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs, gostaria de chamar a atenção para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso infelizmente é difícil para muitos, se não impossível. No entanto, «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável» (ibid., 30).

A água nos convida a refletir sobre as nossas origens. A maior parte do corpo é composta de água; e muitas civilizações, na história, surgiram nas proximidades de grandes cursos de água que marcaram sua identidade. É sugestiva a imagem utilizada no início do Génesis, em que se diz que nas origens o espírito do Criador «pairava sobre as águas» (1,2).

Pensando em seu papel fundamental na criação e no desenvolvimento humano, sinto a necessidade de dar graças a Deus pela «irmã água», simples e útil sem nada de parecido para a vida no planeta. Precisamente por esse motivo, cuidar de fontes e bacias hídricas é um imperativo urgente. Hoje, mais do que nunca, é necessário um olhar que ultrapasse o imediato (cf. Carta Enc. Laudato si’, 36), além de «critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual» (ibid., 159). Precisa-se urgentemente de projetos conjuntos e de ações concretas, tendo em conta que é inaceitável qualquer privatização do bem natural da água que seja contrária ao direito humano de poder ter acesso a ela.

Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e de vida. O pensamento vai imediatamente para o Batismo, sacramento do nosso renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. O Batismo representa também, para os cristãos de diferentes confissões, o ponto de partida real e indispensável para viver uma fraternidade cada vez mais autêntica no caminho da plena unidade. Jesus, durante a sua missão, prometeu uma água capaz de saciar para sempre a sede do homem (cf. Jo 4,14), e profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Ir a Jesus, beber d’Ele significa encontrá-Lo pessoalmente como Senhor, haurindo da sua Palavra o sentido da vida. Que possam ressoar em nós com força as palavras que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo 19, 28). O Senhor continua a pedir para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele nos pede para dar-Lhe de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede e me destes de beber» (Mt 25,35). Dar de beber, na aldeia global, não envolve apenas gestos pessoais de caridade, mas escolhas concretas e compromisso constante de garantir a todos o bem primário da água.

Gostaria também de tocar na questão dos mares e dos oceanos. Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto a terra com os oceanos (cf. Sl 104,6). Orientar os nossos pensamentos para as imensas extensões marinhas, em constante movimento, representa também, em certo sentido, uma oportunidade para pensar em Deus, que acompanha constantemente a sua criação, fazendo com que siga adiante, mantendo-a na existência (cf. S. João Paulo II, Catequese, 7 de Maio de 1986).

Proteger esse bem inestimável todos os dias representa hoje uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador. Infelizmente, muitos esforços desaparecem devido à falta de regulamentação e de controles efetivos, especialmente no que diz respeito à proteção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais (cf. Carta Enc. Laudato si’, 174). Não podemos permitir que os mares e oceanos se preencham com extensões inertes de plástico flutuante. Também para essa emergência somos chamados a nos comprometer, com uma mentalidade ativa, rezando como se tudo dependesse da Providência divina e agindo como se tudo dependesse de nós.

Rezemos para que as águas não sejam um sinal de separação entre os povos, mas de encontro para a comunidade humana. Rezemos para que sejam protegidas aquelas pessoas que arriscam suas vidas em meio às ondas em busca de um futuro melhor. Peçamos ao Senhor e àqueles que realizam o alto serviço da política que as questões mais delicadas da nossa época, tais como as relacionadas com a migração, com a mudança climática, com o direito para todos de usufruírem dos bens primários, sejam encaradas com responsabilidade, com previsão olhando para o amanhã, com generosidade e com espírito de cooperação, especialmente entre os países que têm maior disponibilidade. Rezemos por aqueles que se dedicam ao apostolado do mar, por aqueles que ajudam a refletir sobre os problemas com que se debatem os ecossistemas marítimos, por aqueles que contribuem para o desenvolvimento e a aplicação de regulamentos internacionais sobre os mares que possam tutelar as pessoas, os Países, os bens, os recursos naturais – penso, por exemplo, na fauna e na flora marinha, bem como nos recifes de coral (cf. ibid., 41) ou nos fundos marinhos – e garantindo um desenvolvimento integral na perspectiva do bem comum de toda a família humana e não de interesses particulares. Lembremos também de quantas pessoas trabalham para a proteção das áreas marítimas, para a tutela dos oceanos e sua biodiversidade, para que possam realizar essa tarefa com responsabilidade e honestidade.

Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas, para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. O meu desejo é que as comunidades cristãs contribuam cada vez mais concretamente para que todos possam usufruir desse recurso indispensável, no cuidado respeitoso dos dons recebidos do Criador, em particular dos cursos de água, mares e oceanos.

Vaticano, 1 de Setembro de 2018

Francisco

Vatican.va

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Intenção do Papa Francisco para o mês de Fevereiro: Não à corrupção


Para que aqueles que têm poder material, político ou espiritual não se deixem dominar pela corrupção.

Papa Francisco - Fevereiro 2018

Vídeo do Papa

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domingo, 14 de janeiro de 2018

104º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado: Vamos acolher, proteger, promover e integrar



Vamos acolher, proteger, promover e integrar refugiados como o Papa Francisco nos pede.

https://migrants-refugees.va/

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TEXTO COMPLETO

As migrações, nas suas diversas formas, certamente que não representam um fenómeno novo na história da humanidade.

Elas marcaram profundamente todas as épocas, favorecendo o encontro dos povos e o nascimento de novas civilizações.

Infelizmente, em muitos casos as pessoas são forçadas a deslocar-se por causa dos conflitos, calamidades naturais, perseguições, mudanças climáticas, violências, pobreza extrema e condições de vida indignas.

A nossa resposta comum poderia articular-se em volta de quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.

Acolher

Um acolhimento responsável e digno destes nossos irmãos e irmãs começa pela sua primeira acomodação em espaços adequados e decentes.

Proteger

Referimo-nos a milhões de trabalhadores e trabalhadoras migrantes — e especialmente quantos se encontram numa situação irregular — de pessoas deslocadas e de requerentes de asilo, de vítimas do tráfico humano.

A defesa dos seus direitos inalienáveis, a garantia das suas liberdades fundamentais e o respeito pela sua dignidade são tarefas das quais ninguém se pode eximir.

Promover

Proteger não é suficiente; é necessário promover o desenvolvimento humano integral de migrantes, pessoas deslocadas e refugiados.

A primeira responsabilidade pela promoção humana dos migrantes e das suas famílias pertence às comunidades de origem onde, juntamente com o direito a poder emigrar, deve ser garantido também o direito a não ter que emigrar.

Integrar

A integração, que não é assimilação nem incorporação, constitui um processo bidirecional, que se baseia essencialmente no mútuo reconhecimento da riqueza cultural do outro.


A meu ver, conjugar estes quatro verbos, na primeira pessoa do singular e na primeira pessoa do plural, representa hoje um dever.

Por isso, é importante que os Pactos globais sejam inspirados pela compaixão, clarividência e coragem!

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104º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado: Acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e os refugiados

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO 2018
[14 de janeiro de 2018]

“Acolher, proteger, promover e integrar
os migrantes e os refugiados”



Queridos irmãos e irmãs!

«O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque foste estrangeiro na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Lv 19, 34).

Repetidas vezes, durante estes meus primeiros anos de pontificado, expressei especial preocupação pela triste situação de tantos migrantes e refugiados que fogem das guerras, das perseguições, dos desastres naturais e da pobreza. Trata-se, sem dúvida, dum «sinal dos tempos» que, desde a minha visita a Lampedusa em 8 de julho de 2013, tenho procurado ler sob a luz do Espírito Santo. Quando instituí o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, quis que houvesse nele uma Secção especial (colocada temporariamente sob a minha guia direta) que expressasse a solicitude da Igreja para com os migrantes, os desalojados, os refugiados e as vítimas de tráfico humano.

Cada forasteiro que bate à nossa porta é ocasião de encontro com Jesus Cristo, que Se identifica com o forasteiro acolhido ou rejeitado de cada época (cf. Mt 25, 35.43). O Senhor confia ao amor materno da Igreja cada ser humano forçado a deixar a sua pátria à procura dum futuro melhor.[1] Esta solicitude deve expressar-se, de maneira concreta, nas várias etapas da experiência migratória: desde a partida e a travessia até à chegada e ao regresso. Trata-se de uma grande responsabilidade que a Igreja deseja partilhar com todos os crentes e os homens e mulheres de boa vontade, que são chamados a dar resposta aos numerosos desafios colocados pelas migrações contemporâneas com generosidade, prontidão, sabedoria e clarividência, cada qual segundo as suas possibilidades.

A este respeito, desejo reafirmar que «a nossa resposta comum poderia articular-se à volta de quatro verbos fundados sobre os princípios da doutrina da Igreja: acolher, proteger, promover e integrar».[2]

Considerando o cenário atual, acolher significa, antes de tudo, oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino. Neste sentido, é desejável um empenho concreto para se incrementar e simplificar a concessão de vistos humanitários e para a reunificação familiar. Ao mesmo tempo, espero que um número maior de países adote programas de patrocínio privado e comunitário e abra corredores humanitários para os refugiados mais vulneráveis. Além disso seria conveniente prever vistos temporários especiais para as pessoas que, escapando dos conflitos, se refugiam nos países vizinhos. As expulsões coletivas e arbitrárias de migrantes e refugiados não constituem uma solução idónea, sobretudo quando são feitas para países que não podem garantir o respeito da dignidade e dos direitos fundamentais.[3] Volto a sublinhar a importância de oferecer a migrantes e refugiados um primeiro alojamento adequado e decente. «Os programas de acolhimento difundido, já iniciados em várias partes, parecem facilitar o encontro pessoal, permitir uma melhor qualidade dos serviços e oferecer maiores garantias de bom êxito».[4] O princípio da centralidade da pessoa humana, sustentado com firmeza pelo meu amado predecessor Bento XVI,[5] obriga-nos a antepor sempre a segurança pessoal à nacional. Em consequência, é necessário formar adequadamente o pessoal responsável pelos controlos de fronteira. A condição de migrantes, requerentes de asilo e refugiados exige que lhes sejam garantidos a segurança pessoal e o acesso aos serviços básicos. Em nome da dignidade fundamental de cada pessoa, esforcemo-nos por preferir outras alternativas à detenção para quantos entrem no território nacional sem estar autorizados.[6]

O segundo verbo, proteger, conjuga-se numa ampla série de ações em defesa dos direitos e da dignidade dos migrantes e refugiados, independentemente da sua situação migratória.[7] Esta proteção começa na própria pátria, consistindo na oferta de informações certas e verificadas antes da partida e na sua salvaguarda das práticas de recrutamento ilegal.[8] Tal proteção deveria continuar, na medida do possível, na terra de imigração, assegurando aos migrantes uma assistência consular adequada, o direito de manter sempre consigo os documentos de identidade pessoal, um acesso equitativo à justiça, a possibilidade de abrir contas bancárias pessoais e a garantia duma subsistência vital mínima. Se as capacidades e competências dos migrantes, requerentes de asilo e refugiados forem devidamente reconhecidas e valorizadas, constituem verdadeiramente uma mais-valia para as comunidades que os recebem.[9] Por isso, espero que, no respeito da sua dignidade, lhes seja concedida a liberdade de movimento no país de acolhimento, a possibilidade de trabalhar e o acesso aos meios de telecomunicação. Para as pessoas que decidam regressar ao seu país, sublinho a conveniência de desenvolver programas de reintegração laboral e social. A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança oferece uma base jurídica universal para a proteção dos menores migrantes. É necessário evitar-lhes qualquer forma de detenção por motivo da sua situação migratória, ao mesmo tempo que lhes deve ser assegurado o acesso regular à instrução primária e secundária. Da mesma forma, é preciso garantir-lhes a permanência regular ao chegarem à maioridade e a possibilidade de continuarem os seus estudos. Para os menores não acompanhados ou separados da sua família, é importante prever programas de custódia temporária ou acolhimento.[10] No respeito pelo direito universal a uma nacionalidade, esta deve ser reconhecida e devidamente certificada a todos os meninos e meninas no momento do seu nascimento. A situação de apátrida, em que às vezes acabam por se encontrar migrantes e refugiados, pode ser facilmente evitada através duma «legislação sobre a cidadania que esteja em conformidade com os princípios fundamentais do direito internacional».[11] A situação migratória não deveria limitar o acesso aos sistemas de assistência sanitária nacional e de previdência social, nem à transferência das respetivas contribuições em caso de repatriamento.

Promover significa, essencialmente, empenhar-se por que todos os migrantes e refugiados, bem como as comunidades que os acolhem, tenham condições para se realizar como pessoas em todas as dimensões que compõem a humanidade querida pelo Criador.[12] Dentre tais dimensões, seja reconhecido o justo valor à dimensão religiosa, garantindo a todos os estrangeiros presentes no território a liberdade de profissão e prática da religião. Muitos migrantes e refugiados possuem competências que devem ser devidamente certificadas e avaliadas. Visto «o trabalho humano, pela sua natureza, estar destinado a unir os povos»,[13] encorajo a que se faça tudo o possível para se promover a integração socio-laboral dos migrantes e refugiados, garantindo a todos – incluindo os requerentes de asilo – a possibilidade de trabalhar, percursos de formação linguística e de cidadania ativa e uma informação adequada nas suas línguas originais. No caso de menores migrantes, o seu envolvimento em atividades laborais precisa de ser regulamentado de modo a que se evitem abusos e ameaças ao seu crescimento normal. Em 2006, Bento XVI sublinhava como a família, no contexto migratório, é «lugar e recurso da cultura da vida e fator de integração de valores».[14] A sua integridade deve ser sempre promovida, favorecendo a reunificação familiar – incluindo avós, irmãos e netos – sem nunca o fazer depender de requisitos económicos. No caso de migrantes, requerentes de asilo e refugiados portadores de deficiência, deve ser assegurada maior atenção e apoio. Embora considerando dignos de louvor os esforços feitos até agora por muitos países em termos de cooperação internacional e assistência humanitária, espero que, na distribuição das respetivas ajudas, se considerem as necessidades (como, por exemplo, de assistência médica e social e de educação) dos países em vias de desenvolvimento que acolhem fluxos enormes de refugiados e migrantes e de igual modo se incluam, entre os beneficiários, as comunidades locais em situação de privação material e vulnerabilidade.[15]

O último verbo, integrar, situa-se no plano das oportunidades de enriquecimento intercultural geradas pela presença de migrantes e refugiados. A integração não é «uma assimilação, que leva a suprimir ou a esquecer a própria identidade cultural. O contacto com o outro leva sobretudo a descobrir o seu “segredo”, a abrir-se para ele, a fim de acolher os seus aspetos válidos e contribuir assim para um maior conhecimento de cada um. Trata-se de um processo prolongado que tem em vista formar sociedades e culturas, tornando-as cada vez mais um reflexo das dádivas multiformes de Deus aos homens».[16] Este processo pode ser acelerado pela oferta de cidadania, independentemente de requisitos económicos e linguísticos, e por percursos de regularização extraordinária para migrantes que possuam uma longa permanência no país. Insisto mais uma vez na necessidade de favorecer em todos os sentidos a cultura do encontro, multiplicando as oportunidades de intercâmbio cultural, documentando e difundindo as «boas práticas» de integração e desenvolvendo programas tendentes a preparar as comunidades locais para os processos de integração. Tenho a peito sublinhar o caso especial dos estrangeiros forçados a deixar o país de imigração por causa de crises humanitárias. Estas pessoas necessitam que lhes seja assegurada uma assistência adequada para o repatriamento e programas de reintegração laboral na sua pátria.

De acordo com a sua tradição pastoral, a Igreja está disponível para se comprometer, em primeira pessoa, na realização de todas as iniciativas propostas acima, mas, para se obter os resultados esperados, é indispensável a contribuição da comunidade política e da sociedade civil, cada qual segundo as próprias responsabilidades.

Durante a Cimeira das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque em 19 de setembro de 2016, os líderes mundiais expressaram claramente a vontade de se empenhar a favor dos migrantes e refugiados para salvar as suas vidas e proteger os seus direitos, compartilhando tal responsabilidade a nível global. Com este objetivo, os Estados comprometeram-se a redigir e aprovar até ao final de 2018 dois acordos globais (Global Compacts), um dedicado aos refugiados e outro referente aos migrantes.

Queridos irmãos e irmãs, à luz destes processos já iniciados, os próximos meses constituem uma oportunidade privilegiada para apresentar e apoiar as ações concretas nas quais quis conjugar os quatro verbos. Por isso, convido-vos a aproveitar as várias ocasiões possíveis para partilhar esta mensagem com todos os atores políticos e sociais envolvidos – ou interessados em participar – no processo que levará à aprovação dos dois acordos globais.

Neste dia 15 de agosto, celebramos a solenidade da Assunção de Maria Santíssima ao Céu. A Mãe de Deus experimentou pessoalmente a dureza do exílio (cf. Mt 2, 13-15), acompanhou amorosamente o caminho do Filho até ao Calvário e agora partilha eternamente da sua glória. À sua materna intercessão confiamos as esperanças de todos os migrantes e refugiados do mundo e as aspirações das comunidades que os acolhem, para que todos, no cumprimento do supremo mandamento divino, aprendamos a amar o outro, o estrangeiro, como a nós mesmos.

Vaticano, 15 de agosto de 2017

Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria


FRANCISCO


[1] Cf. Pio XII, Constituição apostólica Exsul Familia, Titulus Primus, I.

[2] Francisco, Discurso aos participantes no Fórum Internacional «Migrações e Paz» (21 de fevereiro de 2017).

[3] Cf. Intervenção do Representante Permanente da Santa Sé na CIII Sessão do Conselho da OIM (26 de novembro de 2013).

[4] Francisco, Discurso aos participantes no Fórum Internacional «Migrações e Paz».

[5] Cf. Carta encíclica Caritas in veritate, 47.

[6] Cf. Intervenção do Observador Permanente da Santa Sé na XX Sessão do Conselho dos Direitos Humanos (22 de junho de 2012).

[7] Cf. Bento XVI, Carta encíclica Caritas in veritate, 62.

[8] Cf. Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e dos Itinerantes, Instrução Erga migrantes caritas Christi, 6.

[9] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no VI Congresso Mundial para a Pastoral dos Migrantes e dos Refugiados (9 de novembro de 2009).

[10] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado (2010); S. Tomasi, Intervenção na XXVI Sessão Extraordinária do Conselho para os Direitos do Homem sobre os direitos humanos dos migrantes (13 de junho de 2014).

[11] Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e dos Itinerantes e Pontifício Conselho Cor Unum, Acolher Cristo nos refugiados e nas pessoas forçadamente desenraizadas (2013), 70.

[12] Cf. Paulo VI, Carta encíclica Populorum progressio, 14.

[13] João Paulo II, Carta encíclica Centesimus annus, 27.

[14] Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (2007).

[15] Cf Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e dos Itinerantes e Pontifício Conselho Cor Unum, Acolher Cristo nos refugiados e nas pessoas forçadamente desenraizadas (2013), 30-31.

[16] João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado em 2005 (24 de novembro de 2004).

Vatican.va

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