a OBSERVATÓRIO DA PAX

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | XVIII Fórum Ecuménico Jovem - FEJ 2016


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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | «Reconciliação» entre cristãos é esperança para a Europa


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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Do conflito à comunhão

Intenções não faltam para a nossa oração, em especial no Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos. Que Deus nos atenda, purificando os nossos corações e as nossas memórias!

Para a causa ecuménica, 2017 é um ano de grandes desafios. Faz 500 anos que a unidade da Igreja de Cristo, amputada já nessa altura de sua asa oriental, a desde então chamada comunhão ortodoxa, sofreu novo e rude golpe com a emergência da igreja luterana e, pouco depois, da calvinista, da anglicana e de muitas outras derivadas destas, até às neopentecostais dos nossos dias. Tem sido uma penosa história de muito sofrimento, até com guerras de crueldade extrema. Uma tragédia mundial. A Deus pertence o julgamento, a nós a confissão das próprias culpas.

Vivemos outros tempos, não por mérito, mas por graça. Pareceu-me um sonho lindo a visita do Papa Francisco à Suécia em 31 de Outubro passado. Ela foi possível devido a 50 anos de um persistente esforço de reaproximação entre católicos e luteranos, a partir do Concílio Vaticano II. Marco destacado a balizar essa caminhada foi a assinatura, em 1999, da “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação”. No encontro de 31 de Outubro, não se fez uma celebração da Reforma Luterana nem dos 50 anos de reaproximação ecuménica. Em vez disso, a nova “Declaração Conjunta”, que ficará para a história do ecumenismo como o melhor deste encontro memorável, pôs o acento na comemoração. O título é mesmo: “DECLARAÇÃO CONJUNTA por ocasião da comemoração conjunta católico-luterana da Reforma”. Comemorar significa lembrar juntos. Se não se pode refazer a história, pode-se sempre purificar a memória, rememorar com verdade o passado para emendar o presente. Lembrar o passado é como olhar pelo espelho retrovisor de um carro; para ir em frente com segurança não se pode perder a perspectiva do que vai ficando para trás. (Mais ...)

P. José Gaspar

Espiritanos.pt

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Migrações/Refugiados: Responsáveis desafiam portugueses a deixar «indignação de sofá» e agir


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Cáritas lança campanha de inverno a favor dos refugiados | Cáritas Portuguesa

Os refugiados e as populações mais vulneráveis estão a enfrentar condições inumanas resultantes da vaga de frio que assola a Europa. As imagens que têm chegado às nossas casas falam por si. Não podemos ficar indiferentes, sob pena de estas pessoas que fugiram à morte, por causa da guerra, virem a sucumbir pela inclemência do tempo.

Impulsionados pela generosa solidariedade a que já nos habituou o nosso povo, a Cáritas Portuguesa lança uma campanha nacional para apoiar as populações mais vulneráveis e refugiados que se encontram no Leste e Sul da Europa.

Quem quiser colaborar poderá fazê-lo, através da conta "Levo calor aos refugiados", com o
IBAN PT50 0033 0000 0109004015012 do Millenium BCP ou através da entidade/referência 22222/222 222 222 nas redes de Multibanco, até 31 do corrente mês. (Mais ...)

Cáritas Portuguesa

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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Reconciliação - É o amor de Cristo que nos impele

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é uma importante contribuição para que se cumpra a oração que o Senhor Jesus Cristo fez pedindo ao Pai: “Não rogo somente por estes, mas, também, por aqueles que, pela sua palavra, hão-de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um, em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” João 17:20-21.

Neste tempo de oração, o testemunho que é dado fala de um percurso já feito que se tem traduzido em melhor conhecimento mútuo, confiança mútua e na esperança de se poder vir a melhorar a expressão do que se tem vivido. O reconhecimento mútuo do Baptismo já é uma realidade, falta o chegarmos ao ponto de se poder reconhecer os Ministérios e de celebrar a Eucaristia em unidade.

O tema para a semana: “Reconciliação - É o amor de Cristo que nos impele” baseado em II Coríntios 5,14-20, está relacionado com a celebração dos 500 anos da Reforma Protestante. Uma celebração que recorda um movimento renovador na Igreja em 1517 que procurou chamar todos para o essencial da fé cristã, afirmando entre outras coisas, a Autoridade das Sagradas Escrituras, a Justificação pela fé e o Sacerdócio universal de todos os crentes.

A Comissão Luterana-Católica Romana sobre a Unidade publicou um documento que vale a pena referir, “Do Conflito à Comunhão”, o qual reconhece que ambas as tradições abordam a celebração do aniversário da Reforma Protestante numa era ecuménica, após o que foi alcançado nos cinquenta anos de diálogo, com novas compreensões da sua própria história e teologia.

De 18 a 25 de Janeiro de 2017 várias serão as oportunidades para os Cristãos poderem orar pela unidade, nas iniciativas que estão a ser organizadas. Em Portugal acontecerão no Porto, Lisboa, Coimbra, Braga, entre outras localidades.

O COPIC-Conselho Português de Igrejas Cristãs que está organizado desde 1971 e que representa as Igrejas: Lusitana, Metodista, Presbiteriana e Evangélica Alemã do Porto, de acordo com o que está escrito nos seus textos de apresentação, tem por objectivo “dar no contexto religioso e sociológico português um testemunho de consenso, de cooperação, de unidade, em obediência à Palavra do Senhor da Igreja, para glória de Deus que nos chama a viver no meio dos homens e das mulheres a quem Ele nos manda servir.” Este Conselho e a Igreja Católica Romana promoverão uma Celebração Nacional de Oração pela Unidade dos Cristãos, no dia 21 de Janeiro de 2017, às 16 horas, na Igreja dos Congregados, na cidade de Braga. (Mais ...)

Sifredo Teixeira (Bispo Metodista)

Espiritanos.pt



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Revista de Teologia debate “Migrantes e refugiados” | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura


O mais recente número da revista “Humanística e Teologia” é dedicado aos “Migrantes e refugiados”, «à luz da tradição bíblica, onde a existência humana aparece caracterizada pela mobilidade e pela hospitalidade».

O volume editado pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Porto) constitui «um interessante exemplo de como uma questão de atualidade pode ser tratada com muito proveito pela teologia», destaca uma nota enviada hoje ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

A publicação «trata o assunto dos migrantes e refugiados desde a perspetiva teológica e filosófica», porque «o ordenamento do mundo de hoje tem muito que aprender com a amplitude de horizontes que a teologia e filosofia podem abrir». (Mais ...)

Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura


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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Celebrações: Vigilía Ecuménica Jovem


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Mensagem conjunta dos Presidentes da Conferência das Igrejas na Europa (CEC) e do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE)


«Reconciliação – é o amor de Cristo que nos impele»
Mensagem conjunta dos Presidentes da Conferência das Igrejas na Europa (CEC) e do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE) por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 


Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

É o amor de Cristo que nos impele (2 Cor.5,14). Uma grande verdade encontra-se neste versículo da segunda carta de S. Paulo aos Coríntios que inspira este ano a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.

A história do Cristianismo na Europa tem estado marcada por dolorosos períodos de divisão, condenação mútua e inclusivamente violência. Enquanto algumas Igrejas se preparam para celebrar o 500º aniversário do início da Reforma Protestante, temos de recordar de novo o nosso difícil passado. Recordar estes eventos e confrontarmo-nos com a nossa história é uma magnífica oportunidade para renovar o nosso empenho na reparação das feridas e superação das divisões. Dirigimo-nos a Cristo, que reconcilia todos os povos e a criação com Deus, com o propósito de que nos guie nesta tarefa. Com humilde gratidão pelo dom recebido, trabalhamos para a reconciliação através das palavras e das nossas ações.

Hoje celebramos também o crescimento na colaboração e o fomento de um significativo diálogo teológico. O Conselho das Conferências Episcopais da Europa e a Conferência das Igrejas Europeias colaboram desde há 45 anos através do Comité Conjunto em numerosos âmbitos de interesse comum. Também nos une compartilhar os sofrimentos e as alegrias terrenas. A nossa solidariedade com as minorias como a comunidade cigana, o nosso empenho na justiça ecológica e as iniciativas de oração para alcançar a unidade dentro do Corpo de Cristo foram consolidadas através desta relação.

As múltiplas crises que a Europa e os Estados vizinhos foram chamados a enfrentar também nos uniram. Guerras e conflitos, instabilidade política, migração e desafios ecológicos, pobreza material e espiritual, tocam a vida de todos na Europa e para além das suas fronteiras.Com esta crise, todavia, chega também a esperança. Juntos podemos anunciar o Amor de Cristo para a reconciliação através da proteção da Criação, da solidariedade com os mais necessitados, e a defesa da dignidade do povo de Deus.

É através do diálogo que aprofundamos a nossa compreensão reciproca. Através dos testemunhos e ações comuns construímos pontes. Através da oração aprendemos a reconhecer a obra do Espírito Santo. O caminho a seguir pode parecer por vezes pouco claro e sensível, mas temos sempre no coração essa verdade de que "o Amor de Cristo nos impele".

Traduzido do original pelo Departamento de Comunicação da Igreja Lusitana.

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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Entrevista a João Luís Fontes


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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Programa ECCLESIA na Antena 1

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que no hemisfério norte se celebra de 18 a 25 de janeiro, estará em destaque nas emissões do Programa ECCLESIA na Antena 1 da rádio pública, até sexta-feira, pelas 22h45.

Agência Ecclesia


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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Celebrações



Comissão Ecuménica do Porto

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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017 | Reconciliação – É o amor de Cristo que nos impele (cf. 2 Coríntios 5,14-20) | Subsídios para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos em 2017


No contexto do aniversário da Reforma o Conselho de Igrejas na Alemanha (ACK), a convite do Conselho Mundial de Igrejas, assumiu o trabalho de criar o material para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos este ano. Rapidamente ficou claro que os materiais desta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos precisariam de ter dois destaques. Por um lado, deveria haver uma celebração do amor e da graça de Deus, a “justificação da humanidade somente pela graça”, refletindo a ideia principal das Igrejas marcadas pela Reforma de Martinho Lutero. Por outro lado, deveria também ser reconhecida a dor das profundas divisões subsequentes que afligiram a Igreja, com menção aberta de culpa e oferta de uma oportunidade para dar passos em direção à reconciliação.

Recentemente, foi a Exortação Apostólica do papa Francisco Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho) de 2013 que deu o tema para este ano, quando usou a citação “O amor de Cristo nos impele” (nº 9). Com essa frase da Escritura (2 Coríntios 5,14), tomada no contexto de todo o capítulo 5 da segunda carta aos Coríntios, a comissão alemã formulou o tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2017.

Os textos, preparados e publicados conjuntamente pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e pela Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas, estão disponíveis em vários idiomas nas páginas web do Vaticano e do Conselho Mundial das Igrejas.

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lista Mundial da Perseguição 2017: Onde seguir Cristo pode custar a vida


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domingo, 15 de janeiro de 2017

"Migrantes de menor idade, vulneráveis e sem voz": Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2017

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO 2017
[15 de janeiro de 2017]

"Migrantes de menor idade, vulneráveis e sem voz"



Queridos irmãos e irmãs!

«Quem receber um destes meninos em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber, não Me recebe a Mim mas Àquele que Me enviou» (Mc 9, 37; cf. Mt 18, 5; Lc 9, 48; Jo 13, 20). Com estas palavras, os evangelistas recordam à comunidade cristã um ensinamento de Jesus que é entusiasmador mas, ao mesmo tempo, muito empenhativo. De facto, estas palavras traçam o caminho seguro que na dinâmica do acolhimento, partindo dos mais pequeninos e passando pelo Salvador, conduz até Deus. Assim o acolhimento é, precisamente, condição necessária para se concretizar este itinerário: Deus fez-Se um de nós, em Jesus fez-Se menino e a abertura a Deus na fé, que alimenta a esperança, manifesta-se na proximidade amorosa aos mais pequeninos e mais frágeis. Caridade, fé e esperança: estão todas presentes nas obras de misericórdia, tanto espirituais como corporais, que redescobrimos durante o recente Jubileu Extraordinário.

Mas os evangelistas detêm-se também sobre a responsabilidade de quem vai contra a misericórdia: «Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar» (Mt 18, 6; cf. Mc 9, 42; Lc 17, 2). Como não pensar a esta severa advertência quando consideramos a exploração feita por pessoas sem escrúpulos a dano de tantas meninas e tantos meninos encaminhados para a prostituição ou sorvido no giro da pornografia, feitos escravos do trabalho infantil ou alistados como soldados, envolvidos em tráficos de drogas e outras formas de delinquência, forçados por conflitos e perseguições a fugir, com o risco de se encontrarem sozinhos e abandonados?

Assim, por ocasião da ocorrência anual do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, sinto o dever de chamar a atenção para a realidade dos migrantes de menor idade, especialmente os deixados sozinhos, pedindo a todos para cuidarem das crianças que são três vezes mais vulneráveis – porque de menor idade, porque estrangeiras e porque indefesas – quando, por vários motivos, são forçadas a viver longe da sua terra natal e separadas do carinho familiar.

Hoje, as migrações deixaram de ser um fenómeno limitado a algumas áreas do planeta, para tocar todos os continentes, assumindo cada vez mais as dimensões dum problema mundial dramático. Não se trata apenas de pessoas à procura dum trabalho digno ou de melhores condições de vida, mas também de homens e mulheres, idosos e crianças, que são forçados a abandonar as suas casas com a esperança de se salvar e encontrar paz e segurança noutro lugar. E os menores são os primeiros a pagar o preço oneroso da emigração, provocada quase sempre pela violência, a miséria e as condições ambientais, fatores estes a que se associa também a globalização nos seus aspetos negativos. A corrida desenfreada ao lucro rápido e fácil traz consigo também a propagação de chagas aberrantes como o tráfico de crianças, a exploração e o abuso de menores e, em geral, a privação dos direitos inerentes à infância garantidos pela Convenção Internacional sobre os Direitos da Infância.

Pela sua delicadeza particular, a idade infantil tem necessidades únicas e irrenunciáveis. Em primeiro lugar, o direito a um ambiente familiar saudável e protegido, onde possam crescer sob a guia e o exemplo dum pai e duma mãe; em seguida, o direito-dever de receber uma educação adequada, principalmente na família e também na escola, onde as crianças possam crescer como pessoas e protagonistas do seu futuro próprio e da respetiva nação. De facto, em muitas partes do mundo, ler, escrever e fazer os cálculos mais elementares ainda é um privilégio de poucos. Além disso todos os menores têm direito de brincar e fazer atividades recreativas; em suma, têm direito a ser criança.

Ora, de entre os migrantes, as crianças constituem o grupo mais vulnerável, porque, enquanto assomam à vida, são invisíveis e sem voz: a precariedade priva-as de documentos, escondendo-as aos olhos do mundo; a ausência de adultos, que as acompanhem, impede que a sua voz se erga e faça ouvir. Assim, os menores migrantes acabam facilmente nos níveis mais baixos da degradação humana, onde a ilegalidade e a violência queimam numa única chama o futuro de demasiados inocentes, enquanto a rede do abuso de menores é difícil de romper.

Como responder a esta realidade?

Em primeiro lugar, tornando-se consciente de que o fenómeno migratório não é alheio à história da salvação; pelo contrário, faz parte dela. Relacionado com ele está um mandamento de Deus: «Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito» (Ex 22, 20); «amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito» (Dt 10, 19). Este fenómeno constitui um sinal dos tempos, um sinal que fala da obra providencial de Deus na história e na comunidade humana tendo em vista a comunhão universal. Embora sem ignorar as problemáticas e, frequentemente, os dramas e as tragédias das migrações, bem como as dificuldades ligadas com o acolhimento digno destas pessoas, a Igreja encoraja a reconhecer o desígnio de Deus também neste fenómeno, com a certeza de que ninguém é estrangeiro na comunidade cristã, que abraça «todas as nações, tribos, povos e língua» (Ap 7, 9). Cada um é precioso – as pessoas são mais importantes do que as coisas – e o valor de cada instituição mede-se pelo modo como trata a vida e a dignidade do ser humano, sobretudo em condições de vulnerabilidade, como no caso dos migrantes de menor idade.

Além disso, é preciso apostar na proteção, na integração e em soluções duradouras.

Em primeiro lugar, trata-se de adotar todas as medidas possíveis para garantir proteção e defesa aos menores migrantes, porque estes, «com frequência, acabam na estrada deixados a si mesmos e à mercê de exploradores sem escrúpulos que, muitas vezes, os transformam em objeto de violência física, moral e sexual» (Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2008).

Aliás a linha divisória entre migração e tráfico pode tornar-se às vezes muito sutil. Há muitos fatores que contribuem para criar um estado de vulnerabilidade nos migrantes, especialmente nos menores: a indigência e a falta de meios de sobrevivência – a que se vêm juntar expectativas irreais inculcadas pelos meios de comunicação –; o baixo nível de alfabetização; o desconhecimento das leis, da cultura e, frequentemente, da língua dos países que os acolhem. Tudo isto torna-os, física e psicologicamente, dependentes. Mas o incentivo mais forte para a exploração e o abuso das crianças é a demanda. Se não se encontra um modo de intervir com maior rigor e eficácia contra os exploradores, não será possível acabar com as inúmeras formas de escravidão de que são vítimas os menores.

Por isso, é preciso que os imigrantes, precisamente para o bem dos seus filhos, colaborem sempre mais estreitamente com as comunidades que os recebem. Olhamos, com muita gratidão, para os organismos e instituições, eclesiais e civis, que, com grande esforço, oferecem tempo e recursos para proteger os menores das mais variadas formas de abuso. É importante que se implementem colaborações cada vez mais eficazes e incisivas, fundadas não só na troca de informações, mas também no fortalecimento de redes capazes de assegurar intervenções tempestivas e capilares. Isto sem subestimar que a força extraordinária das comunidades eclesiais se revela sobretudo quando há unidade de oração e comunhão na fraternidade.

Em segundo lugar, é preciso trabalhar pela integração das crianças e adolescentes migrantes. Eles dependem em tudo da comunidade dos adultos e, com muita frequência, a escassez de recursos financeiros torna-se impedimento à adoção de adequadas políticas de acolhimento, assistência e inclusão. Consequentemente, em vez de favorecer a inserção social dos menores migrantes, ou programas de repatriamento seguro e assistido, procura-se apenas impedir a sua entrada, favorecendo assim o recurso a redes ilegais; ou então, são reenviados para o seu país de origem, sem antes se assegurar de que tal corresponda a seu «interesse superior» efetivo.

A condição dos migrantes de menor idade é ainda mais grave quando se encontram em situação irregular ou quando estão ao serviço da criminalidade organizada. Nestes casos, vêem-se muitas vezes destinados a centros de detenção. De facto, não é raro acabarem presos e, por não terem dinheiro para pagar a fiança ou a viagem de regresso, podem ficar reclusos por longos períodos, expostos a abusos e violências de vário género. Em tais casos, o direito de os Estados gerirem os fluxos migratórios e salvaguardarem o bem comum nacional deve conjugar-se com o dever de resolver e regularizar a posição dos migrantes de menor idade, no pleno respeito da sua dignidade e procurando ir ao encontro das suas exigências, quando estão sozinhos, mas também das exigências de seus pais, para bem de todo o núcleo familiar.

Fundamental é ainda a adoção de procedimentos nacionais adequados e de planos de cooperação concordados entre os países de origem e de acolhimento, tendo em vista a eliminação das causas da emigração forçada dos menores.

Em terceiro lugar, dirijo a todos um sentido apelo para que se busquem e adotem soluções duradouras. Tratando-se de um fenómeno complexo, a questão dos migrantes de menor idade deve ser enfrentada na raiz. Guerras, violações dos direitos humanos, corrupção, pobreza, desequilíbrios e desastres ambientais fazem parte das causas do problema. As crianças são as primeiras a sofrer com isso, suportando às vezes torturas e violências corporais, juntamente com as morais e psíquicas, deixando nelas marcas quase sempre indeléveis.

Por isso, é absolutamente necessário enfrentar, nos países de origem, as causas que provocam as migrações. Isto requer, como primeiro passo, o esforço de toda a Comunidade Internacional para extinguir os conflitos e as violências que constringem as pessoas a fugir. Além disso, impõe-se uma visão clarividente, capaz de prever programas adequados para as áreas atingidas pelas mais graves injustiças e instabilidades, para que se garanta a todos o acesso ao autêntico desenvolvimento que promova o bem de meninos e meninas, esperanças da humanidade.

Por fim, desejo dirigir-vos uma palavra, a vós que caminhais ao lado de crianças e adolescentes pelas vias da emigração: eles precisam da vossa ajuda preciosa; e também a Igreja tem necessidade de vós e apoia-vos no serviço generoso que prestais. Não vos canseis de viver, com coragem, o bom testemunho do Evangelho, que vos chama a reconhecer e acolher o Senhor Jesus presente nos mais pequenos e vulneráveis.

Confio todos os menores migrantes, as suas famílias, as suas comunidades e vós que os seguis de perto à proteção da Sagrada Família de Nazaré, para que vele por cada um e a todos acompanhe no caminho; e, à minha oração, uno a Bênção Apostólica.

Cidade do Vaticano, 8 de setembro de 2016.

FRANCISCO

Vatican.va

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

UM APELO À IGREJA CATÓLICA A COMPROMETER-SE DE NOVO COM A CENTRALIDADE DA NÃO-VIOLÊNCIA EVANGÉLICA | Declaração e questões para discussão/reflexão pessoal e em grupo

Declaração final da conferência "Não-violência e Paz Justa: Contributo para a compreensão e compromisso católicos com a não-violência"
Roma, 11-13 abril de 2016.


Antes de ler a declaração, tenha em consideração as seguintes perguntas: O que significa para si a frase “não-violência evangélica”? Quem são os seus heróis da não-violência? Como pratica a não-violência? Como relaciona a Igreja com a não-violência? Como é que Jesus é não-violento e o que é que isso significa para o seu discipulado e para a Igreja?

As questões para a reflexão estão em negrito e em itálico. Este documento também está disponível em formato PDF.




UM APELO À IGREJA CATÓLICA A COMPROMETER-SE DE NOVO
COM A CENTRALIDADE DA NÃO-VIOLÊNCIA EVANGÉLICA

Como cristãos comprometidos com um mundo mais justo e pacífico estamos chamados a tomar uma posição clara a favor da não-violência ativa e criativa e a manifestar-nos contra todas as formas de violência. Com esta convicção e em reconhecimento do Ano Jubilar da Misericórdia declarado pelo Papa Francisco, pessoas de muitos países reunimo-nos em Roma para a Conferência sobre Não-violência e Paz Justa patrocinada pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz e pela Pax Christi Internacional, entre 11 e 13 de abril de 2016.

A nossa assembleia, povo de Deus vindo de África, Américas, Ásia, Europa, Médio Oriente e Oceânia incluiu pessoas leigas, teólogos, membros de congregações religiosas, padres e bispos. Muitos de nós vivemos em comunidades que experimentam a violência e a opressão. Todos somos praticantes da justiça e da paz. Estamos agradecidos pela mensagem do Papa Francisco*** à nossa conferência: “a reflexão para relançar o percurso da não-violência, e em especial da não-violência ativa, constitui um necessário e positivo contributo”.

O que pode fazer em resposta ao pedido do Papa Francisco para revitalizar “o percurso da não-violência, e em especial da não-violência ativa”?


OLHANDO PARA O NOSSO MUNDO HOJE

Vivemos numa época de extenso sofrimento, trauma generalizado e medo relacionados com a militarização, a injustiça económica, as alterações climáticas e milhares de outras formas específicas de violência. Neste contexto de violência normalizada e sistémica, aqueles de entre nós que vivem na tradição cristã, estamos chamados a reconhecer a centralidade da não-violência ativa na visão e na mensagem de Jesus; na vida e na praxis da Igreja Católica; e na nossa vocação de longo prazo de curar e reconciliar tanto as pessoas como o planeta.

O que significa para si, para a sua Igreja local e para a Igreja mundial a frase iniciada por “Neste contexto de violência normalizada e sistémica...”?

Alegramo-nos com as ricas experiências concretas de pessoas comprometidas no trabalho pela paz em todo o mundo, de quem escutamos muitas histórias durante esta conferência. As e os participantes compartiram as suas experiências de corajosas negociações com atores armados no Uganda e na Colômbia; o trabalho para proteger o Artigo 9, a cláusula de paz da Constituição japonesa; o acompanhamento na Palestina; e a educação para a paz a nível nacional nas Filipinas. Essas experiências iluminam a criatividade e o poder das práticas não-violentas em muitas e diversas situações de conflito violento potencial ou real. De facto, investigações académicas recentes demonstraram que as estratégias de resistência não-violenta são duas vezes mais eficazes que as estratégias violentas.

Onde vê atualmente “a criatividade e o poder das práticas não-violentas em muitas e diversas situações de conflito violento potencial ou real”?

Chegou o momento de a nossa Igreja ser um testemunho vivo e de investir muitos mais recursos humanos e financeiros na promoção de uma espiritualidade e prática da não-violência ativa, e na formação e capacitação das nossas comunidades católicas em práticas não-violentas eficazes. Em tudo isto, Jesus é a nossa inspiração e o nosso modelo.

Concorda com a afirmação: “Chegou o momento de a nossa Igreja ser um testemunho vivo e de investir muitos mais recursos humanos e financeiros na promoção de uma espiritualidade e prática da não-violência ativa, e na formação e capacitação das nossas comunidades católicas em práticas não-violentas eficazes”? Como pode ajudar a Igreja a promover a não-violência? De que modo “Jesus é a nossa inspiração e o nosso modelo” para isto?


JESUS E A NÃO-VIOLÊNCIA

No seu tempo, carregado de violência estrutural, Jesus proclamou uma nova ordem, não-violenta, enraizada no amor incondicional de Deus. Jesus chamou os seus discípulos a amarem os seus inimigos (Mateus 5,44), que inclui respeitar a imagem de Deus em todas as pessoas; a oferecerem resistência não-violenta a quem faz mal (Mateus 5,39); a converterem-se em construtores de paz; a perdoarem e a arrependerem-se; e a serem abundantemente misericordiosos (Mateus 5-7). Jesus encarnou a não-violência ao resistir ativamente à desumanização sistémica, como quando desafiou a lei do Sabat para curar o homem com a mão paralisada (Marcos 3,1-6); quando confrontou os poderosos no Templo e o purificou (João 2,13-22); quando pacífica mas decididamente desafiou os homens que acusavam uma mulher de adultério (João 8,1-11); quando na noite antes de morrer ordenou a Pedro não usar a espada (Mateus 26,52).

Examine cada uma das referências bíblicas e discuta o que é que elas significam para si. O que é a nova ordem não-violenta de Jesus? Como “amamos os nossos inimigos”? Como “oferecemos resistência não violenta àquele que faz o mal”? Como pode ser um construtor da paz? O que significa para si e para a igreja global afirmar que Jesus “encarnou a não-violência” e “resistiu ativamente ao mal”? O que significa para nós hoje o último mandamento de Jesus: “não usar a espada”?

Nem passiva nem débil, a não-violência de Jesus foi o poder do amor em ação. Na sua visão e obras Ele é a revelação e a encarnação do Deus Não-violento, uma verdade especialmente iluminada na Cruz e na Ressurreição. Ele chama-nos a desenvolver a virtude da construção não-violenta da paz.
Como é que Jesus é “a revelação e a encarnação do Deus Não-violento, uma verdade especialmente iluminada na Cruz e na Ressurreição”?
É claro que a Palavra de Deus, o testemunho de Jesus, não devem nunca ser utilizados para justificar a violência, a injustiça ou a guerra. Confessamos que o povo de Deus traiu muitas vezes esta mensagem central do Evangelho ao participar em guerras, perseguição, opressão, exploração e discriminação.

Como é que a Igreja, o Povo de Deus, “traiu muitas vezes esta mensagem central do Evangelho ao participar em guerras, perseguição, opressão, exploração e discriminação”? O que podemos fazer para desfazer esta traição global da não-violência evangélica, do Jesus não-violento?

Cremos que não existe “guerra justa”. Com demasiada frequência, a “teoria da guerra justa” foi utilizada para respaldar e não para prevenir ou limitar a guerra. Sugerir que uma “guerra justa” é possível também debilita o imperativo moral de desenvolver instrumentos e capacidades para a transformação não-violenta dos conflitos.

Desde o século IV a Igreja tem defendido a chamada “teoria da guerra justa”. Com o desenvolvimento do armamento moderno e do fracasso da guerra, bem como da redescoberta da não-violência de Jesus, o que pensa da afirmação: “Cremos que não existe ‘guerra justa’”? Se a Igreja abandonasse a teoria da guerra justa, o que significaria isso para a Igreja e para o mundo? O que significaria colocar toda a nossa segurança em Deus e aplicar a metodologia da não-violência evangélica a situações globais de conflito internacional?
Discuta a afirmação de que a “teoria da guerra justa” foi utilizada para respaldar e não para prevenir ou limitar a guerra e debilita o imperativo moral de desenvolver instrumentos e capacidades para a transformação não-violenta dos conflitos.

Necessitamos de um novo quadro de referência que seja consistente com a não-violência evangélica. Um outro caminho vai-se desenvolvendo claramente no recente ensinamento social católico. O Papa João XXIII escreveu que a guerra não é um meio apropriado para restaurar direitos; o Papa Paulo VI associou paz e desenvolvimento e disse à ONU “nunca mais a guerra”; o Papa João Paulo II disse que “a guerra pertence ao passado trágico, à história”; o Papa Bento XVI disse que “amar o inimigo é o núcleo da revolução cristã”; e o Papa Francisco disse que “a verdadeira força do cristão é o vigor da verdade e do amor, que requer a renúncia a toda a violência. Fé e violência são incompatíveis”. Ele também pediu veementemente a “abolição da guerra”.

A Conferência declara que “necessitamos de um novo quadro de referência que seja consistente com a não-violência evangélica”. Concorda? Como seria esse quadro de referência?

Propomos que a Igreja Católica desenvolva e considere a mudança para uma perspetiva de Paz Justa baseada na não-violência evangélica. A perspetiva da Paz Justa oferece uma visão e uma ética para construir a paz assim como para prevenir, reduzir e curar o dano causado pelo conflito violento. Esta ética inclui o compromisso com a dignidade humana e com umas relações florescentes, com critérios, virtudes e práticas específicas para guiar as nossas ações. Reconhecemos que a paz exige justiça e a justiça exige a construção da paz.

Discuta a proposta inovadora da conferência de que a Igreja “desenvolva e considere a mudança para uma perspetiva de Paz Justa baseada na não-violência evangélica”, com “uma visão e uma ética para construir a paz assim como para prevenir, reduzir e curar o dano causado pelo conflito violento”.


VIVER A NÃO-VIOLÊNCIA EVANGÉLICA E A PAZ JUSTA

Nesse espírito comprometemo-nos a promover a compreensão e a prática católicas da não-violência ativa no caminho para a paz justa.

Como se pode comprometer “a promover a compreensão e a prática católicas da não-violência ativa no caminho para a paz justa”? Como seria isso? Como podemos ajudar todos os católicos a praticarem a não-violência evangélica?

Com o desejo de sermos autênticos discípulos de Jesus, desafiados e inspirados pelos relatos de esperança e coragem destes dias, fazemos um apelo à Igreja que amamos para:
  • Continuar a desenvolver o ensinamento social católico sobre a não-violência. Em particular, apelamos ao Papa Francisco a compartilhar com o mundo una encíclica sobre não-violência e Paz Justa.
O que gostaria que o Papa Francisco afirmasse numa encíclica sobre não-violência e Paz Justa?

  • Integrar a não-violência evangélica de maneira explícita na vida, incluindo a vida sacramental, e no trabalho da Igreja através das dioceses, paróquias, organismos, escolas, universidades, seminários, ordens religiosas, associações de voluntariado e outras. 
Como pode ajudar nessa integração?

  • Promover práticas e estratégias não-violentas (p. ex. resistência não-violenta, justiça restaurativa, cura de traumas, proteção civil não armada, transformação de conflitos e estratégias de construção de paz).
Como fazer isto? Como pode ajudar? Como seriam a sua nação e o mundo com uma nova compreensão da não-violência e da transformação não-violenta dos conflitos?

  • Iniciar um diálogo global sobre não-violência no seio da Igreja, com pessoas de outras tradições religiosas e com o mundo em geral, para responder às crises monumentais do nosso tempo com a visão e as estratégias da não-violência e da Paz Justa.
Como podemos incentivar este diálogo?

  • Nunca mais usar ou ensinar a “teoria da guerra justa”; continuar a defender a abolição da guerra e das armas nucleares.
Teólogos e académicos têm debatido durante décadas a utilidade da teoria da guerra justa. Alguns acreditam que ela continua a ser útil para limitar ou evitar a guerra e para moderar os efeitos brutais da guerra. Os participantes na conferência de Roma acreditam que a “teoria da guerra justa” é um obstáculo à imaginação criativa, ao investimento financeiro e intelectual que ajudará o mundo a ir além da violência perpétua e da guerra. O que aconteceria se a Igreja se apartasse da teologia católica da “teoria da guerra justa” e investisse profundamente no desenvolvimento da compreensão católica da não-violência ativa? Isso ajudaria a Igreja e o mundo a desenvolverem práticas não-violentas mais eficazes para proteger comunidades vulneráveis, evitar conflitos violentos, transformar estruturas/sistemas de violência e promover culturas de paz?

  • Elevar a voz profética da Igreja para desafiar os poderes injustos deste mundo e para apoiar e defender os ativistas não-violentos cujo trabalho pela paz e pela justiça coloca as suas vidas em risco.
Quem são estas vozes proféticas da não-violência evangélica? Como pode ouvi-las e ajudar outros a ouvi-las? Como se pode tornar numa voz profética da não-violência evangélica? Qual é a mensagem que o Deus de paz e da não-violência está a dizer ao mundo da guerra e da violência? Como pode “apoiar e defender os ativistas não-violentos cujo trabalho pela paz e pela justiça coloca as suas vidas em risco”?

Em cada época, o Espírito Santo agracia a Igreja com a sabedoria para responder aos desafios do seu tempo. Em resposta à atual epidemia global de violência, que o Papa Francisco chamou de “guerra mundial aos pedaços”, somos chamados a invocar, orar, ensinar e tomar ações decisivas. Com as nossas comunidades e organizações esperamos continuar a colaborar com a Santa Sé e a Igreja mundial para promover a não-violência evangélica.

O que pode fazer para cumprir este mandato? Que ação concreta pode tomar na sua vida para se afastar da violência e promover a não-violência evangélica? Como pode ajudar a sua Igreja local e a Igreja mundial a cumprir este mandato sagrado?


Questões para a reflexão em formato PDF


Convidámo-lo(a) a assinar esta declaração individualmente, como paróquia ou como organização em:
https://nonviolencejustpeace.net/final-statement-an-appeal-to-the-catholic-church-to-re-commit-to-the-centrality-of-gospel-nonviolence/#form

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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Sob a espada de César": Documentário revela respostas dos cristãos à perseguição | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Quando um homem se fez explodir no interior de uma igreja copta no Cairo, durante a missa de domingo, matando 25 pessoas a 11 de dezembro, não só cometeu um ato repulsivo como acrescentou outro exemplo à tendência global dos últimos anos: a perseguição de cristãos.

Dentro de uma faixa geográfica que a escritora Eliza Griswold identificou como o paralelo 10, da Líbia à Indonésia, os cristãos sofrem morte, tortura, detenção ilegal, destruição da sua propriedade, pesadas discriminações e outras violações dos direitos humanos por causa da sua fé.

Esta tendência está bem documentada, e apesar de os principais meios de comunicação social e grupos de direitos humanos a terem menosprezado nos últimos anos, começam agora a dar-lhe mais atenção.

O que é menos conhecido é como os cristãos respondem à perseguição. Depois do atentado de dezembro no Cairo, o papa Francisco telefonou ao papa Tawadros II, da Igreja copta, para expressar solidariedade naquele que é conhecido como "ecumenismo de sangue", a partir do qual as Igrejas cristãs se aproximam pela partilha de experiências de martírio.

Onde há perseguição, os cristãos fogem, ocultam-se quando se juntam em oração, pegam em armas, promovem protestos não violentos, constroem relações com líderes de outras fés, estão nos tribunais e aceitam o martírio.

O projeto "Under Caesar's Sword" ("Sob a espada de César") é considerada a primeira investigação sistemática a nível mundial sobre as respostas dos cristãos à perseguição em mais de 25 países, reunindo para o efeito uma equipa de 15 estudiosos de renome que se dedicam ao estudo do cristianismo a nível global.

Depois da apresentação pública do relatório de trabalho, em Roma, em dezembro de 2015, o fruto mais recente da investigação é um penetrante documentário de 26 minutos, com o mesmo título do projeto.

Produzido por Jason Cohen, realizador nomeado para o Óscar, o filme foi rodado na Turquia e na Índia e contém extraordinários testemunhos de cristãos que foram acossados, que referem como responderam à perseguição.

Na Índia, os cristãos, que representam 2,3 por cento da população, sofreram às mãos dos extremistas hindus nos levantamentos de 2007-2008 em Kandhamal e responderam construindo pontes para hindus, muçulmanos e budistas, organizando iniciativas que promovessem a paz e invocando a Constituição da Índia, que assegura a liberdade religiosa.

Já na Turquia, os cristãos são menos do que dois por cento da população, tendo caído significativamente desde o estabelecimento da República, em 1923, por causa de morticínios, perseguições e imposição de leis discriminatórias. Também aqui os cristãos criaram ligações com a população e procuraram estabelecer a sua situação com cidadãos livres e iguais.

Em ambos os países o documentário mostra que as comunidades cristãs minoritárias enfrentam árduas batalhas para ganhar respeito pela sua liberdade, mas não perdem a esperança e são apoiadas pela sua fé.

"Sob a espada de César" inclui o testemunho de Paul Bathi, irmão de Shahbaz Bahatti, ministro federal do Paquistão para as Minorias, assassinado por militantes muçulmanos em março de 2011. Católico romano, Shahbaz aceitou o lugar no Governo como apelo à proteção dos marginalizados, em particular das suas religiões minoritárias.

Depois da morte de Shahbaz, Paul passou de uma atitude de amargura para a aceitação do cargo ocupado pelo irmão, na sequência de inúmeras manifestações de apoio, inclusive entre muçulmanos. Seguindo o exemplo da sua mãe, acabou por perdoar os homicidas.

O filme que apresentamos, em inglês, não está legendado, mas o seu visionamento constitui um convite à proximidade, na oração e noutros gestos concretos, com os cristãos perseguidos. A página do documentário inclui excertos de dois e sete minutos, bem como um guia com sugestões para discussão do tema em grupo.



Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

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Intenção do Papa Francisco para o mês de Janeiro: Os cristãos ao serviço da humanidade




Por todos os cristãos, para que contribuam, com a oração e a caridade fraterna, para restabelecer a plena comunhão eclesial, ao serviço dos desafios da humanidade.

Papa Francisco - Janeiro 2017


Vídeo do Papa

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Dia Mundial da Paz. Entrevista a Margarida Saco, Vice-Presidente da Secção portuguesa da Pax Christi



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Pope Francis’s peacebuilding pedagogy | Catholic Nonviolence Initiative



Following is a commentary written by Dr. Gerald Schlabach, one of the participants in the 2016 Nonviolence & Just Peace conference, on Pope Francis’s 2017 World Day of Peace message. Dr. Schlabach teaches at the University of St. Thomas, Minneapolis. A longer version of this piece is posted on his blog.

It is not too soon to anticipate the challenge of “reception.”

All signs suggest that Pope Francis’s 2017 World Day of Peace (WDP) message will only be an initial response to the appeal for clearer teaching on gospel nonviolence issued at the historic conference co-sponsored by Pax Christi International and the Pontifical Council on Justice and Peace in Rome last April. More is likely to come. Advisers who assist the Holy Father in drafting any future encyclical, as well as activists who seek to amplify papal signals, have some clear markers to follow.

Vatican-ese can sometimes be frustrating but its nuance sometimes serves to balance considerations and forge consensus in a complex global community. Pope Francis exercises an appropriate Vatican savvy as he alludes to the possible use of “just war” criteria his WDP message, yet leaves the theory unnamed – for now, neither rejected outright nor defended.

What Pope Francis names instead is the space that the Catholic moral traditions have hoped the “just war” theory would fill. Section 6 of the WDP message begins this way:

Peacebuilding through active nonviolence is the natural and necessary complement to the Church’s continuing efforts to limit the use of force by the application of moral norms; she does so by her participation in the work of international institutions and through the competent contribution made by so many Christians to the drafting of legislation at all levels.

‍Now because “just war” theory has long provided the framework for those efforts, this sentence might seem to validate its continued use. Yet the papal restraint that left “just war” theory here unnamed also recalls the unease that once prompted Cardinal Joseph Ratzinger – later Pope Benedict XVI – to wonder out loud whether “today we should be asking ourselves if it is still licit to admit the very existence of a ‘just war.’”

After all, what Pope Francis does next in section 6 of his WDP message is breathtaking. He insists that “Jesus himself offers a ‘manual’ for this strategy of peacemaking in the Sermon on the Mount.” Two things are going on here.

First, calling the Sermon on the Mount a “‘manual’” is a most intriguing word choice. “Manualism” was a neo-scholastic mode of Catholic moral deliberation ascendant until the Second Vatican Council. Whatever its virtues, its rationalistic focus on natural law tended to de-emphasize biblical sources and thus offered a comfortable home for “just war” casuistry. To now, instead, call the Sermon on the Mount (Matthew 5-7) the Church’s manual for peacemaking hardly seems an accident.

In any case, a second signal is unmistakable: After reflecting briefly on the Beatitudes as a template for the virtues that any authentic peacemaker will embody, Pope Francis describes the Sermon on the Mount and the Beatitudes as “also a programme and a challenge for political and religious leaders, the heads of international institutions, and business and media executives” to apply amid “the exercise of their respective responsibilities.” The manual that Jesus provides, in other words, is not just for the personal lives of particularly saintly Christians. It applies to the public realm. It elicits, as the WDP title has already announced, a “style of politics for peace.”

Here, though, is where we must especially anticipate the challenge of reception. Serious biblical exegesis recognizes paradigmatic models in the Sermon on the Mount for a sophisticated practice of active nonviolence that counters injustice with the creativity needed to transform social processes. It is not simply protest and certainly not passivity. Yet the assumption of many is going to be that practicing the Sermon on the Mount in public affairs is a lofty ideal, no more.

Pope Francis certainly knows better. In section 3, he calls Jesus’ message a “radically positive approach,” not just a negative refusal of violence. He pairs Jesus’ teaching about love of enemies with his resistance toward unjust accusers who were about to stone a woman caught in adultery. He also reiterates his predecessor Benedict’s characterization of enemy love as “the nucleus of the ‘Christian revolution.’” Then in section 4 he outlines historical examples of how the “decisive and consistent practice of nonviolence has produced effective results.”

Amplifying Pope Francis’s message by tirelessly recounting such histories is obviously one key way to invite a wide reception of gospel nonviolence. Following the exegesis of Matthew 5 by New Testament scholar Walter Wink and Christian ethicist Glen Stassen, another key will be to explain the social dynamics of active nonviolence in which courageously “turning the other cheek” or otherwise loving enemies can expose injustice and turn the tide of bystander complacency into support.

But for a truly wide reception by which jaded opinion-leaders or parishioners anxious about their nations’ security take a second look at Pope Francis’s WDP message now – and eventual encyclical later – we will need still more. Again, though, the Holy Father charts a path in his WDP message, though this time perhaps by papal intuition rather than explicitly.

At various points throughout the document Pope Francis argues for active nonviolence by citing cycles of violence and the need to escape them. The pope does not deny that war may sometimes respond to injustice. Yet, he asks, “Where does this lead? Does violence achieve any goal of lasting value?” No, it leads “to retaliation and a cycle of deadly conflict” (section 2). Gospel nonviolence is the truly revolutionary alternative because “responding to evil with good” rather than “succumbing to evil” in kind breaks “the chain of injustice” (section 3).

This line of reasoning can widen reception of the magisterium’s growing body of teaching on gospel nonviolence because the diagnosis of vicious cycles is something with which practitioners of “just war” theory can agree. In war, even winners lose. Even supposedly just wars plant the seeds of new resentments, and thus new rounds of mutually reinforcing injustice.

This was Jesus’ own pedagogy in the Sermon on the Mount itself. Glen Stassen has demonstrated that Jesus’ teachings there reveal Jesus’ very approach to moral reasoning. Jesus’ consistent pattern was to first name the people’s “traditional righteousness” or morality, then demonstrate its inability to escape vicious cycles, then offer “transforming initiatives.” His focus was not on dismantling traditional righteousness per se; a standard teaching such as “eye for an eye” might even be commendable as far as it went. But because traditional righteousness did not go far enough, Jesus’ focus was on “transforming initiatives” that resist evils but not in kind. (Also see here.)

The space that the Church has long hoped “just war” theory would fill does need filling. “Just war” theory has long seemed necessary because it offers a lingua franca across worldviews and ethical frameworks. Even those who doubt the justice of any war have sometimes needed to use it as a second language for engaging in “efforts to limit the use of force by the application of moral norms.”

If we follow Jesus’ lead we will not need to wait until all Catholic theologians, bishops, or other opinion-leaders are convinced to abandon their “traditional righteousness” and agree that there is no “just war.” Church-wide reception of gospel nonviolence and just peace can take root simply by moving on, as Jesus’ did, to a second then third point – the diagnosis of vicious cycles as proper complement to the social power and moral imperative of transforming initiatives.

Catholic peacebuilders can be grateful that the Vatican is listening, but we should also learn from Pope Francis’s pedagogically savvy rhetorical strategy. An eventual encyclical may not take down the “just war” theory at one fell swoop. Everything in church history and the development of doctrine suggests that the magisterium is loath to say that great Christian authorities of the past were outright wrong. Rather, popes and church councils look for clever ways to simply move on. My prediction is that the “just war” theory will be damned with faint praise, or killed with a thousand cuts. Our most realistic hope is the “just war” will go the way of capital punishment, which Pope John Paul II did not quite reject in theory but did reject for modern societies (Evangelium Vitae §56).

Pope Francis’s 2017 World Day of Peace message is exactly what that process is going to look like. The job of Catholic peacebuilders is to amplify its signals.

A fuller version of this article is available at http://www.geraldschlabach.net/2017/01/02/wdp17.

Catholic Nonviolence Initiative

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Fraternitas Movimento (Núcleo de Lisboa) organiza Encontro Ecuménico

O núcleo de Lisboa da Fraternitas Movimento promove, no próximo dia 14 de janeiro, no Externato Marista de Lisboa, um encontro ecuménico.

Com início às 09:30 e encerramento às 17:30, a atividade tem quatro sessões temáticas: «À procura da unidade»; «Perspetivas, passos ecuménicos»; «Dinamismo e vivência ecuménica» e «Oração ecuménica».


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A Não-Violência Ativa e Criativa - Nota da CNJP sobre a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz 2017

A Comissão Nacional Justiça e Paz, com esta breve nota, quer chamar a atenção para a oportunidade dos apelos lançados pelo Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2017.

Salienta esta mensagem que a violência não permite alcançar objetivos de valor duradouro, que responder à violência com a violência e a vingança desencadeia uma espiral de morte infindável, que beneficia apenas poucos “senhores da guerra”. Grandes quantidades de recursos são, desse modo, destinadas a fins militares e subtraídas às exigências da grande maioria dos habitantes da terra. Também não é resposta duradoura à violência a dissuasão nuclear, com a ameaça duma segura destruição recíproca.

Há, então, que buscar resolver as controvérsias pelas vias da razão, das negociações baseadas no direito, na justiça e na equidade. A não-violência deve tornar-se o estilo característico dos relacionamentos e da ação política.

O amor ao inimigo constitui a «magna carta da não-violência cristã», que consiste em responder ao mal com o bem, invertendo dessa forma a espiral de represálias.

A não-violência assim entendida não se confunde com a rendição ou a passividade, pelo contrário, é ativa e criativa e exige o máximo empenho e coragem. A história dá-nos exemplos do sucesso de combates não violentos pela justiça: Gandhi na libertação da Índia, Martin Luther King Jr contra a discriminação racial nos Estados Unidos, João Paulo II e outros na queda do comunismo.

Este compromisso a favor das vítimas da injustiça e da violência não é um património exclusivo da Igreja Católica, mas pertence a muitas tradições religiosas. A violência é uma profanação do nome de Deus. Só a paz é santa, não a guerra.

A origem da violência reside no coração humano. É da família que pode brotar a não-violência, onde os conflitos são superados com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão. A partir da família, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade. Com esse objetivo contrastam a violência doméstica e os abusos sobre mulheres e crianças.

Estes apelos são oportunos na “guerra mundial aos pedaços” que atinge muitos países. Mas também são oportunos em Portugal.

Pelo facto de beneficiarmos da paz (há quem diga que somos dos países mais pacíficos do mundo), não podemos ser indiferentes a esses cenários de guerra e temos especiais deveres de solidariedade para com as suas vítimas (como são muitos dos refugiados que chegam à Europa).

E a não-violência ativa e criativa, as vias do diálogo e do perdão, de que nos fala o Papa Francisco, são oportunas na superação de todo o tipo de conflitos, familiares, sociais, económicos ou políticos, que também marcam a sociedade portuguesa.

Lisboa, 1 de janeiro de 2017

A Comissão Nacional Justiça e Paz

[documento em PDF]

CNJP

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sábado, 31 de dezembro de 2016

Não-violência ativa e criativa: caminho para construir a paz. Contributos para a Celebração do 50º Dia Mundial da Paz

No âmbito da celebração do 50º Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco convida-nos a refletir sobre o tema "A não-violência: estilo de uma política para a paz".

Pretendendo contribuir para a celebração deste dia dedicado a esse direito humano fundamental, dom de Deus e projeto humano em realização, que é a paz, a Pax Christi Portugal produziu a brochura "Não-violência ativa e criativa: caminho para construir a paz. Contributos para a Celebração do 50º Dia Mundial da Paz".

Dela fazem parte uma seleção de textos para ajudar a aprofundar a mensagem do Papa Francisco, uma coletânea de orações, assim como sugestões para atividades para assinalar o dia e usar o tema durante todo o ano de 2017, ideias para trabalhar com crianças...

Pode descarregar a brochura em dois formatos para impressão: Livro dobrado ou A5 simples.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Pax Christi International Co-President Marie Dennis named Person of the Year by National Catholic Reporter

As 2016 draws to a close, it is easy to catalog a seemingly endless list of suffering that humans have endured this year through wars and acts of terror that continue to rob the globe of peace. The violence that plagues humanity seems limitless in its ability to mutate into new expressions while continuing to stoke the underlying causes: racism, sexism, economic injustice and environmental degradation.
The intractable tragedy of Syria -- the slaughter there and the resulting humanitarian disaster that spills across borders and continents -- is the year’s most disturbing reminder of how inadequate our current structures are at stopping violence.

It is the lot of peace to have to battle the headwinds of violence; the province of the peacemaker to find ways to be heard above the din of the warrior, to make the case for nonviolence against the forces, as Pope Francis has pointed out, who choose war not only for ideological reasons but because they profit from it. Peacemaking is an exhausting calling, but one more essential today than perhaps at any other time in human history.

It is no surprise, then, that one of the central figures stepping into the breach is an unimposing woman whose life’s dedication to peace-building has resulted in an unprecedented conversation at the highest levels of the church.

Marie Dennis, co-president of Pax Christi International, has long known that making peace in today’s world requires not only new ways of acting, but also new ways of seeing and thinking. (Mais ...)

Pax Christi International

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

NATAL 2016: MENSAGEM URBI ET ORBI DO PAPA FRANCISCO

Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!

Hoje, a Igreja revive a maravilha sentida pela Virgem Maria, São José e os pastores de Belém ao contemplarem o Menino que nasceu e jaz numa manjedoura: Jesus, o Salvador.

Neste dia cheio de luz, ressoa o anúncio profético:

«Um menino nasceu para nós,
um filho nos foi dado;
tem a soberania sobre os seus ombros
e o seu nome é:
Conselheiro-Admirável, Deus herói,
Pai-Eterno, Príncipe da Paz» (Is 9, 5).

O poder deste Menino, Filho de Deus e de Maria, não é o poder deste mundo, baseado na força e na riqueza; é o poder do amor. É o poder que criou o céu e a terra, que dá vida a toda a criatura: aos minerais, às plantas, aos animais; é a força que atrai o homem e a mulher e faz deles uma só carne, uma só existência; é o poder que regenera a vida, que perdoa as culpas, reconcilia os inimigos, transforma o mal em bem. É o poder de Deus. Este poder do amor levou Jesus Cristo a despojar-Se da sua glória e fazer-Se homem; e levá-Lo-á a dar a vida na cruz e ressurgir dentre os mortos. É o poder do serviço, que estabelece no mundo o reino de Deus, reino de justiça e paz.

Por isso, o nascimento de Jesus é acompanhado pelo canto dos anjos que anunciam:

«Glória a Deus nas alturas,
e paz na terra aos homens do seu agrado» (Lc 2, 14).

Hoje este anúncio percorre a terra inteira e quer chegar a todos os povos, especialmente aos povos que vivem atribulados pela guerra e duros conflitos e sentem mais intensamente o desejo da paz.

Paz aos homens e mulheres na martirizada Síria, onde já demasiado sangue foi versado. Sobretudo na cidade de Alepo, cenário nas últimas semanas de uma das batalhas mais atrozes, é tão urgente que, respeitando o direito humanitário, se assegurem assistência e conforto à população civil exausta, que se encontra ainda numa situação desesperada e de grande tribulação e miséria. É tempo que as armas se calem definitivamente, e a comunidade internacional se empenhe ativamente para se alcançar uma solução negociada e restabelecer a convivência civil no país.

Paz às mulheres e homens da amada Terra Santa, eleita e predileta de Deus. Israelitas e palestinenses tenham a coragem e a determinação de escrever uma página nova da história, onde o ódio e a vingança cedam o lugar à vontade de construir, juntos, um futuro de mútua compreensão e harmonia. Possam reencontrar unidade e concórdia o Iraque, a Líbia e o Iémen, onde as populações padecem a guerra e brutais ações terroristas.

Paz aos homens e mulheres em várias regiões da África, particularmente na Nigéria, onde o terrorismo fundamentalista usa mesmo as crianças para perpetrar horror e morte. Paz no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo, para que sejam sanadas as divisões e todas as pessoas de boa vontade se esforcem por embocar um caminho de desenvolvimento e partilha, preferindo a cultura do diálogo à lógica do conflito.

Paz às mulheres e homens que sofrem ainda as consequências do conflito no leste da Ucrânia, onde urge uma vontade comum de levar alívio à população e implementar os compromissos assumidos.

Concórdia, invocamos para o querido povo colombiano, que anela realizar um novo e corajoso caminho de diálogo e reconciliação. Tal coragem anime também a amada Venezuela a empreender os passos necessários para pôr fim às tensões atuais e edificar, juntos, um futuro de esperança para toda a população.

Paz para todos aqueles que, em diferentes áreas, suportam sofrimentos devido a perigos constantes e injustiças persistentes. Possa o Myanmar consolidar os esforços por favorecer a convivência pacífica e, com a ajuda da comunidade internacional, prestar a necessária proteção e assistência humanitária a quantos, delas, têm grave e urgente necessidade. Possa a Península Coreana ver as tensões que a atravessam superadas num renovado espírito de colaboração.

Paz para quem foi ferido ou perdeu uma pessoa querida por causa de brutais atos de terrorismo, que semearam pavor e morte no coração de muitos países e cidades. Paz – não em palavras, mas real e concreta – aos nossos irmãos e irmãs abandonados e excluídos, àqueles que padecem a fome e a quantos são vítimas de violência. Paz aos deslocados, aos migrantes e aos refugiados, a todos aqueles hoje são objeto do tráfico de pessoas. Paz aos povos que sofrem por causa das ambições económicos de poucos e da avidez insaciável do deus-dinheiro que leva à escravidão. Paz a quem suporta dificuldades sociais e económicas e a quem padece as consequências dos terremotos ou doutras catástrofes naturais.

E paz às crianças, neste dia especial em que Deus Se faz criança, sobretudo às privadas das alegrias da infância por causa da fome, das guerras e do egoísmo dos adultos.

Paz na terra a todas as pessoas de boa vontade, que trabalham diariamente, com discrição e paciência, em família e na sociedade para construir um mundo mais humano e mais justo, sustentadas pela convicção de que só há possibilidade dum futuro mais próspero para todos com a paz

Queridos irmãos e irmãs!

«Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado»: é o «Príncipe da Paz». Acolhamo-Lo!

Balcão Central da Basílica Vaticana
Domingo, 25 de dezembro de 2016

Vatican.va

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sábado, 17 de dezembro de 2016

ADVENTO 2016: 4ª SEMANA DO ADVENTO

1. Ambientação

«José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». […] Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa

Mateus 1,20-21.24


2. Reflexão

Tragicamente, no mundo de hoje mais de 65 milhões de pessoas foram obri-gadas a abandonar os seus lugares de residência. Este número sem preceden-tes supera qualquer imaginação. […] Contudo, se formos além da mera estatís-tica, descobriremos que os refugiados são mulheres e homens, jovens e moças que não são diversos dos membros das nossas famílias e dos nossos amigos. Cada um deles tem um nome, um rosto e uma história, assim como o direito inalienável de viver em paz e de aspirar por um futuro melhor para os próprios filhos. […]
Encorajo-vos a dar as boas-vindas aos refugiados nas vossas casas e comunida-des, de modo que a sua primeira experiência da Europa não seja a traumática de dormir ao frio nas estradas, mas a de um acolhimento caloroso e humano. Recordai-vos que a hospitalidade autêntica é um profundo valor evangélico, que alimenta o amor e é a nossa maior segurança contra as odiosas ações de terrorismo. […] Vós sois olhos, lábios, mãos e coração de Deus neste mundo. […]
Exorto-vos a ajudar a transformar as vossas comunidades em lugares de boas-vindas onde todos os filhos de Deus têm a oportunidade, não simplesmente de sobreviver, mas de crescer, florescer e dar fruto. […]
Pensai na Sagrada Família – Maria, José e o Menino Jesus – na sua longa viagem como refugiados para o Egito, quando fugiam da violência e encontraram abrigo entre os estrangeiros. De igual modo recordai-vos das palavras de Jesus: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era estrangeiro e acolhestes-me» (Mt 25,35).



3. Gesto de Paz

Acende-se a QUARTA VELA da Coroa do Advento.

Ao acendermos a quarta e última vela da Coroa do Advento, comprometo-me a procurar e conhecer uma família de refugiados ou imigrantes na minha cidade ou bairro e ajudar na sua integração e acolhimento.


4. Oração

1. Deus de misericórdia, envia o teu Espírito de fortaleza sobre os refugiados, as pessoas perseguidas, os migrantes, as crianças órfãs e desaparecidas:

Todos: Dá-lhes coragem e esperança.

1. Nós Te pedimos também por todas as pessoas e organizações que os acompanham e apoiam:

Todos: Que o seu trabalho sensibilize os políticos e a opinião pública para que o mundo seja mais justo e fraterno, um mundo sem guerras nem disputas, um mundo de paz e de amor.


5. Bênção

1. Que Deus, de quem vêm a paciência e a coragem, nos conceda har-monia de sentimentos uns para com os outros, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, para que todos em conjunto e a uma só voz glorifiquemos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Todos: Ámen.


In: Era estrangeiro e acolhestes-me? (cf. Mt 25,35ss). Contributos para a celebração do Advento 2016. Esta brochura está disponível online aqui.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O caminho da não-violência: A seis novos embaixadores o Papa indicou o método para resolver os conflitos

Há um só caminho a percorrer para resolver os conflitos: o da não-violência. O Papa Francisco está tão convicto disto que, depois de o ter indicado na mensagem para o próximo dia mundial da paz, voltou a repropô-lo na manhã de quinta-feira, 15 de dezembro, recebendo seis novos embaixadores acreditados junto da Santa Sé.

Trata-se dos representantes da Suécia, Fiji, Moldávia, Maurício, Tunísia e Burundi – duas mulheres e quatro homens – aos quais o Pontífice recordou que a não-violência é «um exemplo típico de valor universal, que encontra no Evangelho de Cristo o seu cumprimento mas que pertence também a outras nobres e antigas tradições epirituais». Além disso, observou, «num mundo como o atual, marcado por guerras e numerosos conflitos, e também por uma violência difundida, a escolha da não-violência torna-se cada vez mais uma exigência de responsabilidade a todos os níveis»: a educação na família, o compromisso social e civil, a atividade política, as relações internacionais.

Resumindo, esclareceu Francisco, é preciso «rejeitar a violência como método de resolução dos conflitos» para «os enfrentar sempre mediante o diálogo e a negociação». Este método é válido sobretudo para quantos «desempenham cargos institucionais». Inclusive porque o «estilo» da não-violência «não é sinónimo de debilidade nem de passividade mas pressupõe força de ânimo, coragem e capacidade de enfrentar as questões e os conflitos com honestidade intelectual, procurando deveras o bem comum antes e mais do que cada interesse de parte quer ideológico, económico ou político». De resto, no século passado houve muitos «exemplos luminosos do modo como a não-violência, abraçada com convicção e praticada com coerência, pode obter importantes resultados até no plano social e político». A ponto que, disse o Papa, «algumas populações, e até nações inteiras, graças ao compromisso de líderes não-violentos, conquistaram metas de liberdade e de justiça de maneira pacífica».

Eis então a convicção do Pontífice de que «o caminho da paz» nunca pode ser – concluiu – aquele «proclamado por palavras mas de facto negado perseguindo estratégias de domínio, apoiadas por gastos escandalosos com os armamentos, enquanto tantas pessoas permanecem desprovidas do necessário para viver».

Discurso do Papa

L'Osservatore Romano

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

50º DIA MUNDIAL DA PAZ: A não-violência: estilo de uma política para a paz

MENSAGEM DO SANTO PADRE
FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
50º DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2017

A não-violência: estilo de uma política para a paz



1. No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem como aos responsáveis das Comunidades Religiosas e das várias expressões da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta «dignidade mais profunda»[1] e façamos da não-violência ativa o nosso estilo de vida.

Esta é a Mensagem para o 50º Dia Mundial da Paz. Na primeira, o Beato Papa Paulo VI dirigiu-se a todos os povos – e não só aos católicos – com palavras inequívocas: «Finalmente resulta, de forma claríssima, que a paz é a única e verdadeira linha do progresso humano (não as tensões de nacionalismos ambiciosos, nem as conquistas violentas, nem as repressões geradoras duma falsa ordem civil)». Advertia contra o «perigo de crer que as controvérsias internacionais não se possam resolver pelas vias da razão, isto é, das negociações baseadas no direito, na justiça, na equidade, mas apenas pelas vias dissuasivas e devastadoras». Ao contrário, citando a Pacem in terris do seu antecessor São João XXIII, exaltava «o sentido e o amor da paz baseada na verdade, na justiça, na liberdade, no amor».[2] É impressionante a atualidade destas palavras, não menos importantes e prementes hoje do que há cinquenta anos.

Nesta ocasião, desejo deter-me na não-violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo caraterístico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas ações, da política em todas as suas formas.

Um mundo dilacerado

2. Enquanto o século passado foi arrasado por duas guerras mundiais devastadoras, conheceu a ameaça da guerra nuclear e um grande número de outros conflitos, hoje, infelizmente, encontramo-nos a braços com uma terrível guerra mundial aos pedaços. Não é fácil saber se o mundo de hoje seja mais ou menos violento que o de ontem, nem se os meios modernos de comunicação e a mobilidade que carateriza a nossa época nos tornem mais conscientes da violência ou mais rendidos a ela.

Seja como for, esta violência que se exerce «aos pedaços», de maneiras diferentes e a variados níveis, provoca enormes sofrimentos de que estamos bem cientes: guerras em diferentes países e continentes; terrorismo, criminalidade e ataques armados imprevisíveis; os abusos sofridos pelos migrantes e as vítimas de tráfico humano; a devastação ambiental. E para quê? Porventura a violência permite alcançar objetivos de valor duradouro? Tudo aquilo que obtém não é, antes, desencadear represálias e espirais de conflitos letais que beneficiam apenas a poucos «senhores da guerra»?

A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia-a-dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No pior dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, se não mesmo de todos.

A Boa Nova

3. O próprio Jesus viveu em tempos de violência. Ensinou que o verdadeiro campo de batalha, onde se defrontam a violência e a paz, é o coração humano: «Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos» (Marcos 7, 21). Mas, perante esta realidade, a resposta que oferece a mensagem de Cristo é radicalmente positiva: Ele pregou incansavelmente o amor incondicional de Deus, que acolhe e perdoa, e ensinou os seus discípulos a amar os inimigos (cf. Mateus 5, 44) e a oferecer a outra face (cf. Mateus 5, 39). Quando impediu, aqueles que acusavam a adúltera, de a lapidar (cf. João 8, 1-11) e na noite antes de morrer, quando disse a Pedro para repor a espada na bainha (cf. Mateus 26, 52), Jesus traçou o caminho da não-violência que Ele percorreu até ao fim, até à cruz, tendo assim estabelecido a paz e destruído a hostilidade (cf. Efésios 2, 14-16). Por isso, quem acolhe a Boa Nova de Jesus, sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação, como exortava São Francisco de Assis: «A paz que anunciais com os lábios, conservai-a ainda mais abundante nos vossos corações».[3]

Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não-violência. Esta, como afirmou o meu predecessor Bento XVI, «é realista pois considera que no mundo existe demasiada violência, demasiada injustiça e, portanto, não se pode superar esta situação, exceto se lhe contrapuser algo mais de amor, algo mais de bondade. Este “algo mais” vem de Deus».[4]E acrescentava sem hesitação: «a não-violência para os cristãos não é um mero comportamento tático, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem está tão convicto do amor de Deus e do seu poder que não tem medo de enfrentar o mal somente com as armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui o núcleo da “revolução cristã”».[5] A página evangélica – amai os vossos inimigos (cf. Lucas 6, 27) – é, justamente, considerada «a magna carta da não-violência cristã»: esta não consiste «em render-se ao mal (...), mas em responder ao mal com o bem (cf. Romanos 12, 17-21), quebrando dessa forma a corrente da injustiça».[6]

Mais poderosa que a violência

4. Por vezes, entende-se a não-violência como rendição, negligência e passividade, mas, na realidade, não é isso. Quando a Madre Teresa recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979, declarou claramente qual era a sua ideia de não-violência ativa: «Na nossa família, não temos necessidade de bombas e de armas, não precisamos de destruir para edificar a paz, mas apenas de estar juntos, de nos amarmos uns aos outros (...). E poderemos superar todo o mal que há no mundo».[7] Com efeito, a força das armas é enganadora. «Enquanto os traficantes de armas fazem o seu trabalho, há pobres pacificadores que, só para ajudar uma pessoa, outra e outra, dão a vida»; para estes obreiros da paz, a Madre Teresa é «um símbolo, um ícone dos nossos tempos».[8] No passado mês de setembro, tive a grande alegria de a proclamar Santa. Elogiei a sua disponibilidade para com todos «através do acolhimento e da defesa da vida humana, a dos nascituros e a dos abandonados e descartados. (...) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes – diante dos crimes! – da pobreza criada por eles mesmos».[9] Como resposta, a sua missão – e nisto representa milhares, antes, milhões de pessoas – é ir ao encontro das vítimas com generosidade e dedicação, tocando e vendando cada corpo ferido, curando cada vida dilacerada.

A não-violência, praticada com decisão e coerência, produziu resultados impressionantes. Os sucessos alcançados por Mahatma Gandhi e Khan Abdul Ghaffar Khan, na libertação da Índia, e por Martin Luther King Jr contra a discriminação racial nunca serão esquecidos. As mulheres, em particular, são muitas vezes líderes de não-violência, como, por exemplo, Leymah Gbowee e milhares de mulheres liberianas, que organizaram encontros de oração e protesto não-violento (pray-ins), obtendo negociações de alto nível para a conclusão da segunda guerra civil na Libéria.

E não podemos esquecer também aquela década epocal que terminou com a queda dos regimes comunistas na Europa. As comunidades cristãs deram a sua contribuição através da oração insistente e a ação corajosa. Especial influência exerceu São João Paulo II, com o seu ministério e magistério. Refletindo sobre os acontecimentos de 1989, na Encíclica Centesimus annus (1991), o meu predecessor fazia ressaltar como uma mudança epocal na vida dos povos, nações e Estados se realizara «através de uma luta pacífica que lançou mão apenas das armas da verdade e da justiça».[10] Este percurso de transição política para a paz foi possível, em parte, «pelo empenho não-violento de homens que sempre se recusaram a ceder ao poder da força e, ao mesmo tempo, souberam encontrar aqui e ali formas eficazes para dar testemunho da verdade». E concluía: «Que os seres humanos aprendam a lutar pela justiça sem violência, renunciando tanto à luta de classes nas controvérsias internas, como à guerra nas internacionais».[11]

A Igreja comprometeu-se na implementação de estratégias não-violentas para promover a paz em muitos países solicitando, inclusive aos intervenientes mais violentos, esforços para construir uma paz justa e duradoura.

Este compromisso a favor das vítimas da injustiça e da violência não é um património exclusivo da Igreja Católica, mas pertence a muitas tradições religiosas, para quem «a compaixão e a não-violência são essenciais e indicam o caminho da vida».[12] Reitero-o aqui sem hesitação: «nenhuma religião é terrorista».[13] A violência é uma profanação do nome de Deus.[14] Nunca nos cansemos de repetir: «jamais o nome de Deus pode justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa, não a guerra».[15]

A raiz doméstica duma política não-violenta

5. Se a origem donde brota a violência é o coração humano, então é fundamental começar por percorrer a senda da não-violência dentro da família. É uma componente daquela alegria do amor que apresentei na Exortação Apostólica Amoris laetitia, em março passado, concluindo dois anos de reflexão por parte da Igreja sobre o matrimónio e a família. Esta constitui o cadinho indispensável no qual cônjuges, pais e filhos, irmãos e irmãs aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, não pela força, mas com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão.[16] A partir da família, a alegria do amor propaga-se pelo mundo, irradiando para toda a sociedade.[17] Aliás, uma ética de fraternidade e coexistência pacífica entre as pessoas e entre os povos não se pode basear na lógica do medo, da violência e do fechamento, mas na responsabilidade, no respeito e no diálogo sincero. Neste sentido, lanço um apelo a favor do desarmamento, bem como da proibição e abolição das armas nucleares: a dissuasão nuclear e a ameaça duma segura destruição recíproca não podem fundamentar este tipo de ética.[18] Com igual urgência, suplico que cessem a violência doméstica e os abusos sobre mulheres e crianças.

O Jubileu da Misericórdia, que terminou em novembro passado, foi um convite a olhar para as profundezas do nosso coração e a deixar entrar nele a misericórdia de Deus. O ano jubilar fez-nos tomar consciência de como são numerosos e variados os indivíduos e os grupos sociais que são tratados com indiferença, que são vítimas de injustiça e sofrem violência. Fazem parte da nossa «família», são nossos irmãos e irmãs. Por isso, as políticas de não-violência devem começar dentro das paredes de casa para, depois, se difundir por toda a família humana. «O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a pôr em prática o pequeno caminho do amor, a não perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo».[19]

O meu convite

6. A construção da paz por meio da não-violência ativa é um elemento necessário e coerente com os esforços contínuos da Igreja para limitar o uso da força através das normas morais, mediante a sua participação nos trabalhos das instituições internacionais e graças à competente contribuição de muitos cristãos para a elaboração da legislação a todos os níveis. O próprio Jesus nos oferece um «manual» desta estratégia de construção da paz no chamado Sermão da Montanha. As oito Bem-aventuranças (cf. Mateus 5, 3-10) traçam o perfil da pessoa que podemos definir feliz, boa e autêntica. Felizes os mansos – diz Jesus –, os misericordiosos, os pacificadores, os puros de coração, os que têm fome e sede de justiça.

Este é um programa e um desafio também para os líderes políticos e religiosos, para os responsáveis das instituições internacionais e os dirigentes das empresas e dos meios de comunicação social de todo o mundo: aplicar as Bem-aventuranças na forma como exercem as suas responsabilidades. É um desafio a construir a sociedade, a comunidade ou a empresa de que são responsáveis com o estilo dos obreiros da paz; a dar provas de misericórdia, recusando-se a descartar as pessoas, danificar o meio ambiente e querer vencer a todo o custo. Isto requer a disponibilidade para «suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo».[20] Agir desta forma significa escolher a solidariedade como estilo para fazer a história e construir a amizade social. A não-violência ativa é uma forma de mostrar que a unidade é, verdadeiramente, mais forte e fecunda do que o conflito. No mundo, tudo está intimamente ligado.[21] Claro, é possível que as diferenças gerem atritos: enfrentemo-los de forma construtiva e não-violenta, de modo que «as tensões e os opostos [possam] alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida», conservando «as preciosas potencialidades das polaridades em contraste».[22]

Asseguro que a Igreja Católica acompanhará toda a tentativa de construir a paz inclusive através da não-violência ativa e criativa. No dia 1 de janeiro de 2017, nasce o novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que ajudará a Igreja a promover, de modo cada vez mais eficaz, «os bens incomensuráveis da justiça, da paz e da salvaguarda da criação» e da solicitude pelos migrantes, «os necessitados, os doentes e os excluídos, os marginalizados e as vítimas dos conflitos armados e das catástrofes naturais, os reclusos, os desempregados e as vítimas de toda e qualquer forma de escravidão e de tortura».[23] Toda a ação nesta linha, ainda que modesta, contribui para construir um mundo livre da violência, o primeiro passo para a justiça e a paz.

Em conclusão

7. Como é tradição, assino esta Mensagem no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. Nossa Senhora é a Rainha da Paz. No nascimento do seu Filho, os anjos glorificavam a Deus e almejavam paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade (cf. Lucas 2, 14). Peçamos à Virgem Maria que nos sirva de guia.

«Todos desejamos a paz; muitas pessoas a constroem todos os dias com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a dificuldade de tantas tentativas para a construir».[24]No ano de 2017, comprometamo-nos, através da oração e da ação, a tornar-nos pessoas que baniram dos seus corações, palavras e gestos a violência, e a construir comunidades não-violentas, que cuidem da casa comum. «Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz».[25]

Vaticano, 8 de dezembro de 2016.

Francisco



[1] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 228.
[2] Mensagem para a celebração do 1º Dia Mundial da Paz, 1° de janeiro de 1968.
[3] «Legenda dos três companheiros»: Fontes Franciscanas, n. 1469.
[4] Angelus, 18 de fevereiro de 2007.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem.
[7] Discurso por ocasião da entrega do Prémio Nobel, 11 de dezembro de 1979.
[8] Francisco, Meditação «O caminho da paz», Capela da Domus Sanctae Marthae, 19 de novembro de 2015.
[9] Homilia na canonização da Beata Madre Teresa de Calcutá, 4 de setembro de 2016.
[10] N. 23
[11] Ibidem.
[12] Francisco, Discurso na Audiência inter-religiosa, 3 de novembro de 2016.
[13] Idem, Discurso no III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 5 de novembro de 2016.
[14] Cf. Idem, Discurso no Encontro com o Xeque dos Muçulmanos do Cáucaso e com Representantes das outras Comunidades Religiosas, Baku, 2 de outubro de 2016.
[15] Idem, Discurso em Assis, 20 de setembro de 2016.
[16] Cf. Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia, 90-130.
[17] Cf. ibid., 133.194.234.
[18] Cf. Francisco, Mensagem à Conferência sobre o impacto humanitário das armas nucleares, 7 de dezembro de 2014.
[19] Idem, Carta enc. Laudato si’, 230.
[20] Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium, 227.
[21] Cf. Idem, Carta enc.Laudato si’, 16.117.138.
[22] Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium, 228.
[23] Idem, Carta apostólica sob a forma de “Motu proprio” pela qual se institui o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, 17 de agosto de 2016.
[24] Francisco, Regina Caeli, Belém, 25 de maio de 2014.
[25] Apelo, Assis, 20 de setembro de 2016.

Vatican.va

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