a OBSERVATÓRIO DA PAX: Compromisso Florença 2025-2030 da Pax Christi Internacional: 80 anos a construir pontes para o futuro

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Compromisso Florença 2025-2030 da Pax Christi Internacional: 80 anos a construir pontes para o futuro

 


Compromisso Florença 2025-2030 da Pax Christi Internacional

80 anos a construir pontes para o futuro

Florença, Itália, novembro de 2025

Onde começámos e onde estamos

Nascida no rescaldo da guerra e da divisão, a Pax Christi iniciou a sua peregrinação há oitenta anos com uma oração pela reconciliação e a convicção de que a paz era possível. Enraizado no Evangelho, alimentado pela Doutrina Social da Igreja Católica e moldado pela coragem de inúmeros construtores da paz ao longo de gerações, o nosso movimento cresceu e tornou-se uma comunidade global comprometida com o poder transformador da não-violência ativa e a paz justa.

Hoje, o nosso mundo está novamente ferido por conflitos violentos, medo e divisão. A violência armada marca todas as regiões, incluindo a Terra Santa, o Sudão e a Ucrânia. As tentativas de resolver crises com a violência multiplicam-se, enquanto a diplomacia e o diálogo recuam. Os valores democráticos estão enfraquecidos, as vozes da dissidência e da consciência enfrentam a intimidação e a repressão e, em algumas nações, os jovens enfrentam novamente o serviço militar obrigatório. O ódio é alimentado para ganhos políticos e a dignidade da vida humana é ameaçada por sistemas que privilegiam o poder, o lucro e a dominação.

A nossa casa comum sofre a violência da exploração e da poluição. A degradação climática intensifica o sofrimento e aprofunda a desigualdade. O deslocamento forçado está entre as consequências mais visíveis desta injustiça. Muitos migrantes e refugiados personificam uma resistência silenciosa e não-violenta, testemunho do anseio pela vida, pela dignidade e por um lugar ao qual pertencer. As economias extrativas, modelos energéticos destrutivos baseados em minerais “críticos”, também impulsionados pela indústria bélica, atingem com mais força os pobres, os povos indígenas, as mulheres e as jovens gerações. No entanto, no meio destas crises, a nossa vocação comum permanece inalterada: testemunhar o amor não-violento de Cristo e construir pontes para o amanhã.

Uma jornada moldada pela esperança

Ao longo de oito décadas, a Pax Christi International testemunhou que a paz floresce onde as relações são restauradas e onde os excluídos são ouvidos. Apoiamos comunidades afetadas por guerras, ocupações militares, racismo, extremismo religioso, destruição ecológica, injustiça e outras formas de violência. Ouvimos a sua sabedoria, partilhamos as suas esperanças e levamos as suas vozes ao mundo. Aprendemos que a paz justa nunca é imposta de cima para baixo, mas nasce da resiliência, da criatividade e da coragem daqueles cujas vidas são profundamente marcadas pela injustiça.

A nossa rede global, composta por leigos, religiosos consagrados, jovens líderes, clérigos e parceiros em todos os continentes, continua a ensinar-nos que a construção da paz é profundamente local e profundamente global. É espiritual e política, contemplativa e ativa, enraizada na vida e na missão de Jesus, o Construtor da Paz.

Focar o futuro com raízes profundas no nosso presente

O pontificado de Leão XIV marca uma nova era e um apelo a construir uma “paz desarmada e desarmante”. A Pax Christi, reunida em Florença, faz seu este apelo, oferecendo testemunhos vivos e alternativas não-violentas a uma cultura de guerra e de múltiplas formas de violência.

O nosso compromisso é traduzir este apelo, a uma “paz desarmada e desarmante”, em ações concretas para o desarmamento pessoal, familiar, coletivo, social e político, oferecendo respostas desarmadas e não-violentas à guerra e a múltiplas formas de violência, como a defesa civil desarmada, a objeção de consciência, a resistência civil, a proteção desarmada em zonas de conflito, a educação para a paz, a mediação, a diplomacia, o diálogo inter-religioso, a justiça restaurativa e o acompanhamento das ações não-violentas face à violência, à guerra e ao autoritarismo.

Reafirmamos o nosso compromisso com a paz justa e a não-violência ativa. Continuaremos a cultivar espaços de encontro, diálogo e cura, e a promover abordagens de segurança que priorizem a dignidade humana, o cuidado com a Criação, a participação equitativa e a proteção dos direitos humanos. A verdadeira segurança nasce da justiça, do Estado de Direito, da solidariedade entre os povos e da proteção e prosperidade da Criação.

Fortaleceremos o nosso compromisso teológico e pastoral com a não-violência evangélica através da Iniciativa Católica para a Não Violência e do Instituto Católico para a Não Violência, caminhando com a Igreja universal na sua busca por aprofundar a compreensão e o compromisso com a missão não-violenta de Jesus. Defenderemos a abolição das armas nucleares, consideradas imorais pelo Papa Francisco, e a regulamentação das armas autónomas, o desarmamento e a diplomacia da paz, bem como a proteção daqueles que defendem os direitos humanos e a Criação. Avaliaremos cuidadosamente o impacto das tecnologias emergentes, especialmente a Inteligência Artificial (IA), assegurando que respeitam a dignidade humana, a verdade e o bem comum.

A nossa ecoespiritualidade continuará a crescer como fonte de sabedoria e renovação. Inspirados pela Laudato Si’ e pela Laudate Deum, trabalharemos ao lado de comunidades que defendem a terra, a água e a vida, e promoveremos uma transição ecológica justa, fundamentada no cuidado, na reverência e na responsabilidade partilhada. O clamor da Terra e o clamor dos pobres permanecem indissociáveis no cerne da nossa missão.

Jovens a liderar a jornada

Neste ano de aniversário, reconhecemos com alegria a liderança dos jovens dentro da Pax Christi Internacional. Não são apenas herdeiros da nossa missão, são co-peregrinos, corresponsáveis pela construção da paz hoje. Através do Fórum de Jovens da Pax Christi Internacional, os jovens líderes de todas as regiões irão aprofundar a sua formação, moldar as nossas prioridades e amplificar a nossa mensagem nas escolas, universidades, comunidades religiosas, movimentos sociais e populares, espaços internacionais e outros grupos. A sua clareza moral, imaginação espiritual e compromisso com a não-violência dão uma nova vida e direção ao nosso movimento e são essenciais para construir pontes para o futuro.

Continuando a Peregrinação

Neste momento de incerteza global, recusamos o desespero. Inspirados pelo Ano Jubilar da Esperança, escolhemos a Esperança, não como um mero sentimento, mas como uma disciplina enraizada na fé e vivida em solidariedade. Continuaremos a construir pontes entre culturas e continentes, entre povos e nações, entre gerações e tradições. Cultivaremos parcerias com outras comunidades cristãs, com pessoas de todas as fés, não crentes e com todos aqueles que trabalham por um mundo onde cada pessoa possa viver com dignidade e paz.

Como movimento global, reafirmamos a nossa corresponsabilidade uns pelos outros e pela nossa missão. Aprofundaremos a nossa colaboração regional, reforçaremos a nossa base organizacional e investiremos nas capacidades necessárias para sustentar um testemunho visível, profético e eficaz no mundo.

Um compromisso renovado a sermos Artesãos da Paz Justa

Ao prosseguirmos a nossa jornada a partir de Florença, fazemo-lo na companhia daqueles que nos precederam e daqueles que nos seguirão. Com humildade, coragem e confiança no Deus da Paz e da Não-Violência, renovamos o nosso compromisso de sermos artesãos da paz justa, zeladores da Criação, companheiros dos vulneráveis e testemunhas ousadas da não-violência de Cristo. Inspirados também por Dilexi Te, afirmamos que o Amor é o fundamento da Paz, a medida pela qual a nossa Fé se torna credível e o nosso compromisso com a não-violência se mantém.

Que possamos permanecer fiéis às pontes que somos chamados a construir, entre comunidades, nações, povos e a Terra ferida que partilhamos.

«A paz que anunciais com a boca,
tende-a ainda mais copiosa nos vossos corações».

São Francisco de Assis (Legenda dos Três Companheiros, cap. 14)

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