a OBSERVATÓRIO DA PAX

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lançamento do Fórum de Jovens da Pax Christi Internacional


Durante o Encontro Mundial da Pax Christi International 2025, realizado em Florença de 5 a 9 de novembro, foi lançado oficialmente o Fórum dos Jovens Pax Christi. O Fórum é uma plataforma para jovens dos 18 aos 35 anos, que desejam comprometer-se, a partir de uma perspectiva centrada nos jovens, com a promoção dos valores e mensagens do Movimento.

Participantes de Inglaterra, França, Itália, Filipinas, Portugal, Coreia do Sul e Estados Unidos tiveram a oportunidade de se encontrarem pessoalmente pela primeira vez em Florença, por ocasião da celebração do 80º aniversário da Pax Christi Internacional. Este encontro permitiu-lhes reunir e trabalhar coletivamente na definição de objetivos comuns e de um compromisso conjunto, que foi oficialmente apresentado durante o evento de lançamento do Fórum dos Jovens.

"Estamos a lutar pelas gerações futuras, pela democracia, pelos direitos humanos e pela justiça", declararam os jovens participantes. "Defendemos um mundo onde os jovens possam crescer sem medo, onde cada voz conte e onde a compaixão supere a divisão. Fazemo-lo não porque seja fácil, mas porque é necessário. A paz não é apenas o nosso sonho: é o nosso dever partilhado para com as gerações futuras."

A partir de 2026, os jovens da Pax Christi procurarão promover uma mensagem global de Não-Violência Ativa, utilizando — e alargando ainda mais — a sua rede, comprometendo-se de forma concreta com a busca de valores universais para uma Paz Justa.

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Compromisso Florença 2025-2030 da Pax Christi Internacional: 80 anos a construir pontes para o futuro

 


Compromisso Florença 2025-2030 da Pax Christi Internacional

80 anos a construir pontes para o futuro

Florença, Itália, novembro de 2025

Onde começámos e onde estamos

Nascida no rescaldo da guerra e da divisão, a Pax Christi iniciou a sua peregrinação há oitenta anos com uma oração pela reconciliação e a convicção de que a paz era possível. Enraizado no Evangelho, alimentado pela Doutrina Social da Igreja Católica e moldado pela coragem de inúmeros construtores da paz ao longo de gerações, o nosso movimento cresceu e tornou-se uma comunidade global comprometida com o poder transformador da não-violência ativa e a paz justa.

Hoje, o nosso mundo está novamente ferido por conflitos violentos, medo e divisão. A violência armada marca todas as regiões, incluindo a Terra Santa, o Sudão e a Ucrânia. As tentativas de resolver crises com a violência multiplicam-se, enquanto a diplomacia e o diálogo recuam. Os valores democráticos estão enfraquecidos, as vozes da dissidência e da consciência enfrentam a intimidação e a repressão e, em algumas nações, os jovens enfrentam novamente o serviço militar obrigatório. O ódio é alimentado para ganhos políticos e a dignidade da vida humana é ameaçada por sistemas que privilegiam o poder, o lucro e a dominação.

A nossa casa comum sofre a violência da exploração e da poluição. A degradação climática intensifica o sofrimento e aprofunda a desigualdade. O deslocamento forçado está entre as consequências mais visíveis desta injustiça. Muitos migrantes e refugiados personificam uma resistência silenciosa e não-violenta, testemunho do anseio pela vida, pela dignidade e por um lugar ao qual pertencer. As economias extrativas, modelos energéticos destrutivos baseados em minerais “críticos”, também impulsionados pela indústria bélica, atingem com mais força os pobres, os povos indígenas, as mulheres e as jovens gerações. No entanto, no meio destas crises, a nossa vocação comum permanece inalterada: testemunhar o amor não-violento de Cristo e construir pontes para o amanhã.

Uma jornada moldada pela esperança

Ao longo de oito décadas, a Pax Christi International testemunhou que a paz floresce onde as relações são restauradas e onde os excluídos são ouvidos. Apoiamos comunidades afetadas por guerras, ocupações militares, racismo, extremismo religioso, destruição ecológica, injustiça e outras formas de violência. Ouvimos a sua sabedoria, partilhamos as suas esperanças e levamos as suas vozes ao mundo. Aprendemos que a paz justa nunca é imposta de cima para baixo, mas nasce da resiliência, da criatividade e da coragem daqueles cujas vidas são profundamente marcadas pela injustiça.

A nossa rede global, composta por leigos, religiosos consagrados, jovens líderes, clérigos e parceiros em todos os continentes, continua a ensinar-nos que a construção da paz é profundamente local e profundamente global. É espiritual e política, contemplativa e ativa, enraizada na vida e na missão de Jesus, o Construtor da Paz.

Focar o futuro com raízes profundas no nosso presente

O pontificado de Leão XIV marca uma nova era e um apelo a construir uma “paz desarmada e desarmante”. A Pax Christi, reunida em Florença, faz seu este apelo, oferecendo testemunhos vivos e alternativas não-violentas a uma cultura de guerra e de múltiplas formas de violência.

O nosso compromisso é traduzir este apelo, a uma “paz desarmada e desarmante”, em ações concretas para o desarmamento pessoal, familiar, coletivo, social e político, oferecendo respostas desarmadas e não-violentas à guerra e a múltiplas formas de violência, como a defesa civil desarmada, a objeção de consciência, a resistência civil, a proteção desarmada em zonas de conflito, a educação para a paz, a mediação, a diplomacia, o diálogo inter-religioso, a justiça restaurativa e o acompanhamento das ações não-violentas face à violência, à guerra e ao autoritarismo.

Reafirmamos o nosso compromisso com a paz justa e a não-violência ativa. Continuaremos a cultivar espaços de encontro, diálogo e cura, e a promover abordagens de segurança que priorizem a dignidade humana, o cuidado com a Criação, a participação equitativa e a proteção dos direitos humanos. A verdadeira segurança nasce da justiça, do Estado de Direito, da solidariedade entre os povos e da proteção e prosperidade da Criação.

Fortaleceremos o nosso compromisso teológico e pastoral com a não-violência evangélica através da Iniciativa Católica para a Não Violência e do Instituto Católico para a Não Violência, caminhando com a Igreja universal na sua busca por aprofundar a compreensão e o compromisso com a missão não-violenta de Jesus. Defenderemos a abolição das armas nucleares, consideradas imorais pelo Papa Francisco, e a regulamentação das armas autónomas, o desarmamento e a diplomacia da paz, bem como a proteção daqueles que defendem os direitos humanos e a Criação. Avaliaremos cuidadosamente o impacto das tecnologias emergentes, especialmente a Inteligência Artificial (IA), assegurando que respeitam a dignidade humana, a verdade e o bem comum.

A nossa ecoespiritualidade continuará a crescer como fonte de sabedoria e renovação. Inspirados pela Laudato Si’ e pela Laudate Deum, trabalharemos ao lado de comunidades que defendem a terra, a água e a vida, e promoveremos uma transição ecológica justa, fundamentada no cuidado, na reverência e na responsabilidade partilhada. O clamor da Terra e o clamor dos pobres permanecem indissociáveis no cerne da nossa missão.

Jovens a liderar a jornada

Neste ano de aniversário, reconhecemos com alegria a liderança dos jovens dentro da Pax Christi Internacional. Não são apenas herdeiros da nossa missão, são co-peregrinos, corresponsáveis pela construção da paz hoje. Através do Fórum de Jovens da Pax Christi Internacional, os jovens líderes de todas as regiões irão aprofundar a sua formação, moldar as nossas prioridades e amplificar a nossa mensagem nas escolas, universidades, comunidades religiosas, movimentos sociais e populares, espaços internacionais e outros grupos. A sua clareza moral, imaginação espiritual e compromisso com a não-violência dão uma nova vida e direção ao nosso movimento e são essenciais para construir pontes para o futuro.

Continuando a Peregrinação

Neste momento de incerteza global, recusamos o desespero. Inspirados pelo Ano Jubilar da Esperança, escolhemos a Esperança, não como um mero sentimento, mas como uma disciplina enraizada na fé e vivida em solidariedade. Continuaremos a construir pontes entre culturas e continentes, entre povos e nações, entre gerações e tradições. Cultivaremos parcerias com outras comunidades cristãs, com pessoas de todas as fés, não crentes e com todos aqueles que trabalham por um mundo onde cada pessoa possa viver com dignidade e paz.

Como movimento global, reafirmamos a nossa corresponsabilidade uns pelos outros e pela nossa missão. Aprofundaremos a nossa colaboração regional, reforçaremos a nossa base organizacional e investiremos nas capacidades necessárias para sustentar um testemunho visível, profético e eficaz no mundo.

Um compromisso renovado a sermos Artesãos da Paz Justa

Ao prosseguirmos a nossa jornada a partir de Florença, fazemo-lo na companhia daqueles que nos precederam e daqueles que nos seguirão. Com humildade, coragem e confiança no Deus da Paz e da Não-Violência, renovamos o nosso compromisso de sermos artesãos da paz justa, zeladores da Criação, companheiros dos vulneráveis e testemunhas ousadas da não-violência de Cristo. Inspirados também por Dilexi Te, afirmamos que o Amor é o fundamento da Paz, a medida pela qual a nossa Fé se torna credível e o nosso compromisso com a não-violência se mantém.

Que possamos permanecer fiéis às pontes que somos chamados a construir, entre comunidades, nações, povos e a Terra ferida que partilhamos.

«A paz que anunciais com a boca,
tende-a ainda mais copiosa nos vossos corações».

São Francisco de Assis (Legenda dos Três Companheiros, cap. 14)

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Dia Mundial da Paz 2023

Dia Mundial da Paz de 2023
"Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da Covid-19 para traçar sendas de paz”


Na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, o Papa faz um convite a refletir sobre as lições deixadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia e indica o caminho para a paz: "É juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos."

"É hora de pararmos um pouco para nos interrogar, aprender, crescer e deixar transformar": este é o convite do Papa Francisco contido na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2023, celebrado no 1º de janeiro.

O tema escolhido pelo Pontífice é "Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da Covid-19 para traçar sendas de paz".

O segredo, aponta o Papa, está na palavra "juntos".

“De facto, as respostas mais eficazes à pandemia foram aquelas que viram grupos sociais, instituições públicas e privadas, organizações internacionais, unidos para responder ao desafio, deixando de lado interesses particulares."

Mas quando o mundo ainda se recuperava do trauma, eis que outro facto colocou a humanidade à dura prova: a guerra na Ucrânia. Francisco fala de "desgraça", "flagelo" que, diferentemente do Covid, foi pilotado por "opções humanas culpáveis". A guerra ceifa vítimas inocentes e as suas consequências vão além-fronteiras, como demonstram o aumento do preço do trigo e energia.

"Não era esta, sem dúvida, a estação pós-Covid que esperávamos ou por que ansiávamos", lamenta o Pontífice, definindo a guerra uma "derrota da humanidade" para a qual ainda não há vacina.

"Com certeza, o vírus da guerra é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provem de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado."

E vem a última pergunta: "Que fazer?"

Antes de mais nada, deixar que Deus transforme os nossos corações. E depois, pensar em termos comunitários. Não existe mais o espaço dos nossos interesses pessoais ou nacionais, mas "é hora de nos comprometermos todos em prol da cura da nossa sociedade e do nosso planeta".

E os desafios, infelizmente, não são poucos: guerras, alterações climáticas, desigualdades, desemprego, migração e o "escândalo dos povos famintos".

"Compartilho estas reflexões com a esperança de que, no novo ano, possamos caminhar juntos valorizando tudo o que a história nos pode ensinar", conclui o Santo Padre.

Adaptado de artigo de Bianca Fraccalvieri – Vatican News


Texto para ajudar a reflexão neste Dia Mundial da Paz

Arrisquemos o perigoso sonho da paz, proclamando a sua possibilidade, concebendo a cura dos conflitos que dividem o nosso mundo e dividem também os nossos próprios corações. Vamos desistir de frustrações e de uma aceitação resignada de "o mundo é assim" como uma inevitabilidade. 

Vamos tomar a sério a saudação enviada por São Paulo aos seus amigos de Corinto há quase 2.000 anos: “Que Deus, nosso Pai, e Jesus Cristo, nosso Senhor, vos deem graça e paz”. Ámen a isto! 

Mas o que significa, abraçar este dom? O que teria de mudar em nós e nos outros? Como teria de mudar o mundo para fazer isto acontecer, e como esta Paz poderia mudar o mundo?

Pode ser útil usar aqui a nossa imaginação, em vez de simplesmente enumerar os passos que nos podem levar do conflito ativo até ao fim da divisão. 

Simplesmente permitindo a possibilidade de que as nossas vidas sejam vividas sob a bandeira da graça e da paz e se tornem sinais destas mesmas duas qualidades – graça e paz – o nosso ser é mudado e o nosso destino é mudado.

E, enquanto estamos aqui, imaginemos também quais as qualidades que seriam necessárias num verdadeiro construtor da paz. Talvez o salmo 39 (40) possa ser o nosso guia. O refrão leva-nos ao ponto de partida certo: "Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade": por um lado, a capacidade de estar presente no momento, em vez de dilacerado e distraído – aqui estou; por outro lado, uma abertura de coração, um desejo de que a minha vida seja mais do que só para mim. É o que o salmista chama de "esperar no Senhor", um encontro que começa a mudar a minha forma de pensar e a minha forma de falar. "(O Senhor) Pôs em meus lábios um cântico novo, um hino de louvor ao nosso Deus". Para ser pacificadores, temos de ser pessoas cujas palavras edificam em vez de deitarem abaixo, portadores de esperança que se recusam a ceder ao cinismo preguiçoso.

O construtor da paz é também alguém que escuta: "Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas abristes-me os ouvidos". Sim, isso significa escutar a Palavra de Deus, mas significa também escutar a realidade em que vivemos, escutando especialmente o grito dos pobres e excluídos, as vozes incómodas da dor, mesmo as vozes daqueles que chamamos de "inimigos". Por que é que nos temem? Por que é que, às vezes, nos odeiam?

Antes de podermos esperar pela paz, devemos ser capazes de enfrentar qualquer sombra que impeça o nosso encontro com os nossos irmãos e irmãs num lugar de luz, seja o peso da história ou o peso de estruturas injustas (deles e nossas).

No entanto, além de ouvir, é necessário algo mais, uma vontade de defender a justiça e de falar contra a opressão. O caminho para a paz de coração, mesmo que pareça arrastar-nos para campos de conflito, é poder dizer o que confessa o antigo poeta: "Proclamei a justiça ... não fechei os meus lábios". A justiça de Deus, não a minha justiça; a visão de Deus do florescimento do mundo, não os meus pequenos planos, projetos e preconceitos.

"Se queres a paz, prepara-te para a guerra", escreveu certa vez o antigo general romano Vegetius. Mas todos os nossos preparativos para a guerra ao longo de muitas gerações não nos trouxeram paz. É hora de corrigir esse velho ditado, pelo menos para os cristãos. 

Se queres a paz, põe-te ao serviço da graça de Deus: espera no Senhor; canta o novo cântico de esperança que tem as suas raízes no Evangelho; aprende a ouvir aqueles que aprendemos a ignorar – especialmente as vozes dos pobres e excluídos, mas também os rancores dos nossos inimigos, para tentar entender melhor os nossos conflitos; e, em último caso, recusa-te a ficar calado. Fala pela justiça e contra a opressão, mas sem rancor nem ódio. Que a graça e a paz estejam no coração de tudo o que fazemos e dizemos. 

Traduzido e adaptado de 2023 Peace Sunday Liturgy Booklet, Pax Christi UK, Homily Notes – First Reflection


Proposta de atividade


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domingo, 20 de dezembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 4ª Semana


O ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até chegar ao caso extremo da dark web. Os meios de comunicação digitais podem encerrar o risco de dependência, de isolamento e de progressiva perda de contacto com a realidade concreta, levantando obstáculos ao desenvolvimento de relações interpessoais autênticas. Novas formas de violência são difundidas mediante os social media, por exemplo, o ciberassédio [...].
PAPA FRANCISCO, Cristo vive. Exortação Apostólica pós-sinodal, 2019, n. 88


REFLEXÃO

A propósito do novo livro lançado por Cristina Ferreira, “Pra Cima de Puta”, os portugueses viram-se confrontados com a nova realidade do século XXI, o cyberbullying. E se o título do livro é forte, duro e agressivo, o cyberbullying não fica atrás. Trata-se de assédio virtual, invasivo da privacidade, agressivo, injurioso e difamador. Consiste na “divulgação pública de conteúdos textuais, visuais e áudio que depreciem ou desacreditem alguém (ou um grupo), assim como a intimidação, ameaça e perseguição através de mensagens privadas que ocorra de forma sistemática, recorrente e intencional”. Cabem aqui desde comentários injuriosos, ofensivos, ameaças, humilhações, divulgação de imagens de teor sexual, usurpação de fotografias para colocar em sites de encontros, roubo de identidade, criação de perfis falsos em redes sociais, … 
A internet figura entre as mais importantes ferramentas de pesquisa, utilizada por todos [...]. E se disponibiliza todo um sem fim de informação e lazer social, útil e pertinente, também nos trouxe o cyberbullying, um território carregado com o claro propósito de prejudicar alguém, onde não há margem para o “não tinha intenção”. A intenção é clara e inequívoca: atacar, perseguir, denegrir e fazer mal, quer se trate ou não de uma figura pública, quer se conheça ou não pessoalmente. A troco de nada [...] passam a ser o alvo perfeito de ataques, ao sabor de um ódio tornado público. Com recurso muitas vezes a perfis falsos, homens e mulheres, jovens e adultos, escondidos por um écran, num sentimento de impunidade, vão destilando ódio nas redes sociais, de forma cobarde, criminosa e censurável. 
É preciso dizer que não são apenas as figuras públicas os alvos dos ataques. Somos (ou podemos ser) todos. Quando menos se espera podemos estar a ser perseguidos, vítimas da obsessão de alguém, que passa a enviar todo o tipo de mensagens e comentários, ofensivos e ameaçadores. E se há quem ignore essas vozes que desconhecem a bondade, a tolerância e o respeito, há muitos outros, e de forma especial os mais jovens, que sofrem o pão que o diabo amassou. Foi o caso de Amanda Todd, vítima desde os 12 anos de cyberbullying e que aos 15 se suicidou… 
Quando abro um vídeo que revela a intimidade sexual de alguém que não consentiu na divulgação, quando partilho uma foto que atenta contra os direitos de outra pessoa, estou a ser cúmplice e a alimentar o cyberbullying, estou a contribuir para colocar em marcha a corrente de maldade que corrói e abala as estruturas da humanidade no século XXI. E isto precisa ser dito, precisa ser educado, precisa ser ensinado, sob pena de tudo isto passar a ser encarado com normalidade. [...]
CARLA RODRIGUES, Quando um teclado me define.
In Igreja Viva. Suplemento do Diário do Minho. 3 de dezembro 2020, p. 2.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

54º Dia Mundial da Paz 2021 - A cultura do cuidado como percurso de paz

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO 54º DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE JANEIRO DE 2021 
A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ 

1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados. 

O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis.[1] 

É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição. 

Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer. [+]

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domingo, 13 de dezembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 3ª Semana


 (...) o termo ‘discurso de ódio’ engloba todas as formas de expressão que propaguem, incitem, promovam ou justifiquem o ódio racial, a xenofobia, o antissemitismo ou outras formas de ódio baseadas na intolerância, incluindo: a intolerância expressa por nacionalismo agressivo e etnocentrismo, discriminação e hostilidade contra minorias, pessoas migrantes e pessoas descendentes de migrantes.
CONSELHO DA EUROPA, Comité de Ministros, Recomendação nº. (97) 20


REFLEXÃO

O ódio está a ganhar terreno em todo o mundo. 
Uma onda ameaçadora de intolerância e violência baseada no ódio tem como alvo fiéis de muitas religiões em todo o mundo. Infelizmente, estes cruéis incidentes estão a tornar-se frequentes.
Nos últimos meses, vimos judeus assassinados em sinagogas, as suas lápides profanadas com suásticas, muçulmanos mortos a tiros em mesquitas, os seus locais de cultos vandalizados, cristãos mortos durante as orações e as suas igrejas incendiadas.
Além destes ataques horríveis, uma retórica cada vez mais repugnante está a ser dirigida contra grupos religiosos, mas também contra minorias, migrantes, refugiados, mulheres e os chamados "outros". 
À medida que o fogo do ódio se propaga como um incêndio arrasador, as redes sociais estão a ser exploradas para promover a intolerância. Os movimentos neonazis e a supremacia branca ganham adeptos e a retórica incendiária está a ser utilizada para proveito político.
O ódio está a deixar de ser residual, tanto nas democracias liberais como nos regimes autoritários, lançando uma sombra sobre a humanidade. [...]
Reconhecemos o discurso do ódio como um ataque à tolerância, inclusão, diversidade e à própria essência das nossas normas e princípios de direitos humanos.
De um modo mais geral, o ódio prejudica a coesão social, corrói os valores partilhados e pode lançar as bases para a violência, fazendo retroceder a causa da paz, estabilidade, desenvolvimento sustentável e dignidade humana.
Nas últimas décadas, o discurso de ódio tem sido precursor de crimes atrozes, incluindo o genocídio, do Ruanda à Bósnia, até ao Camboja.
Temo que o mundo esteja a chegar a outro momento agudo na luta contra o ódio. [...]
Aos que insistem em usar o medo para dividir as comunidades, devemos dizer que a diversidade é uma riqueza, nunca uma ameaça.
Um espírito profundo e sustentado de respeito e recetividade mútuos pode transcender publicações e tweets disparados numa fração de segundo. Nós nunca devemos esquecer, afinal de contas, que cada um de nós é um “outro” para alguém, em algum lugar. Não pode haver ilusão de segurança quando o ódio é generalizado.
Como parte da humanidade, é nosso dever cuidar uns dos outros.
Naturalmente, todas as ações destinadas a abordar e a confrontar o discurso do ódio devem ser consistentes com os direitos humanos fundamentais.
Abordar o discurso do ódio não significa limitar ou proibir a liberdade de expressão. Significa impedir que o discurso de ódio se transforme em algo mais perigoso, particularmente incitação à discriminação, hostilidade e violência, o que é proibido pelo direito internacional.
Precisamos de tratar o discurso do ódio como lidamos com todos os atos maliciosos: condenando-os, recusando amplificá-los, combatendo-os com a verdade e incentivando os perpetradores a mudar o seu comportamento.
É hora de intensificar a luta contra o antissemitismo, o ódio antimuçulmano, a perseguição aos cristãos e todas as outras formas de racismo, xenofobia e intolerância.
Os governos, a sociedade civil, o setor privado e os órgãos de comunicação social têm papéis importantes a desempenhar. Os líderes políticos e religiosos têm uma responsabilidade especial de promover a coexistência pacífica.
O ódio é um perigo para todos e, portanto, esta luta deve ser uma tarefa de todos. 
Juntos, podemos apagar o fogo do ódio e defender os valores que nos unem numa só família humana.

ANTÓNIO GUTERRES, O discurso de ódio, um incêndio arrasador.
In https://unric.org/pt/o-discurso-de-odio-um-incendio-arrasador

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domingo, 6 de dezembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 2ª Semana


Isto é uma maçã.
Algumas pessoas podem tentar dizer-lhe que isto é uma banana.
Podem gritar “banana, banana, banana”, uma e outra vez.
Podem escrever BANANA, em maiúsculas.
E pode até começar a acreditar que isto é uma banana.
Mas não é.
Isto é uma maçã.
Clip publicitário da CNN, mostrando uma maçã. In https://youtu.be/nuTEeCNBfYE


REFLEXÃO

A eficácia das fake news fica-se a dever, em primeiro lugar, à sua natureza mimética, ou seja, à capacidade de se apresentar como plausíveis. Falsas mas verosímeis, tais notícias são capciosas, no sentido que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários, apoiando-se sobre estereótipos e preconceitos generalizados no seio dum certo tecido social, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração. A sua difusão pode contar com um uso manipulador das redes sociais e das lógicas que subjazem ao seu funcionamento: assim os conteúdos, embora desprovidos de fundamento, ganham tal visibilidade que os próprios desmentidos categorizados dificilmente conseguem circunscrever os seus danos.
A dificuldade em desvendar e erradicar as fake news é devida também ao facto de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogéneos e impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes. Esta lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação (que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo), corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas. O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Deste modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade. [...]
Nenhum de nós se pode eximir da responsabilidade de contrastar estas falsidades. Não é tarefa fácil, porque a desinformação se baseia muitas vezes sobre discursos variegados, deliberadamente evasivos e subtilmente enganadores, valendo-se por vezes de mecanismos refinados. Por isso, são louváveis as iniciativas educativas que permitem apreender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento. Igualmente louváveis são as iniciativas institucionais e jurídicas empenhadas na definição de normativas que visam circunscrever o fenómeno, e ainda iniciativas, como as empreendidas pelas tech e media company, idóneas para definir novos critérios capazes de verificar as identidades pessoais que se escondem por detrás de milhões de perfis digitais.
Mas a prevenção e identificação dos mecanismos da desinformação requerem também um discernimento profundo e cuidadoso. Com efeito, é preciso desmascarar uma lógica, que se poderia definir como a «lógica da serpente», capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar. Trata-se da estratégia utilizada pela serpente – «o mais astuto de todos os animais», como diz o livro do Génesis (cf. 3, 1-15) – a qual se tornou, nos primórdios da humanidade, artífice da primeira fake news, que levou às trágicas consequências do pecado, concretizadas depois no primeiro fratricídio (cf. Gn 4) e em inúmeras outras formas de mal contra Deus, o próximo, a sociedade e a criação. [...]
Este episódio bíblico revela [...] um facto essencial para o nosso tema: nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos.
De facto, está em jogo a nossa avidez. As fake news tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que carateriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações económicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder, ter e gozar, que, em última instância, nos torna vítimas de um embuste muito mais trágico do que cada uma das suas manifestações: o embuste do mal, que se move de falsidade em falsidade para nos roubar a liberdade do coração. Por isso mesmo, educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem «mordendo a isca» em cada tentação.
PAPA FRANCISCO, "A verdade vos tornará livres" (Jo 8, 32). Fake news e jornalismo de paz.
Mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2018.
In http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html.

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domingo, 29 de novembro de 2020

Semeai palavras de bem... Reflexões para o Advento 2020 - 1ª Semana


No mundo digital estão em jogo ingentes interesses económicos, capazes de fomentar formas de controlo tão subtis como invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático. O funcionamento de muitas plataformas acaba por favorecer, amiúde, o encontro entre pessoas que pensam do mesmo modo, dificultando a confrontação entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios. A proliferação das fake news é expressão de uma cultura que perdeu o sentido da verdade e submete os factos a interesses particulares. A reputação das pessoas corre perigo mediante julgamentos sumários online. Tal fenómeno também afeta a Igreja e os seus pastores.
PAPA FRANCISCO, Cristo vive. Exortação Apostólica pós-sinodal, 2019, n. 89


REFLEXÃO

O oitavo mandamento, «não levantarás falso testemunho», já deixou de se recomendar até às crianças. Está espalhado o hábito de introduzir distinções que preveem mentiras boas, mentiras úteis, até indispensáveis. […] 
A virtude que impede o falso testemunho é a sinceridade. É uma virtude que está diretamente ligada à verdade: em relação à própria pessoa, aos outros e a Deus. Quem é sincero consigo próprio tem a capacidade de honrar a sua dignidade, referenciando-se às leis morais e civis em que acredita. É uma questão de seriedade. […] 
As ofensas à verdade são muitas. A mais grave é a mentira: dizer a falsidade para enganar. É um pecado que parece desaparecido. Simplesmente, transformou-se, tornando-se até tendência. 
O exemplo mais evidente é o uso da internet. Por causa de interesses deploráveis, inserem-se fake news na rede. Para amaciar o impacto usa-se a língua inglesa, quando muitas vezes se escrevem e propõem mentiras pensadas, redigidas e comunicadas para denegrir, declarando o falso. Nem sequer as leis penais dos Estados predispuseram instrumentos adequados que condenem o fenómeno. Em nome da privacy – na realidade, por interesses económicos – criam-se danos em pessoas, grupos, nações. Desencadeiam-se processos que determinam um modo de sentir comum, impelindo para a não obrigatoriedade da verdade, e, consequentemente, limpando a mentira. […] 
A nossa cultura, com referências morais firmes que remontam aos tempos antigos, tem dificuldade em chamar à mentira o seu verdadeiro nome. É um pecado gravíssimo porque, baseando-se na boa-fé das pessoas, cria um costume que deixa em suspenso a referência moral. 
São também numerosos os pecados contra a boa fama do próximo: o juízo temerário verifica-se quando se admite como verdadeira uma presumida culpa de um outro. A difamação pode exprimir-se em maledicência (dizer mal do outro), em murmuração (feita sem que o outro o saiba), e, por fim, em calúnia (atribuir defeitos aos outros) (cf. Catecismo da Igreja Católica nn. 2475-2480). Parecem pecados característicos das “comadres” que murmuram sobre tudo e sobre todos. Na realidade, são muitas vezes cometidos por inveja, para garantir o sucesso pessoal, por simples maldade, frequentemente misturados com amargura e reivindicações. […] 
Há uma maneira mais subtil de não dizer a verdade: é a lisonja que pode tornar-se adulação, para chegar à complacência. Permanecer na verdade hoje é difícil: o ambiente é artificial, as pressões são enormes, as ocasiões para a superficialidade são diárias. Só um grande esforço para viver uma espiritualidade alta, atenta aos valores, ao respeito pelos outros, permite não transgredir o oitavo mandamento. 
Essa atitude pode ser sintetizada na humildade. A capacidade de compreender antes de tudo os próprios limites, que, por sua vez, se traduz na correção das relações. Esta posição ajuda a ser-se leal, sem condescender em perdões superficiais. […] 
A perspetiva evangélica requer limpidez. A liberdade de se ser fiel à verdade, mas também a sua busca e a coragem de professá-la. No tempo do pensamento globalizado, é um útil apelo à justiça, à compreensão, à construção de uma identidade corajosa e transparente.

VINICIO ALBANESI, Ottavo, non dire falsa testimonianza.
In http://www.settimananews.it/teologia/ottavo-non-dire-falsa-testimonianza.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Fratelli tutti: Declaração da Pax Christi Internacional sobre a encíclica do Papa Francisco


Fratelli tutti: Uma base para promover a não-violência num mundo violento

Uma declaração da Pax Christi Internacional sobre a encíclica do Papa Francisco
6 de outubro de 2020


A Pax Christi Internacional está grata pela nova encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti: Sobre a fraternidade e a amizade social. Este documento oportuno enfrenta as realidades de um mundo polarizado, violento e injusto no meio da crise mundial da pandemia COVID-19 e visualiza uma nova forma de avançar para um futuro mais justo, pacífico, igual, esperançoso e não-violento.

Embora Fratelli tutti não use explicitamente o termo não-violência, a encíclica oferece uma base clara para desenvolver e integrar a teologia e a prática da não-violência no ensinamento da Igreja, um esforço ao qual se dedica a Iniciativa Católica de Não-violência da Pax Christi. Em particular, a análise clara do Papa Francisco da violência global, incluindo a violência estrutural, prepara o cenário para uma compreensão mais profunda da não-violência.

No início do documento, o Papa Francisco descreve o “normal injusto”, com as suas estruturas económicas, políticas, sociais e tecnológicas interligadas, que dividem os privilegiados de milhares de outros, incluindo os empobrecidos, os migrantes, as mulheres, os doentes, os idosos. Para transformar o mundo de maneira não-violenta, devemos primeiro vislumbrar a sua violência, e o Papa Francisco não nos poupa nisto.

O papa, porém, não se limita a descrever a realidade do nosso mundo injusto; ele responde-lhe com temas-chave fundamentados numa visão espiritual primordial, que é também a base da ética universal da não-violência: que todos os seres em todos os lugares estão interrelacionados. Inspirado por São Francisco de Assis, que fez da sororidade e da fraternidade de todos os seres uma pedra de toque da sua espiritualidade e ação concreta no mundo, o Papa Francisco dissolve todas as barreiras que nos impedem de ver e viver esta realidade.

Na encíclica, uma série de temas resulta logicamente disto. Se somos todos parentes, se somos todos uma família, então devemos desafiar tudo o que destrói esta unidade: mostrando cuidado radical uns pelos outros; construindo uma cultura de encontro autêntico; tornando o diálogo central na nossa maneira de ser; e colocando em ação a solidariedade com os mais excluídos, despossuídos, desumanizados e sistematicamente sob ataque. O Papa Francisco está aqui a chamar-nos inflexivelmente à vida não-violenta, especialmente iluminada pela sua extensa análise da história do Bom Samaritano.

O Papa Francisco nesta encíclica também age, mesmo quando chama o mundo a fazê-lo. Reitera a inadmissibilidade da pena de morte, mas talvez ainda de grande envergadura é a reflexão do Papa Francisco sobre a guerra, que acreditamos ir mais longe do que qualquer encíclica papal na história.

Ao enfatizar como a tradição da guerra justa fracassa face à guerra moderna, ele escreve: “Já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar duma possível ‘guerra justa’.” Na nota de rodapé nº 242, ele é ainda mais direto: “Santo Agostinho, que elaborou uma ideia da ‘guerra justa’ que hoje já não defendemos, disse que ‘matar a guerra com a palavra e alcançar e conseguir a paz com a paz e não com a guerra, é maior glória do que a dar aos homens com a espada’ (Epistula 229, 2: PL 33, 1020).”

A Pax Christi Internacional e a sua Iniciativa Católica de Não-Violência estão enormemente gratas pela visão do Papa Francisco de tal mundo, que ele compartilha desde o início do seu papado. Em resposta a esta visão, temos explorado a não-violência como uma espiritualidade, um modo de vida, um programa de transformação social e uma ética universal. Fratelli tutti oferece uma base para promover a teologia e a prática fiel da não-violência.

O Papa Francisco convida-nos a uma reflexão sobre a realidade da guerra e sobre outra realidade quando “escolhemos a paz”. Façamos esta viagem com o Papa enquanto fazemos avançar esta reflexão juntos em busca de uma casa comum mais justa, pacífica e não-violenta.


Pode descarregar a versão em PDF aqui.


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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Tempo da Criação: 5. Educação ecológica

Educação ecológica

É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um estilo de vida. [...] Vários são os âmbitos educativos: a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese, e outros. (Laudato Si', nn. 211.213)

Para alcançar uma verdadeira educação ecológica é urgente rever e redefinir programas de ensino, reestruturar escolas à luz da ecologia integral, com o objetivo de criar consciência ecológica, estimular a ação concreta e promover a vocação ecológica de jovens, professores, líderes na área da educação, etc.

Para sugestões de atividades e reflexões no âmbito deste tema, ver as seguintes publicações editadas pela Pax Christi Portugal, disponíveis on-line:

* Viver com Simplicidade, Sustentabilidade e em Solidariedade com os Pobres. Nos 40 anos da Populorum Progressio. 2ª edição: http://www.paxchristiportugal.net/pubs/pub_viver_simplicidade_2ed.htm

* Cuidar da Criação é Construir a Paz. Subsídios para a Celebração do 43º Dia Mundial da Paz: http://www.paxchristiportugal.net/pubs/pub_DMP2010.htm

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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Peritos em paz atentos aos sinais dos tempos

A mudança de época que a humanidade vive é habitada por aquela que indiquei várias vezes como «uma terceira guerra mundial em pedaços ». Bem sabemos como o receio de um conflito mundial, capaz de destruir a humanidade inteira, marcou o nosso passado recente. São João XXIII dedicou a sua última Encíclica ao tema da paz, dirigindo-a a todos os homens de boa vontade [Carta enc. Pacem in terris]. E como deixar de recordar o apelo sincero lançado por São Paulo VI à Assembleia das Nações Unidas: «Jamais uns contra os outros, nunca mais!» (4 de outubro de 1965)?

Infelizmente, devemos constatar que hoje o mundo ainda está mergulhado num clima de guerra e violência recíproca: esta dolorosa realidade não só exige que mantenhamos vivo o apelo à paz, mas quase nos obriga a colocar-nos interrogações decisivas.

Por que num mundo onde a globalização derrubou tantas fronteiras, onde todos — diz-se — estamos interligados, ainda se continua a praticar violência nas relações entre os indivíduos e as comunidades?

Por que quem é diferente de nós muitas vezes nos assusta, de tal forma que tomamos uma atitude de defesa e suspeita que demasiadas vezes se torna agressão hostil?

Por que os governos dos Estados julgam que mostrar a própria força, até com atos de guerra, pode conferir- lhes maior credibilidade aos olhos dos seus cidadãos e aumentar o consenso de que gozam?

A estas e a outras perguntas não se pode responder de maneira genérica e apressada. É necessário um compromisso de estudo, é preciso investir também a nível da pesquisa científica e da formação das novas gerações. Foi por estes motivos que considerei necessário instituir na Pontifícia Universidade Lateranense um Ciclo de estudos sobre Ciências da paz, a partir da convicção de que a Igreja é chamada a empenhar-se «na solução de problemas que afetam a paz, a concórdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos humanos e civis» [Exort. ap. Evangelii gaudium, 65].

Neste compromisso «desempenha um papel central o mundo universitário, lugar símbolo daquele humanismo integral que tem continuamente necessidade de ser renovado e enriquecido, para que saiba produzir uma corajosa renovação cultural que o momento atual exige. Este desafio interpela inclusive a Igreja que, com a sua rede mundial de Universidades eclesiásticas, pode “oferecer o decisivo contributo de fermento, sal e luz do Evangelho de Jesus Cristo e da Tradição viva da Igreja, sempre aberta a novos cenários e propostas”, como recordei recentemente, reformando o ordenamento dos estudos académicos nas Instituições eclesiásticas [Cf. Const. ap. Veritatis gaudium, 2]. Sem dúvida, isto não significa alterar o sentido institucional e as tradições consolidadas das nossas realidades académicas mas, pelo contrário, orientar a sua função na perspetiva de uma Igreja mais acentuadamente “em saída” e missionária. Com efeito, é possível enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com uma capacidade de resposta adequada nos conteúdos e compatível na linguagem, antes de tudo dirigindo-se às novas gerações» [Carta ao Cardeal De Donatis, por ocasião da instituição do Curso de estudos sobre “Ciências da Paz”, 12 de novembro de 2018].

[...]

Gostaria de realçar que um bom pacificador deve ser capaz de amadurecer um olhar sobre o mundo e a história, que não caia num «“excesso de diagnóstico”, que nem sempre é acompanhado por propostas resolutivas e realmente aplicáveis» [Exort. ap. Evangelii gaudium, 50]. Com efeito, trata-se de ir além de uma abordagem puramente sociológica, que tenha a pretensão de abranger toda a realidade de uma forma neutra e assética. Quem deseja tornar-se especialista em Ciências da Paz tem necessidade de aprender a estar atento aos sinais dos tempos: o gosto pela investigação científica e pelo estudo deve ser acompanhado por um coração capaz de compartilhar «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje» [Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 1], a fim de saber fazer um verdadeiro discernimento evangélico.

Precisamos realmente de homens e mulheres bem preparados, dotados de todos os instrumentos necessários para ler e interpretar as dinâmicas sociais, económicas e políticas do nosso tempo. Comprometer-se nestes percursos de formação poderá ser uma válida ajuda para muitos jovens descobrirem que «a vocação laical é, antes de mais nada, a caridade na família, a caridade social e a caridade política: é um compromisso concreto nascido da fé para a construção de uma sociedade nova, é viver no meio do mundo e da sociedade para evangelizar as suas diversas instâncias, fazer crescer a paz, a convivência, a justiça, os direitos humanos, a misericórdia, e assim estender o Reino de Deus no mundo» [Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 168].

Papa Francisco
Prefácio ao livro «Per un sapere della pace» (“Por um saber da paz”), publicado pela Libreria editrice vaticana (Cidade do Vaticano, 2020, 124 páginas)

Fonte: L'Osservatore Romano, Edição Semanal em Português, terça-feira 22 de setembro de 2020, p. 7

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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Um apelo ao Papa Francisco: O caminho da não-violência para um futuro Laudato Si'

A Igreja está a celebrar o quinto aniversário da Laudato Si'. Sobre o cuidado da casa comum, a carta encíclica do Papa Francisco que nos chama a uma nova compreensão de todas as ligações tecidas na criação. Neste tempo de crise é nítido que a não-violência é um pilar crucial na fundação de um mundo pós-pandémico mais justo e sustentável ao qual nos conduz a Laudato Si'.

Convidamos todas e todos (comunidades religiosas católicas, organizações, instituições educativas e indivíduos) a assinar esta mensagem dirigida ao Papa Francisco expressando a nossa gratidão pela sua liderança durante este tempo de crise e o nosso apoio aos ensinamentos da Laudato Si'.

O prazo para assinar termina a meados de setembro

Partilhe o link para esta mensagem o mais amplamente possível.



Um apelo ao Papa Francisco:
O caminho da não-violência para um futuro Laudato Si'

O coronavírus revelou as raízes profundas do racismo e da violência cultural, da injustiça económica, das guerras "travadas aos bocados", das mudanças climáticas e da destruição ambiental que a comunidade humana e o nosso planeta estão a enfrentar. A resposta à pandemia requer uma mudança fundamental do "normal injusto" da violência sistémica e estrutural em todo o mundo, de sistemas que destroem, desumanizam e diminuem, para uma cultura de solidariedade que busca a plenitude de vida para todos.

A não-violência ativa – uma espiritualidade, um modo de vida e um programa de ação social – é a chave para essa mudança global; para o roteiro apresentado em A caminho para o cuidado da casa comum; e para o futuro previsto na Laudato Si'. As duas mãos da não-violência falam claramente a este momento da história: "Não" às violências multidimensionais que assolam o nosso mundo; "Sim" à dignidade humana e ao respeito pela integridade da criação.

A não-violência é um caminho para a conversão, para uma profunda transformação pessoal e social da antiga forma de dominação e de exploração em direção a uma "civilização do amor" (Laudato Si', n. 231). A ética universal da não-violência pode moldar um novo e mais justo "normal" e guiar o crescente movimento massivo de pessoas comuns, incluindo muitos católicos, que anseiam pelo mundo pós-pandémico que o Papa Francisco nos ajudou a imaginar.

Para encorajar ainda mais um processo de conversão ecológica, cremos que uma reflexão complementar à Laudato Si' aprofundaria e alargaria consideravelmente a compreensão e o compromisso católicos da não-violência como um pilar crucial na fundação do desenvolvimento humano integral e de uma "casa comum" mais sustentável.

Estamos profundamente gratos pela esperança e visão que traz a estes tempos difíceis.


Adicione a sua assinatura aqui.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Solidariedade inter-religiosa ao serviço do mundo ferido pelo Covid-19

O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso (PCID) da Santa Sé publicaram o documento "Servir um mundo ferido em solidariedade inter-religiosa: Um apelo cristão à reflexão e ação durante o Covid-19 e no futuro".

Uma nota de imprensa, divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé, informa que o objetivo do CMI e do PCID é “encorajar” Igrejas e organizações cristãs a refletirem sobre “a importância da solidariedade inter-religiosa num mundo ferido pela pandemia Covid-19”. [...] Ler +

Fonte: Agência ECCLESIA

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segunda-feira, 6 de julho de 2020

O Evangelho da Não-violência

Moisés Mato, do Colectivo Noviolencia, escreve no Blog de CJ sobre o evangelho como fonte de inspiração para a práxis não-violenta.

La obediencia al Evangelio y la desobediencia a los poderes fácticos frecuentemente son el anverso y el reverso de la misma realidad. Cuando lo que está en juego es el deber de justicia y el servicio a la verdad, ¿qué le corresponde a Dios y qué al César? Las crónicas de la Iglesia previa a Constantino relatan numerosos hechos que hoy podríamos catalogar de actos de insumisión y desobediencia. Cuando el soldado Maximiliano se presentó ante el procónsul para informarle de que su condición de cristiano le impedía servir en el ejercito argumentó que debía cumplir con el mandato de no matar. Salvó su conciencia, pero perdió la vida. En esas circunstancias no había nada para el César. La forma en como algunos han vivido su fe a los largo de los siglos y las experiencias de noviolencia de los últimos ciento cincuenta años, muchas inspiradas en el Evangelio, dan buena cuenta de que los imperativos de la conciencia en muchas ocasiones no permiten margen a los intereses bastardos del césar de turno. [...] Ler +

Fonte: Blog de CJ

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quinta-feira, 25 de junho de 2020

Para o cristianismo, o próximo vem antes do nacionalismo

Nestes dias parece voltar ao auge, em alguns países, uma forma de nacionalismo religioso-cultural. A religião é usada quer para fins de consenso pessoal, quer para lançar uma mensagem política que se identifica com a fidelidade e a devoção das pessoas a um Estado. Dá-se como adquirido que nele as pessoas têm em comum a identidade, a origem, a história, e que elas sustentam uma homogeneidade ideológica, cultural e religiosa, consolidada pelas fronteiras geopolíticas. Na realidade, no mundo globalizado contemporâneo não há nenhuma, entre as entidades geográficas que podem definir-se por “nações”, que tenha no seu interior uma só identidade homogénea sob o perfil linguístico ou religioso, ou de qualquer outro ponto de vista. Por conseguinte, um nacionalismo radical só é possível se ele elimina essa diversidade. Daqui resulta que é mais do que nunca necessário realizar uma libertadora desconstrução do nacionalismo. Sejamos claros: o nacionalismo nunca pode ser confundido com o patriotismo. Com efeito, enquanto o patriota se orgulha do seu país por aquilo que faz, o nacionalista orgulha-se do seu país, faça o que fizer; o primeiro contribui para criar sentido de responsabilidade, enquanto o segundo conduz a uma arrogância cega que conduz à guerra. [...] Ler +

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

O futuro da não-violência na Doutrina Social da Igreja

A revista Expositions: Interdisciplinary Studies in the Humanities dedicou o seu n.º 2 do volume 13 de 2019, ao tema "O futuro da não-violência na Doutrina Social da Igreja"


Vol 13 No 2 (2019): Special Issue: The Future of Nonviolence in Catholic Social Teaching

Introduction

Introduction - Eli S. McCarthy

Contributions

Renewing Catholicism: Toward Recommitting to Gospel Nonviolence throughout the Roman Catholic Church - Ken Butigan

The Realism Objection to Setting Aside Just War Theory: A Response - David Carroll Cochran

War: Reversing the Works of Mercy - Eileen Egan

Nonviolence: The Witness of a Church of Mercy - Leo Guardado

Nonviolence as a Tradition of Moral Praxis - Kyle B. T. Lambelet

Nonviolence: Building Gospel-based Communities Addressing Situations of Violence Today - Sr. Anne McCarthy, O.S.B.

Catholic Nonviolence: Transforming Military Institutions - Eli S. McCarthy

What Will It Take: Learning from Pope Francis’s Peacebuilding Pedagogy - Gerald W. Schlabach

Pope Francis, Nonviolence, and Catholic Teaching on War - John Sniegocki

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sexta-feira, 29 de maio de 2020

A Responsabilidade da Universidade pela Paz e pela Não-Violência

Artigo publicado na revista Educatio Catholica da Congregação para a Educação Católica do Vaticano, por Ken Butigan, membro do comité executivo da Iniciativa Católica para a Não-Violência e membro do corpo docente da Universidade DePaul.


Neste momento angustiante de violência e injustiça global, cada um de nós é chamado a lidar com esses desafios monumentais e a buscar um novo caminho, mais não-violento. As universidades estão particularmente bem posicionadas para desempenhar um papel de liderança nesta importante tarefa. Isto é especialmente verdade nas universidades católicas à luz da crescente aceitação pela Igreja institucional da ética universal da não-violência e à sua promoção de uma cultura de paz. Em termos teológicos cristãos, este é um momento Kairos - um momento de grande decisão, um momento para escolher um caminho a seguir em direção a um mundo mais não-violento - para o qual as instituições de ensino superior em todo o mundo estão a ser chamadas.

Este artigo examina a poderosa responsabilidade que as universidades católicas possuem para fomentar uma mudança não-violenta, ao refletir sobre as quatro questões seguintes:

* O caminho da paz e da não-violência não é uma especialização estreita, mas um apelo a todos

* O caminho da paz e da não-violência é uma ética abrangente

* O caminho da paz e da não-violência é cada vez mais reconhecido pela Igreja Católica institucional como uma ética central para a vida da Igreja e do mundo, e

* A universidade católica tem um papel especial na integração do caminho da paz e da não-violência na Igreja e no mundo. [...] Ler +

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terça-feira, 19 de maio de 2020

O rastilho das narrativas falsas

As narrativas falsas visam controlar as narrativas nos media e nas redes sociais, manipular a opinião pública, potenciar sentimentos de incerteza e minar os alicerces das democracias. Por isso, é fundamental conhecer a lógica tecnológica, social, política e económica das notícias falsas. Artigo de Rita Figueiras, Docente da Universidade Católica, publicado na revista Além-Mar.


No âmbito do 54.º Dia das Comunicações Sociais, o Santo Padre propõe uma reflexão sobre a importância da narração e da narrativa.

As histórias reais e de ficção têm um papel antropológico estrutural e estruturante na nossa cultura, nomeadamente na forma como: entendemos os valores e as práticas sociais, interpretamos a realidade, construímos a mundividência e a memória colectiva. Neste processo, as notícias, entendidas como um produto culturalmente situado, sinalizam questões e expressam conflitos considerados relevantes para a sociedade, excluindo do seu reportório narrativo acontecimentos que não servem a sua autodefinição.

Desinformação

Na mensagem do papa também encontramos referências às notícias falsas. A informação falsa visa controlar as narrativas nos media e nas redes sociais, manipular a opinião pública, potenciar sentimentos de incerteza e minar os alicerces das democracias. Tal como a designação sugere, estas narrativas são difíceis de identificar. Se algumas são construídas única e exclusivamente baseadas em mentiras, a maioria delas são mais difíceis de discernir, porque misturam informação verdadeira e falsa. É por esta razão que um estudo recente, feito por um instituto associado à reputada Universidade de Oxford, revela que as populações na maioria dos 38 países analisados têm elevados índices de preocupação com as narrativas falsas. Por exemplo, essa preocupação é partilhada por 85% dos brasileiros, por 75% dos portugueses e 70% dos britânicos.

Este receio reflecte a dúvida constante de quem procura e consome informação online, mas também de quem, sem estar à procura, se depara com algo que circula nas redes sociais: O que é verdade? O que é mentira? O que deve ser ignorado? E o que fazer com as notícias que se sabe que são falsas? Como alertar para o assunto sem amplificar as mentiras? Estas são dúvidas reais e que quotidianamente assaltam o espírito de muita gente em muitas partes do mundo. No entanto, em todos os tempos da História e nas mais variadas culturas, sempre houve notícias falsas, quer fosse, por exemplo, sob a forma de rumores ou de propaganda política. Então, porque é que de alguns anos a esta parte se começou a falar tanto em desinformação e em notícias falsas? [...] Ler +

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Papa Francisco: A paz deve ser procurada a qualquer preço

No passado dia 15 de abril, o Papa Francisco, ao retomar as catequeses sobre o tema das Bem-aventuranças, analisou a sétima: «Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9).


Bom dia, estimados irmãos e irmãs!

A catequese de hoje é dedicada à sétima bem-aventurança, a dos “pacificadores”, que são proclamados filhos de Deus. Regozijo-me por ela se realizar imediatamente após a Páscoa, porque a paz de Cristo é fruto da sua morte e ressurreição, como ouvimos na Leitura de São Paulo. Para compreender esta bem-aventurança, é preciso explicar o sentido da palavra “paz”, que pode ser mal entendido ou, às vezes, banalizado.

Devemos orientar-nos entre duas ideias de paz: a primeira é a bíblica, onde aparece a maravilhosa palavra shalom, que exprime abundância, prosperidade, bem-estar. Quando em hebraico se deseja shalom, deseja-se uma vida boa, plena, próspera, mas também de acordo com a verdade e a justiça, as quais terão cumprimento no Messias, Príncipe da paz (cf. Is 9, 6; Mq 5, 4-5).

Depois há o outro sentido, mais generalizado, em que a palavra “paz” é entendida como uma espécie de tranquilidade interior: estou tranquilo, estou em paz. Esta é uma ideia moderna, psicológica e mais subjetiva. Pensa-se geralmente que a paz é sossego, harmonia, equilíbrio interior. Este conceito da palavra “paz” é incompleto e não pode ser absolutizado, porque na vida o desassossego pode ser um importante momento de crescimento. Muitas vezes é o próprio Senhor que semeia a inquietação em nós para irmos ao seu encontro, para o encontrarmos. Neste sentido, é um momento importante de crescimento; enquanto pode acontecer que a tranquilidade interior corresponda a uma consciência domesticada, e não a uma verdadeira redenção espiritual. Muitas vezes o Senhor deve ser um “sinal de contradição” (cf. Lc 2, 34-35), abalando as nossas falsas certezas para nos conduzir à salvação. E nesse momento parece que não temos paz, mas é o Senhor que nos coloca neste caminho para alcançarmos a paz que Ele próprio nos concederá.

Neste ponto devemos recordar que o Senhor entende a sua paz como diferente da humana, a do mundo, quando diz: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá» (Jo 14, 27). A de Jesus é outra paz, diferente da paz mundana.

Perguntemo-nos: como dá o mundo a paz? Se pensarmos nos conflitos bélicos, normalmente as guerras terminam de duas maneiras: ou com a derrota de uma das duas partes, ou com tratados de paz. Só podemos esperar e rezar para que se siga sempre este segundo caminho; mas temos de considerar que a história é uma série interminável de tratados de paz desmentidos por guerras sucessivas, ou pela metamorfose destas mesmas guerras em outras formas ou noutros lugares. Até no nosso tempo, uma guerra “aos pedaços” é travada em vários cenários e de diferentes formas (cf. Homilia no Sacrário Militar de Redipuglia, 13 de setembro de 2014; Homilia em Sarajevo, 6 de junho de 2015; Discurso ao Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, 21 de fevereiro de 2020). Devemos pelo menos suspeitar que, no contexto de uma globalização feita sobretudo de interesses económicos ou financeiros, a “paz” de uns corresponde à “guerra” de outros. E esta não é a paz de Cristo!

Ao contrário, como “dá” a sua paz o Senhor Jesus? Ouvimos São Paulo dizer que a paz de Cristo é “fazer de dois, um só” (cf. Ef 2, 14), anular a inimizade e reconciliar. E o caminho para realizar esta obra de paz é o seu corpo. Com efeito, Ele reconcilia todas as coisas e faz as pazes com o sangue da sua cruz, como o mesmo Apóstolo diz noutro lugar (cf. Cl 1, 20).

E aqui interrogo-me: todos podemos perguntar-nos: portanto, quem são os “pacificadores”? A sétima bem-aventurança é a mais ativa, explicitamente operativa; a expressão verbal é análoga àquela utilizada para a criação no primeiro versículo da Bíblia e indica iniciativa e laboriosidade. O amor pela sua natureza é criativo - o amor é sempre criativo - e procura a reconciliação custe o que custar. São chamados filhos de Deus aqueles que aprenderam a arte da paz e que a praticam, sabem que não há reconciliação sem o dom da própria vida, e que a paz deve ser procurada sempre e de todas as formas. Sempre e de todas as formas: não vos esqueçais disto! Deve ser procurada assim. Esta não é uma obra autónoma, fruto das próprias capacidades; é manifestação da graça recebida de Cristo, que é a nossa paz, que nos fez filhos de Deus.

O verdadeiro shalom e o autêntico equilíbrio interior brotam da paz de Cristo, que vem da sua Cruz e gera uma nova humanidade, encarnada numa infinita plêiade de Santos e Santas, inventivos e criativos, que conceberam formas sempre novas de amar. Os Santos e as Santas que edificam a paz. Esta vida de filhos de Deus, que pelo sangue de Cristo procuram e reencontram os seus irmãos, é a verdadeira felicidade. Bem-aventurados aqueles que seguem este caminho.

E de novo Feliz Páscoa a todos, na paz de Cristo!

Papa Francisco, Audiência geral de quarta-feira, 15 de abril.
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2020/documents/papa-francesco_20200415_udienza-generale.html

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Encontro virtual “Boas práticas, conquistas e perspetivas de futuro a favor da paz e da não-violência”


A Pax Christi Internacional está a celebrar este ano 75 anos de existência e, não fosse a situação atual de pandemia/confinamento, estaria prestes a ter início no Japão a sua Assembleia Mundial.

Em Portugal tínhamos planeado realizar um encontro da Pax Christi no dia 16 de maio, no novo espaço onde instalámos a sede (Basílica da Estrela). Tal não sendo possível e porque não queremos adiar mais este encontro vimos convidar-vos a participar um encontro virtual a ter lugar no dia 6 de junho, entre as 15:00 e as 17:00, para conversar e refletir sobre “Boas práticas, conquistas e perspetivas de futuro a favor da paz e da não-violência”.

Reservem a data na vossa agenda e contamos com a vossa participação.

Para participar neste encontro siga o link abaixo:
https://meetingsemea11.webex.com/meetingsemea11/j.php?MTID=mca7ae14cd7cda84143dc3151c2ac0614

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