a OBSERVATÓRIO DA PAX: Março 2017

domingo, 12 de março de 2017

«O "Outro" é um dom a que nos devemos dar»: reflexão da CNJP para a Quaresma 2017

O “OUTRO” É UM DOM A QUE NOS DEVEMOS DAR

REFLEXÃO QUARESMAL DA
COMISSÃO NACIONAL JUSTIÇA E PAZ

“O cristão - na Quaresma - é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor”. Assim começa o desafio que o Papa Francisco deixa a todos os cristãos nesta preparação para a Páscoa de 2017.

1. Não nos conformemos com uma cidadania “medíocre”

A CNJP vem, mais uma vez, dar um contributo para ajudar no exame individual e coletivo que se impõe à Igreja portuguesa, ajudando a perspetivar as palavras do Papa à luz da realidade económica e social do nosso país e do mundo em que nos integramos.
Vivemos num tempo mergulhado numa crise que não se esgota nos fatores económicos e sociais em que muitas vezes nos focamos, mas se caracteriza por uma crescente ausência de valores morais e civilizacionais dados por adquiridos nas últimas décadas.
Esta crise de valores é bem patente, também, na proliferação de uma cultura de violência latente, que em Portugal encontramos num crescendo sistemático e preocupante.
Há algumas décadas diríamos que a violência doméstica se extinguiria com uma geração de homens e mulheres educados numa nova sociedade, que já não pactuaria com um estatuto de submissão da mulher. Seria o fim de uma sociedade onde a baixa literacia e altos níveis de alcoolismo favorecem a propagação do fenómeno.
Hoje, contudo, a prevalência da violência no namoro entre os mais jovens, a par de um crescendo da violência doméstica denunciada e abarcando todos os extratos sociais, provam que o fenómeno não se encontra, afinal, em extinção e terá provavelmente aumentado.
Os inquéritos efetuados ao fenómeno do bullying nas escolas e nas relações sociais fazem soar, a todos os níveis, os sinais de alarme. O uso intensivo das redes sociais permite e fomenta entre os jovens sentimentos de controlo e restrições de amizades que os incapacita para a relação interpessoal.

2. Que possam ver que nos amamos

O Papa pede-nos que nos aproximemos da festa da Páscoa com uma alegria autêntica, que brota de uma vida mais coerente em que o “moralismo” dê lugar ao testemunho vivo, merecendo o respeito da própria sociedade que nos rodeia. Respeito que mereciam os primeiros cristãos.
Desses podia dizer-se, com verdade, que, embora aparentemente as suas vidas se confundissem com as dos restantes cidadãos, se distinguiam pela alegria do encontro com o Senhor, pela forma generosa de partilha de tudo entre todos e pela amorosa dedicação de uns aos outros. Vede como eles se amam!
Uma alegria e um Amor ao Outro que não se contentam com a “esmola” daquilo que nos sobra, mas vai à raiz do que de mais precioso podemos dar num tempo de stress permanente : o nosso próprio tempo, dádiva que acarreta o anúncio natural do nosso encontro com Jesus, que é “o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016)”.
Façamos sincero exame sobre o nosso atuar dentro e fora das Comunidades em que nos integramos.
Dados recentes da autoridade tributária (Out. de 2016) mostram que, em média, o rendimento dos que se situam no escalão mais alto do IRS era 142 vezes superior ao do escalão mais baixo.
Não se trata de cultivar a inveja social, mas tão só de reconhecer a urgência de um despertar mais forte de uma consciência social coletiva capaz de se interrogar sobre a justiça de uma disparidade desta dimensão.
O alerta visa também confrontar-nos com uma outra realidade: em que medida, nas nossas relações sociais e comunitárias, acabamos a replicar o universo mundano e desigual de uma sociedade distinguida e etiquetada entre pobres e ricos, bem e mal sucedidos, poderosos e sem influência, sábios e ignorantes, invertendo a escala que o próprio Senhor nos recomendou.
Como “gestores” do Universo que nos foi dado a todos para guardar, mantendo-o ao serviço da grande família humana, assumimos esse protagonismo de liderança, no cuidado da criação? Ou continuamos indiferentes aos danos causados às gerações futuras ou aos mais pobres de outros continentes?
O texto de Francisco nesta Quaresma não deixa de nos interpelar neste ponto concreto, convidando-nos a não deixar os meios tradicionais (oração, jejum e esmola), mas dedicando um pouco mais de atenção à meditação de uma parábola improvável: a “parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31)”. O Santo Padre pede: “deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão”.

3. Os “outros” são para nós “um dom” ou um peso?

Vivemos num momento em que em Portugal se discute abertamente a possibilidade da legalização da eutanásia, com tudo o que ela implica de corte com o reconhecimento de que a vida deve ser inviolável da conceção até à morte natural. Entremos serenamente no debate. Saibamos ouvir sem sobranceria os receios, os medos, e o desespero alheios, respondendo com a convicção que nos advém da certeza de quem sabe dar as razões da sua esperança.
Na serenidade desse debate aprendamos também a distinguir os múltiplos meios ao dispor do cristão para que este não prolongue um inútil sofrimento, que ninguém defende nem deseja, mas sobretudo demos exemplo prático de apoio empenhado no combate à solidão dos mais idosos e doentes, nas redes de vizinhança sejamos presença atenta e a mão que nas horas de maior sofrimento alivia a dor física e dá esperança e conforto. Pessoas que somos capazes de ouvir e compreender, no desespero de quem nos pede a morte, dando-lhes, pelo contrário, razões adicionais para sentirem que a vida vale a pena.
Que saibamos ser nós os primeiros a bater-nos pelo reforço do serviço nacional de saúde, onde todos tenham acesso e os cuidados paliativos não sejam privilégio, mas sejam acessíveis sobretudo aos mais desamparados em todo o território.
E também pelo apoio às famílias com mais dificuldades em acompanhar os seus. Pela defesa dos apoios à vida com deficiência. Ou na luta por leis laborais mais compatíveis com a conciliação trabalho e família, e pelo reconhecimento pleno do estatuto e do papel do cuidador como elemento decisivo para um genuíno acompanhamento de uma morte sem angústia e dores evitáveis.

4. Lázaro pode chamar-se Aylan ou Galip

Francisco começa a descrição da parábola chamando a atenção para o facto de ser o pobre que merece a descrição mais detalhada:
“encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.
A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; (…) Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de Janeiro de 2016)”
O Papa tem insistido na luta contra a globalização da indiferença, algo contra o qual é cada vez mais difícil lutar. Se todos os dias os telejornais nos falam de centenas de náufragos no Mediterrâneo e nos mostram filas e filas de refugiados enregelados a bater à porta da Europa, os nossos corações vão gelando também.
Talvez estremeçam com a imagem de Aylan, o menino de três anos fotografado morto na praia turca perto de Bochum depois de dar à costa, jazendo a poucos metros do seu irmãozinho Galip de apenas 5 anos, também ele trazido pelo mar da morte.
A sua imagem despertou por momentos a nossa atenção. Mas terá sido suficiente para não nos perdermos nos números de uma desgraça sem fim à vista? As estatísticas do Alto Comissariado da O.N.U. para os Refugiados (de 20 de junho de 2016) falam de 65,3 milhões de deslocados em todo o mundo 21,3 milhões de refugiados, 53 por cento dos quais provenientes de três únicos países (Síria, Afeganistão e Somália).
Até que ponto seremos nós, enquanto cristãos, sinais coerentes e corações abertos que resistam aos discursos xenófobos que grassam por quase toda a Europa?
Portugal está felizmente na linha da frente do acolhimento aos refugiados, designadamente sírios, pela ação concertada de várias entidades (como a PAR). O Serviço Jesuíta de Apoio aos Refugiados mostrava em janeiro como já tinha salvo 157 crianças das atrocidades da guerra e dos perigos do mar (72 famílias colocadas em 62 instituições). Muitos católicos ofereceram-se já para acolher nas suas próprias casas estudantes sírios, permitindo-lhes que continuem em paz os estudos universitários interrompidos com a guerra. São bons exemplos.

5. O perigo da “ganância”

“O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz".
Pensemos, por momentos, quantas vezes nos desculpámos com a amoralidade geral para não pagar o imposto devido ou o salário merecido a quem trabalha. Pensemos que na nossa sociedade há cerca de 20 por cento da riqueza nacional que resulta da “economia informal ou paralela”.
Aproveitemos, também, esta Quaresma para eliminar a cumplicidade do nosso coração com a corrupção que grassa na nossa sociedade, sempre defraudando os mais pobres e frágeis dos seus direitos.
Peçamos sinceramente ao Senhor que não nos deixe dormir descansados quando sabemos que dois milhões de portugueses vivem abaixo da linha da pobreza. Não deixemos que nos convençam facilmente que o salário mínimo não pode subir, a menos que façamos parte dos muitos que heroicamente conseguem alimentar uma família com o seu parco valor.
Façamos parte dos que ouvindo a Palavra a põem em prática. Esta Quaresma pode ser para cada um de nós e para cada comunidade o momento de conversão que nos chama à mudança de vida. Aprendendo a não repetir o erro do “rico” que pensava ser compatível amar a Deus e ao dinheiro, ao mesmo tempo que a indiferença o levou a só reparar em Lázaro tarde demais.

Lisboa, 7 de março de 2017

A Comissão Nacional Justiça e Paz

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Pax Christi International sends letter to EU regarding Israel's move to legalise settlements

In the wake of Israel's approval of the settlement expansion bill which legalises 4000 homes in illegal settlements, the EU Foreign Affairs Council stated that these settlements are contrary to international law and an obstacle to a negotiated peace agreement between Israel and Palestine. Furthermore the proposed meeting of the EU-Israel Association Council has been postponed.

Pax Christi International calls upon the EU to take a much stronger stance towards the Israeli government in condemning policies incompatible with the human rights clause of the EU-Israel Association Agreement. The EU should consider suspending economic relations until Israel respects International law.

To read the letter Pax Christi International sent to the EU High Representative for Foreign Affairs & Security Policy, click here.

Click here to sign the petition to Federica Mogherini, EU High Representative for Foreign Affairs & Security Policy and Vice-President of the European Commission.

Pax Christi International


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World Council of Churches gravely concerned over Israel’s travel ban

[World Council of Churches] The World Council of Churches (WCC) March 9 expressed grave concern about a new law passed March 8 by the Knesset which reportedly forbids granting entry visas to foreign nationals who call for economic, cultural or academic boycotts of either Israel or the Israeli settlements in the occupied Palestinian territories. The ‘Entry to Israel Act (Denial of Visa to Non-Residents Who Knowingly Call for a Boycott on Israel)’ apparently makes no distinction between boycotting Israel proper and boycotting products of the settlements, which are widely considered illegal under international law.

“If reports of its content and intent are correct, this law is a shockingly regressive law,” said WCC general secretary Rev. Dr Olav Fykse Tveit. “It would be a clear violation of freedom of expression, that is critical for those who want to visit Israel, for those who have to live under the occupation, and for those who want access to the Palestinian territories. It is also a significant violation of freedom of religion. It is precisely because of our Christian principles and teachings that we in the World Council of Churches find the purchase and consumption of goods produced in Israeli settlements in the occupied territories immoral, and it is for the same reason many churches and Christians around the world choose to divest from companies that profit from the illegal occupation.”

Tveit observed that, if strictly applied according to its reported terms, “this new legislation would have the effect of barring representatives of many churches around the world from entering Israel, from accompanying sister churches and fellow Christians in the region, and from visiting the holy places for Christians. This potentially impacts the religious freedom of many Christians around the world, and harms Christians in Israel and Palestine. It could mean that I cannot, as general secretary of the WCC, visit our member churches in Israel and Palestine any more, nor go to the holy sites.” (...)

World Council of Churches

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quinta-feira, 2 de março de 2017

Intenção do Papa Francisco para o mês de Março: Ajudar os cristãos perseguidos



Pelos cristãos perseguidos, para que experimentem o apoio de toda a Igreja na oração e através da ajuda material.

Papa Francisco - Março 2017

Vídeo do Papa

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quarta-feira, 1 de março de 2017

A Palavra é um dom. O outro é um dom | Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017



Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. E este tempo não cessa de nos dirigir um forte convite à conversão: o cristão é chamado a voltar para Deus «de todo o coração» (Jl 2, 12), não se contentando com uma vida medíocre, mas crescendo na amizade do Senhor. Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, pois, mesmo quando pecamos, espera pacientemente pelo nosso regresso a Ele e, com esta espera, manifesta a sua vontade de perdão (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

A Quaresma é o momento favorável para intensificarmos a vida espiritual através dos meios santos que a Igreja nos propõe: o jejum, a oração e a esmola. Na base de tudo isto, porém, está a Palavra de Deus, que somos convidados a ouvir e meditar com maior assiduidade neste tempo. Aqui queria deter-me, em particular, na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31). Deixemo-nos inspirar por esta página tão significativa, que nos dá a chave para compreender como temos de agir para alcançarmos a verdadeira felicidade e a vida eterna, incitando-nos a uma sincera conversão.

1. O outro é um dom

A parábola inicia com a apresentação dos dois personagens principais, mas quem aparece descrito de forma mais detalhada é o pobre: encontra-se numa condição desesperada e sem forças para se solevar, jaz à porta do rico na esperança de comer as migalhas que caem da mesa dele, tem o corpo coberto de chagas, que os cães vêm lamber (cf. vv. 20-21). Enfim, o quadro é sombrio, com o homem degradado e humilhado.

A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata duma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase de família, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a duma escória humana (cf. Homilia na Santa Missa, 8 de janeiro de 2016).

Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido. A Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil. Mas, para se poder fazer isto, é necessário tomar a sério também aquilo que o Evangelho nos revela a propósito do homem rico.

2. O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um caráter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).

O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.

Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).

O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.

Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24).

3. A Palavra é um dom

O Evangelho do homem rico e do pobre Lázaro ajuda a prepararmo-nos bem para a Páscoa que se aproxima. A liturgia de Quarta-Feira de Cinzas convida-nos a viver uma experiência semelhante à que faz de forma tão dramática o rico. Quando impõe as cinzas sobre a cabeça, o sacerdote repete estas palavras: «Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar». De facto, tanto o rico como o pobre morrem, e a parte principal da parábola desenrola-se no Além. Dum momento para o outro, os dois personagens descobrem que nós «nada trouxemos ao mundo e nada podemos levar dele» (1 Tm 6, 7).

Também o nosso olhar se abre para o Além, onde o rico tece um longo diálogo com Abraão, a quem trata por «pai» (Lc 16, 24.27), dando mostras de fazer parte do povo de Deus. Este detalhe torna ainda mais contraditória a sua vida, porque até agora nada se disse da sua relação com Deus. Com efeito, na sua vida, não havia lugar para Deus, sendo ele mesmo o seu único deus.

Só no meio dos tormentos do Além é que o rico reconhece Lázaro e queria que o pobre aliviasse os seus sofrimentos com um pouco de água. Os gestos solicitados a Lázaro são semelhantes aos que o rico poderia ter feito, mas nunca fez. Abraão, porém, explica-lhe: «Recebeste os teus bens na vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado» (v. 25). No Além, restabelece-se uma certa equidade, e os males da vida são contrabalançados pelo bem.

Mas a parábola continua, apresentando uma mensagem para todos os cristãos. De facto o rico, que ainda tem irmãos vivos, pede a Abraão que mande Lázaro avisá-los; mas Abraão respondeu: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam» (v. 29). E, à sucessiva objeção do rico, acrescenta: «Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos» (v. 31).

Deste modo se patenteia o verdadeiro problema do rico: a raiz dos seus males é não dar ouvidos à Palavra de Deus; isto levou-o a deixar de amar a Deus e, consequentemente, a desprezar o próximo. A Palavra de Deus é uma força viva, capaz de suscitar a conversão no coração dos homens e orientar de novo a pessoa para Deus. Fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão.

Amados irmãos e irmãs, a Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor – que, nos quarenta dias passados no deserto, venceu as ciladas do Tentador – indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização dum verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos necessitados. Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.

Vaticano, 18 de outubro – Festa do Evangelista São Lucas – de 2016.

FRANCISCO

Vatican.va

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