a OBSERVATÓRIO DA PAX: Um apelo à Igreja Católica a comprometer-se de novo com a centralidade da não-violência evangélica

domingo, 15 de maio de 2016

Um apelo à Igreja Católica a comprometer-se de novo com a centralidade da não-violência evangélica

Um apelo à Igreja Católica a comprometer-se de novo
com a centralidade da não-violência evangélica


Declaração final da conferência "Não-violência e Paz Justa: Contributo para a compreensão e compromisso católicos com a não-violência", realizada em Roma, 11-13 abril de 2016. A conferência foi co-organizado pela Pax Christi Internacional, o Conselho Pontifício Justiça e Paz, UISG/USG e muitas outras organizações católicas internacionais.


Como cristãos comprometidos com um mundo mais justo e pacífico estamos chamados a tomar uma posição clara a favor da não-violência ativa e criativa e a manifestar-nos contra todas as formas de violência. Com esta convicção e em reconhecimento do Ano Jubilar da Misericórdia declarado pelo Papa Francisco, pessoas de muitos países reunimo-nos em Roma para a Conferência sobre Não-violência e Paz Justa patrocinada pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz e pela Pax Christi Internacional, entre 11 e 13 de abril de 2016.

A nossa assembleia, povo de Deus vindo de África, Américas, Ásia, Europa, Médio Oriente e Oceânia incluiu pessoas leigas, teólogos, membros de congregações religiosas, padres e bispos. Muitos de nós vivemos em comunidades que experimentam a violência e a opressão. Todos somos praticantes da justiça e da paz. Estamos agradecidos pela mensagem do Papa Francisco à nossa conferência: “a reflexão para relançar o percurso da não-violência, e em especial da não-violência ativa, constitui um necessário e positivo contributo”.

Olhando para o nosso mundo hoje

Vivemos numa época de extenso sofrimento, trauma generalizado e medo relacionados com a militarização, a injustiça económica, as alterações climáticas e milhares de outras formas específicas de violência. Neste contexto de violência normalizada e sistémica, aqueles de entre nós que vivem na tradição cristã, estamos chamados a reconhecer a centralidade da não-violência ativa na visão e na mensagem de Jesus; na vida e na praxis da Igreja Católica; e na nossa vocação de longo prazo de curar e reconciliar tanto as pessoas como o planeta.

Alegramo-nos com as ricas experiências concretas de pessoas comprometidas no trabalho pela paz em todo o mundo, de quem escutamos muitas histórias durante esta conferência. As e os participantes compartiram as suas experiências de corajosas negociações com atores armados no Uganda e na Colômbia; o trabalho para proteger o Artigo 9, a cláusula de paz da Constituição japonesa; o acompanhamento na Palestina; e a educação para a paz a nível nacional nas Filipinas. Essas experiências iluminam a criatividade e o poder das práticas não-violentas em muitas e diversas situações de conflito violento potencial ou real. De facto, investigações académicas recentes demonstraram que as estratégias de resistência não-violenta são duas vezes mais eficazes que as estratégias violentas.

Chegou o momento de a nossa Igreja ser um testemunho vivo e de investir muitos mais recursos humanos e financeiros na promoção de uma espiritualidade e prática da não-violência ativa, e na formação e capacitação das nossas comunidades católicas em práticas não-violentas eficazes. Em tudo isto, Jesus é a nossa inspiração e o nosso modelo.

Jesus e a não-violência

No seu tempo, carregado de violência estrutural, Jesus proclamou uma nova ordem, não-violenta, enraizada no amor incondicional de Deus. Jesus chamou os seus discípulos a amarem os seus inimigos (Mateus 5,44), que inclui respeitar a imagem de Deus em todas as pessoas; a oferecerem resistência não-violenta a quem lhes faz mal (Mateus 5,39); a converterem-se em construtores de paz; a perdoarem e a arrependerem-se; e a serem abundantemente misericordiosos (Mateus 5-7). Jesus encarnou a não-violência ao resistir ativamente à desumanização sistémica, como quando desafiou a lei do Sabat para curar o homem com a mão paralisada (Marcos 3,1-6); quando confrontou os poderosos no Templo e o purificou (João 2,13-22); quando pacífica mas decididamente desafiou os homens que acusavam uma mulher de adultério (João 8,1-11); quando na noite antes de morrer ordenou a Pedro não usar a espada (Mateus 26,52).

Nem passiva nem débil, a não-violência de Jesus foi o poder do amor em ação. Na sua visão e obras Ele é a revelação e a encarnação do Deus Não-violento, uma verdade especialmente iluminada na Cruz e na Ressurreição. Ele chama-nos a desenvolver a virtude da construção não-violenta da paz.

É claro que a Palavra de Deus, o testemunho de Jesus, não devem nunca ser utilizados para justificar a violência, a injustiça ou a guerra. Confessamos que o povo de Deus traiu muitas vezes esta mensagem central do Evangelho ao participar em guerras, perseguição, opressão, exploração e discriminação.

Cremos que não existe “guerra justa”. Com demasiada frequência, a “teoria da guerra justa” foi utilizada para respaldar e não para prevenir ou limitar a guerra. Sugerir que uma “guerra justa” é possível também debilita o imperativo moral de desenvolver instrumentos e capacidades para a transformação não-violenta dos conflitos.

Necessitamos de um novo quadro de referência que seja consistente com a não-violência evangélica. Um outro caminho vai-se desenvolvendo claramente no recente ensinamento social católico. O Papa João XXIII escreveu que a guerra não é um meio apropriado para restaurar direitos; o Papa Paulo VI associou paz e desenvolvimento e disse à ONU “nunca mais a guerra”; o Papa João Paulo II disse que “a guerra pertence ao passado trágico, à historia”; o Papa Bento XVI disse que “amar o inimigo é o núcleo da revolução cristã”; e o Papa Francisco disse que “a verdadeira força do cristão é o vigor da verdade e do amor, que requer a renúncia a toda a violência. Fé e violência são incompatíveis”. Ele também pediu veementemente a “abolição da guerra”.

Propomos que a Igreja Católica desenvolva e considere a mudança para uma perspetiva de Paz Justa baseada na não-violência evangélica. A perspetiva da Paz Justa oferece uma visão e uma ética para construir a paz assim como para prevenir, reduzir e curar o dano causado pelo conflito violento. Esta ética inclui o compromisso com a dignidade humana e com umas relações florescentes, com critérios, virtudes e práticas específicas para guiar as nossas ações. Reconhecemos que a paz exige justiça e a justiça exige a construção da paz.

Viver a não-violência evangélica e a Paz Justa

Nesse espírito comprometemo-nos a promover a compreensão e a prática católicas da não-violência ativa no caminho para a paz justa. Com o desejo de sermos autênticos discípulos de Jesus, desafiados e inspirados pelos relatos de esperança e coragem destes dias, fazemos um apelo à Igreja que amamos para:

• Continuar a desenvolver o ensinamento social católico sobre a não-violência. Em particular, apelamos ao Papa Francisco a compartir com o mundo una encíclica sobre não-violência e Paz Justa.
• Integrar a não-violência evangélica de maneira explícita na vida, incluindo a vida sacramental, e no trabalho da Igreja através das dioceses, paróquias, organismos, escolas, universidades, seminários, ordens religiosas, associações de voluntariado e outras.
• Promover práticas e estratégias não-violentas (p. ex. resistência não-violenta, justiça restaurativa, cura de traumas, proteção civil não armada, transformação de conflitos e estratégias de construção de paz).
• Iniciar um diálogo global sobre não-violência no seio da Igreja, com pessoas de outras tradições religiosas e com o mundo em geral, para responder às crises monumentais do nosso tempo com a visão e as estratégias da não-violência e da Paz Justa.
• Não usar mais ou ensinar a “teoria da guerra justa”; continuar a defender a abolição da guerra e das armas nucleares.
• Elevar a voz profética da Igreja para desafiar os poderes injustos deste mundo e para apoiar e defender os ativistas não-violentos cujo trabalho pela paz e pela justiça coloca as suas vidas em risco.

Em cada época, o Espírito Santo agracia a Igreja com a sabedoria para responder aos desafios do seu tempo. Em resposta à atual epidemia global de violência, que o Papa Francisco chamou de “guerra mundial aos pedaços”, somos chamados a invocar, orar, ensinar e tomar ações decisivas. Com as nossas comunidades e organizações esperamos continuar a colaborar com a Santa Sé e a Igreja mundial para promover a não-violência evangélica.

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